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Delito de Opinião

Dez livros para comprar no Natal

Pedro Correia, 10.12.16

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Livro dez: Macbeth, de William Shakespeare

Tradução de José Miguel Silva

Edição Relógio d' Água, 2016

149 páginas

 

Um clássico, ensinou-nos Italo Calvino, é uma obra literária que nunca cessa de dizer aquilo que tem a dizer. Felizmente ainda existem entre nós editoras que apostam nos autores clássicos – aqueles que conseguiram seduzir sucessivas gerações de leitores em diversas latitudes e continuam a possuir o dom de nos elevar acima da mediania.

Um dos mais recentes clássicos reeditados entre nós, em irrepreensível tradução de José Miguel Silva, é este Macbeth – que integra o quarteto de tragédias capitais nascidas do génio de William Shakespeare (1564-1616), em conjunto com Hamlet, Otelo e O Rei Lear. Ascensão e queda de um tirano assombrado pelas suas vítimas, este drama em cinco actos é uma viagem à face mais sombria da política, simbolizada no usurpador do trono escocês e da sua mulher, Lady Macbeth, uma das maiores vilãs da história da literatura, que implora desta forma aos espíritos malignos: “Despojai-me do meu sexo e cumulai-me / de terrível crueldade. Que meu sangue / se adense, impedindo a passagem ao remorso; / que nenhuma compaixão possa abalar / os meus ímpios desígnios, interpondo-se / entre eles e os seus efeitos.”

Todas as paixões andam à solta neste magnífico texto teatral em que Shakespeare leva mais longe do que em qualquer outro a sua indisfarçável “extravagância da imaginação”, como acentuou o crítico britânico William Hazlitt (1878-1830) num ensaio incluído em posfácio desta edição. A Relógio d’ Água, recorde-se, já deu à estampa Henrique IV, Ricardo III, Hamlet, Romeu e Julieta e O Mercador de Veneza, entre outros títulos do cânone shakesperiano, revisitado com justificado interesse neste ano em que se assinala o quarto centenário da morte do escritor.

Para George Steiner, Shakespeare era “um ser cujos poderes criativos, num certo e determinado sentido, rivalizavam com os da natureza e da divindade”. Na mesma linha, Harold Bloom enaltece-o como “único rival possível para a Bíblia em termos de poder literário”. Atributos bem patentes neste Macbeth, cheio de solilóquios que ilustram o enigma da condição humana no ilusório palco da vida, tantas vezes percorrido por torrentes de “som e fúria” em direcção ao nada.

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