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Dia histórico

por Luís Naves, em 27.04.18

Ainda bem que fiquei acordado de madrugada, a ver pela televisão o início de um dia histórico. Os dois presidentes coreanos encontraram-se logo pela manhã (hora coreana) na zona desmilitarizada e, pelos gestos, pela simplicidade da cerimónia, via-se que algo de importante estava prestes a acontecer. Desliguei o televisor quando os dois entraram numa sala, em grande clima de amizade. Durante as conversações que se seguiram, Kim Jong-un e Moon Jae-in decidiram pôr termo à Guerra da Coreia, conflito tecnicamente ainda em vigor, pois só existe armistício entre as partes (pelos vistos, em breve haverá tratado de paz). Em Panmunjon, os dois líderes decidiram também concretizar a desnuclearização da península (exigência americana) e provavelmente esta possibilidade terá um complemento de segurança económica para a Coreia do Norte, factura que Seul não terá problemas em suportar. Estes desenvolvimentos confirmam o acerto da abordagem duríssima dos Estados Unidos em relação aos ensaios nucleares norte-coreanos, que incluiu a presença de porta-aviões na região. Então, houve comentadores a dizer que Donald Trump era louco e que ia provocar a Terceira Guerra Mundial, mas estes peritos terão dificuldade em manter as críticas, apesar de se esboçar uma nova linha dos ataques: Kim Jong-un é um ditador e parece lamentável que se façam acordos de paz com tiranos. A confirmar-se a desnuclearização, este dia sem precedentes (conseguir a paz na Coreia) representa o primeiro sinal concreto da mudança em curso na ordem mundial. Trump pode ser isolacionista, mas está a romper com a tradição que se mantém desde os anos 60 na diplomacia americana. No último meio século, foi dada importância aos valores democráticos dos aliados ou dos países com quem os americanos negociavam; Trump quer regressar aos anos 50 e à fórmula bem resumida pelo presidente Eisenhower, que falava de um ditador pró-americano: «Sim, ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta». Ignorar as questões de direitos humanos permite fazer acordos com Kim ou com a China, facilita soluções pragmáticas e evita trazer para as negociações assuntos que os tiranos consideram existenciais, pois são susceptíveis de mudar os seus regimes políticos. Por tradição, os EUA concedem a outras potências democráticas um pedaço do poder mundial, mas essa compensação deixou de ser automática, como aliás a Europa e o Japão começam a sentir na pele. A China assume-se como o grande rival da América, mas pode ter vantagens que antes estavam reservadas apenas a parceiros com democracias. A ordem mundial baseia-se agora no equilíbrio de poder, que é uma questão crua e sem sentimentalismo. Obviamente, sem a pressão da China, o entendimento coreano não existiria e nos próximos tempos veremos o que é que Washington deu em troca a Pequim. Uma coisa é certa: os direitos humanos não entraram na equação, ou nada disto teria sido possível.


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