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Delito de Opinião

Dez livros para comprar no Natal

Pedro Correia, 08.12.16

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Livro oito: O Segredo dos Seus Olhos, de Eduardo Sacheri

Tradução de Vasco Gato

Edição Alfaguara, 2016

309 páginas

 

Já conhecíamos a  belíssima longa-metragem de Juan José Campanella – galardoada com o Óscar de 2009 para melhor filme não falado em inglês. Faltava a obra literária que serviu de ponto de partida para a película: O Segredo dos Seus Olhos, belo romance de Eduardo Sacheri, um professor de História nascido em 1967 na capital argentina, autor de seis livros de ficção.

É um misto de thriller com melodrama, tendo em fundo um fio de intriga política, percorrido por alusões à implacável ditadura militar argentina das décadas de 70 e 80. Anos de chumbo, em que o valor da vida humana caiu a pique e o futuro permanecia envolto em nevoeiro.

Um crime horroroso cometido em Buenos Aires vai marcar algumas vidas para sempre. Incluindo a de Benjamín Chaparro, vice-secretário num tribunal de instrução e fracassado aspirante a escritor. No decurso de longas horas de vigília, ele acaba por solucionar esse crime que permaneceu demasiados anos enterrado sem estar encerrado. Um crime que funciona como sugestiva alegoria de uma sociedade irremediavelmente doente – sob o signo do silêncio, do sofrimento e da solidão.

Chaparro, como tantos outros, voga desamparado na espuma de um quotidiano sem esperança: num mundo concentracionário, corrompido pelo vírus totalitário, o mínimo descuido pode traçar a fronteira entre a vida e a morte. E no entanto este modesto funcionário público insiste em ir ao encontro da justiça e da verdade, mesmo que isso faça estilhaçar os últimos vestígios que nele subsistem de crença na natureza humana.

“Não vemos a dor. Não podemos vê-la, simplesmente porque a dor não se vê em circunstância alguma. Podem ser vistos, quando muito, alguns dos seus mínimos sinais exteriores. Mas esses sinais sempre me pareceram mais máscaras que sintomas. Como poderá expressar o homem a angústia atroz da sua alma? Chorando a jorros e soltando alaridos? Balbuciando umas palavras desconexas? Gemendo? Vertendo umas quantas lágrimas? Eu sentia que todas essas demonstrações possíveis de dor eram apenas capazes de insultar essa dor, menosprezá-la, profaná-la, colocá-la à altura de demonstrações gratuitas.”

Palavras que ficam connosco muito depois de as lermos. Dificilmente haverá maior elogio a um livro, seja ele qual for.

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