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Delito de Opinião

Dez livros para comprar no Natal

Pedro Correia, 05.12.16

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Livro cinco: A Vida e a Morte dos Nossos Bancos, de Helena Garrido

Edição Contraponto, 2016

215 páginas

 

Este livro cumpre uma missão de serviço público. Num tom sereno e reflectido mas sempre acutilante, a jornalista Helena Garrido descreve a sucessão de lamentáveis episódios que fizeram tremer o sistema financeiro português, levando à queda do BPN, do BPP, do BES e do Banif, à descapitalização da Caixa Geral de Depósitos e ao esforço acrescido dos contribuintes, através dos impostos, para evitar que o rombo fosse ainda maior. “As responsabilidades financeiras assumidas pelo Estado nos três casos de morte bancária somam 14 mil milhões de euros, quase tanto quanto o Estado recebeu em IVA no ano de 2015”, observa a autora.

Por incompetência, incúria, negligência ou dolo, a banca nacional caucionou durante duas décadas os negócios mais ruinosos – na construção civil, na promoção imobiliária, em empréstimos milionários para aquisição de terrenos, em insustentáveis parcerias público-privadas, nos “grandes projectos estratégicos” que por vezes nem chegaram a sair do papel mas contavam com generosos financiamentos, afinal a fundo perdido. E a banca, por sua vez, alimentava-se de uma ilusória espiral de crédito que durou até o Banco Central Europeu fechar a torneira.

Foram os anos da “grande farra”, como os classifica a autora, ex-directora do Negócios e comentadora assídua de temas económicos em jornais e canais televisivos. Os banqueiros traíram a confiança dos depositantes para praticarem actos inversos ao que deu fama ao Rei Midas, fazendo volatilizar o dinheiro. Em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário português. Só um gestor, José Oliveira e Costa, esteve algum tempo preso. Mais ninguém.

Os exemplos multiplicam-se. Eis um dos mais chocantes: o BES emprestou três mil milhões de euros à sua filial angolana, o BESA, mas quase toda a carteira de crédito sumiu-se: “está perdida, alguém ficou o com o dinheiro, não há a quem reclamar.” No auge da euforia dos projectos turísticos, o próprio Estado, através da Estamo, “comprou a prisão de Pinheiro da Cruz para fazer ali um empreendimento com campo de golfe” que nunca avançou.

A Vida e a Morte dos Nossos Bancos lê-se de um fôlego e com crescente indignação perante este ruinoso panorama, que beneficiou de estreitas cumplicidades do poder político e da chocante complacência do Banco de Portugal, que sob diferentes administrações agiu sempre tarde e quase sempre mal. E nós a pagarmos tudo.

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