Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




1.º A LIGAÇÃO AO PS DE SÓCRATES: Pedro Marques foi Secretário de Estado da Segurança Social dos governos de Sócrates. Como António Costa e outros que este recuperou para o executivo actual, Marques não viu nem indícios de conduta criminosa, nem sinais de que o caminho trilhado levaria à bancarrota. Num país decente, nenhum partido ousaria propor uma solução governativa com a galeria de caras velhas e comprometidas com o passado de que Pedro Marques faz parte. Da mesma forma, nenhum partido decente proporia para cabeça de lista um candidato com tal passado. É ocioso referir a conclusão que se tiraria sobre a natureza do PS se partíssemos desta premissa para construir um silogismo elementar.

2.º PEDRO SILVA PEREIRA: valem aqui todas as considerações do ponto anterior, sublinhadas por ainda mais veemente indignação. Não é por acaso que todos os candidatos da lista do PS em lugares elegíveis estiveram já em acções de campanha. Todavia, não há registo de um momento de participação de Pedro Silva Pereira numa arruada, numa reunião, num almoço. Nada. Compreende-se. Tal como o PS, eu próprio teria vergonha de pedir a alguém para votar numa lista em que Pedro Silva Pereira aparecesse em 3º lugar. Ao contrário do PS, eu teria igualmente vergonha de o incluir numa lista.

3.º A MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO COMO FORMA CORRENTE DE FAZER POLÍTICA: enquanto Marques foi Ministro do Planeamento e Infraestruturas, o Ministério utilizou uma forma de comunicação absolutamente desvinculada da realidade. Ficaram célebres as inaugurações não de obras, mas de concursos de lançamento de obras. Sistematicamente, o Ministério de Marques levantou poeira não para assentar fundações, mas para intrujar a opinião pública. Marques foi recentemente acusado de algum grau de cumplicidade com as operações de intoxicação protagonizadas, a soldo de Sócrates, pelo blogue Câmara Corporativa. Coincidência ou não, os métodos utilizados pelo Ministério de Marques foram os mesmos.

4.º AS CATIVAÇÕES E O INVESTIMENTO PÚBLICO: como nenhum outro, e contando com a permissividade dos parceiros da Geringonça, o governo de António Costa desrespeitou o Parlamento e as regras da democracia ao fazer do Orçamento de Estado um documento vazio e sem qualquer valor político, completamente subalternizado às cativações decididas pelo Ministro das Finanças. Pedro Marques, enquanto Ministro das Infraestruturas, foi o ponta de lança complacente desta abordagem, sendo o principal responsável pelos níveis absolutamente ridículos de investimento público registados desde que o governo entrou em funções.

5.º A DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS ESSENCIAIS: como consequência directa da situação descrita no ponto anterior, serviços fundamentais como o transporte ficaram absolutamente condicionados com a conivência de Pedro Marques. Os utentes da CP, apenas para falar dos mais sacrificados, foram brindados nos últimos anos com um calvário de atrasos, maus serviços e supressões. Não é por acaso que Pedro Marques realizou acções de campanha em composições da Fertagus, mas nunca pôs os pés num comboio da CP.

6.º O DESPREZO PELO PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE POLÍTICA: a tragédia dos incêndios, Tancos ou Borba como expoentes de uma visão em que o poder político desaparece de cena deixando os cidadãos entregues à sua própria sorte. No caso de Borba, Pedro Marques chegou a declarar que existia uma estrada alternativa. Não era de esperar outra coisa. Se virmos bem, a responsabilidade foi dos que morreram que podiam ter escolhido outra via e insistiram em utilizar a que ruiu.

7.º O NEPOTISMO: a lista de candidatos às Europeias, apesar da tentativa de passar entre os pingos da chuva nesta matéria, não foge à regra da endogamia que tem sido amplamente documentada no PS. Maria Manuel Leitão Marques, a nº 2 da lista, é casada com Vital Moreira. Margarida Marques, a nº 4, é casada com Porfírio Silva, uma das eminências pardacentas do partido. Não se trata de questionar individualmente nenhuma destas pessoas. Trata-se de constatar que também aqui há casos de família que se somam às dezenas de outros que vão desde os gabinetes do governo até à Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa.

8.º A CALÚNIA COMO INSTRUMENTO DE CAMPANHA: num tweet publicado há umas semanas, Marques acusou Paulo Rangel, em quem não votarei, de “não fazer o trabalho no Parlamento Europeu”. Concretamente, afirmava que o que se “conhece do seu trabalho é um relatório legislativo e um relatório não legislativo” e que Paulo Rangel estaria “num brilhante lugar 597 entre os mais de 760 (sic) deputados”. Existe realmente um ranking que avalia os Eurodeputados pela sua actividade no PE. O score global é calculado a partir de um algoritmo que tem em conta diversos itens (questões escritas, moções, relatórios, etc.). Ora, Rangel está, de facto, na posição 597 no item “relatórios”. Todavia, o score global de Rangel, que engloba toda a actividade relevante desenvolvida, coloca-o na posição 150. Rangel fica assim bem à frente, por exemplo, de Pedro Silva Pereira que não foi além do lugar 298. Mais, se consideramos o score global da totalidade dos Eurodeputados portugueses, Rangel está em 6º, à frente do melhor socialista (Maria João Rodrigues) que ocupa o 8º lugar. Marques sabia perfeitamente que tudo isto é assim, mas não se coibiu quer de publicar a informação de forma enviesada, quer de repeti-la posteriormente.

9.º A CHANTAGEM DE COSTA: independentemente da maior ou menor hipocrisia das posições de PSD e CDS a propósito da contagem do tempo de serviço dos professores, o certo é que António Costa quis promover uma crise artificial, baseada numa vitimização despropositada, visando condicionar a opinião pública e tendo também como objectivo as eleições Europeias. Votar em Pedro Marques é validar uma visão em que a golpada e a chico-espertice são um modo de relação admissível com os eleitores.

10.º OS OUTROS CANDIDATOS: nestas eleições não faltam alternativas políticas e, em geral, os candidatos apresentados pelos outros partidos são, ao contrário do que aconteceu com o PS, merecedores de crédito junto do respectivo eleitorado natural. João Ferreira, Marisa Matias, Paulo Rangel, Ricardo Arroja, Rui Tavares ou Paulo Sande constituem escolhas consistentes e viáveis. O próprio Nuno Melo, passando pouco tempo em trabalho parlamentar, tem a vantagem de não estragar muito. Neste contexto, o eleitor, colocado perante a possibilidade de votar na lista do PS, deve perguntar a si mesmo se merece o enxovalho de contribuir para eleger Pedro Marques e Pedro Silva Pereira.

 

* publicado na edição de Maio do Dia 15.

Autoria e outros dados (tags, etc)


24 comentários

Imagem de perfil

De jpt a 23.05.2019 às 11:32

Belo e, mais do que tudo, certeiro texto. E essa do "No caso de Borba, Pedro Marques chegou a declarar que existia uma estrada alternativa.", que eu desconhecia, mostra bem o traste que o homem é. A gente diante destes de agora até fica com saudades do Jorge Coelho. E é obra provocar tal coisa ...
Sem imagem de perfil

De J. L. a 23.05.2019 às 11:41

Por uma questão de isenção, agora apresente dez razões para votar em Pedro Marques.
Tenho a impressão de que nalguns items levantou uma pedra que lhe vai cair sobre os pés. É o que acontece quando se passa à roupa suja. Como todos têm telhados de vidro ... nunca mais acaba o mal dizer.
Imagem de perfil

De José da Xã a 23.05.2019 às 11:54

Bravo!

Alguém que tenha a coragem de dizer o que muita gente pensa, mas que por medo ou outros estranhos receios, inibe-se de falar!

Há muitos anos alguém me disse que votaria no PS em vez do PSD ou CDS porque com os socialistas a corrupção seria mais barata!

Hoje como antigamente...
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 23.05.2019 às 11:57

Eu não vou votar no PS (nem no PSD, evidentemente), mas questiono, em que é que a maior parte destes argumentos (se não todos) põem em causa a candidatura do PS às eleições europeias. É que, a maior parte (se não todos) destes argumentos são válidos para eleições de âmbito nacional (presidenciais, legislativas ou autárquicas) mas em nada prejudicam os eurodeputados.
Imagem de perfil

De Vorph Ivanova a 23.05.2019 às 12:04

"Eu não vou votar no PS (nem no PSD, evidentemente), mas questiono, em que é que a maior parte destes argumentos (se não todos) põem em causa a candidatura do PS às eleições europeias"

Eu digo-lhe. Revela a fibra e a tessitura do PS e dos seus candidatos.
Sem imagem de perfil

De J. L. a 23.05.2019 às 12:28

"Revela a fibra e a tessitura do PS e dos seus candidatos."
Cuidado com as pedras que caem nos pés.
Duarte Lima, Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Cavaco Silva, a Banca, Durão Barroso, etc. etc.
Imagem de perfil

De Vorph Ivanova a 23.05.2019 às 12:55

Oliveira e Costa está na lista do PSD para as Europeias? Ó diabos....
Imagem de perfil

De jpt a 23.05.2019 às 14:05

o Duarte Lima também estava, mas teve que se ausentar ...

(não há paciência para estes adeptos do futebol que vêm botar sobre política: a gente rouba para o Porto mas os do Benfica também roubam, por isso ..., balbucia -se, ufano da profundidade analítica)
Sem imagem de perfil

De J. L. a 23.05.2019 às 14:34

Não me expliquei bem. Não é isso, trata-se de mera táctica eleitoral. O lavar de roupa suja raramente dá votos porque todos têm telhados de vidro e esse tipo de argumento acaba em geral em algazarra. Como já se começa a adivinhar pela sua resposta. Só queria sugerir que falar do nosso projecto político é preferível. Mas isso sou eu que penso assim. Se calhar bordoada rende mais, sobretudo se o eleitorado for politicamente analfabeto ou quase.
Já agora, um argumento que falta: não se deve votar em Pedro Marques porque ele fala sem mostrar os dentes como, muito bem, argumentou Ricardo Araújo Pereira.
Duarte Lima ausentou-se contra a sua vontade, mas já Dias Loureiro foi porque achou mais prudente.
Imagem de perfil

De Vorph Ivanova a 23.05.2019 às 15:07

"Só queria sugerir que falar do nosso projecto político é preferível"

Como em qualquer projecto há que ter, também, em conta o nome do "engenheiro" que assina a obra.
Imagem de perfil

De jpt a 23.05.2019 às 12:14

Comentador Lavoura eu sei que os seus comentários são, quase sempre, para "fazer conversa" mas este descamba. Veja isto: grande parte das críticas (fundamentadas ou não, exageradas ou não) às instituições europeias e aos processos políticos da União Europeia (à "Bruxelas" que muitos apregoam) centram-se na sua falta de representatividade, à sua opacidade, em suma à falta de democraticidade dessa "Europa". Essa linha discursiva muito tem alimentado a aversão pela configuração da UE como existe agora. Os pontos 1,2,3,6,7 deste texto centram-se nesse processo, a nível interno, mas que tem repercussões nas práticas como se entende a prática política na "Europa"
O ponto 4 é óbvio, seja no relacionamento dos OGEs com as instituições europeias, seja no que implica de utilização e solicitação de fundos europeus.
E o ponto 5 centra-se, de facto, na realidade do "modelo social europeu" que é o que está em discussão - e de que maneira - na Europa.
Como vê, para falar de temas europeus não é preciso a bandeirinha azul com 12 estrelas amarelas.
Sempre ao seu dispor
Perfil Facebook

De Cristina Filipe Nogueira a 23.05.2019 às 12:35

Excelente texto. Parabéns.
Infelizmente esta realidade não é conhecida ou compreendida pela maior parte dos eleitores.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 23.05.2019 às 12:41

Até me admira não estar por lá um familiar de Carlos César... Silva Pereira é aquela história, um dos próximos de Sócrates que de nada sabia...

No entanto, vejamos os CV destes indivíduos e vamos aferir quantos estão qualificados para o cargo... Sugiro que se sentem antes de ler...

https://europa.ps.pt/?page_id=3359


Mas agora venham dez razões para não votar Rangel, Melo, Matias e Ferreira... Depois logo vemos a balança...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.05.2019 às 12:56

Execelente .Para agora recordar, e não mais tarde. Exaustivo.
Solução?.
A democracia representativa -sendo a menos trabalhosa para eleitores e para o sistema- resulta e continuará a resultar, em más administrações do País.
Os eleitos, no presente sistema, uma vez (re)adquirido o poder político, continuarão a gerir o País, impunemente, como melhor entenderem, em seu proveito, como se constata.

Com uma democracia directa -mais trabalhosa mas mais rigorosa- certamente que as sucessivas administrações do País teriam, para sibreviver como tal, consistentemente pugnado pelos interesses nacionais.

É pena que os constitucionalistas se tenham inspirado numa URSS e numa China em vez de numa pequena propera Suiça ...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.05.2019 às 13:09

Exmo Sr agradeço que leia com atenção os "scores", porque o primeiro socialista que aparece chama-se Ricardo Serrão Santos, com 77,4 pontos, deputado pelos Açores, bem à frente de Rangel por 4%.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 23.05.2019 às 13:51

Tem razão. Fica aqui a correcção.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.05.2019 às 14:04

A (des)propósito : a sigla PS não corresponderá a Partido Sarjeta?
Não há dejecto que não vá lá parar - muito útil o colector de ligação aos Açores.
Total, e obrigatória!, concordância com o texto.
Sem imagem de perfil

De J. L. a 23.05.2019 às 14:37

" a sigla PS não corresponderá a Partido Sarjeta?"
Senhor jpg: cá está num bom argumento, não acha? Faço-me entender? É assim que se acaba quando mal se começa.
Sem imagem de perfil

De Francisco a 23.05.2019 às 14:42

Bastaria a única e mesma razão para não votar em qualquer partido, a de sermos representados pelo silêncio que todos os candidatos fizeram em relação aos malefícios que desencadeará na saúde pública a tecnologia 5G.

Dentro de pouco tempo vamos assistir ao maior invasão de hipócritas...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.05.2019 às 15:09

"vamos assistir ao maior invasão de hipócritas... " Os políticos são todos ruins, só o povão é bom e puro (apesar com frequência se deixar enganar quando vota).

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D