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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 03.06.18

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Livro três: Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares

Edição Clube do Autor, 2018

362 páginas

 

Não há segunda oportunidade para uma primeira impressão. Este é um livro que nos conquista logo à primeira. Desde logo pelo originalíssimo título, que é um achado. Refere-se à merenda que o pequeno Miguel comia em casa dos padrinhos, numa aldeia do Marão onde frequentou os dois anos iniciais do ensino básico. Ali aprendeu lições para a vida que desfia neste saboroso volume de memórias, subintitulado "Da Infância Para o Mundo".

É talvez o melhor livro deste jornalista que foi infatigável viajante antes de se tornar escritor. Um livro escrito com visível prazer e indisfarçável vontade de eleger o leitor como cúmplice. Fala-nos de um Portugal que já não existe - o Portugal triste e ensimesmado da ditadura, o Portugal festivo do 25 de Abril, o Portugal alucinado do PREC, o Portugal errático mas transbordante de esperança da primeira década em democracia.

Ao contrário do que costuma suceder entre nós, onde as memórias partilhadas em público são escassas e as recordações surgem embargadas entre biombos para não melindrar terceiros, aqui o autor liberta-se de eufemismos e não se furta a fazer desfilar nestas páginas personalidades com nome próprio. Por vezes com episódios divertidíssimos, como quando Mário Soares e Maria Barroso adormeceram durante uma projecção caseira de Lawrence da Arábia na residência algarvia, deixando embaraçadíssimo Sousa Tavares, que ali estava como visitante. Ou o director do defunto jornal A Luta, o socialista Raul Rego, que todos os dias encomendava um bitoque para almoçar à mesma hora, fechado no gabinete, e só aparecia na Redacção para berrar com um chefe depois de Soares ter berrado com ele por não gostar da suposta manchete do dia seguinte. Ou da mãe do cineasta João César Monteiro, «ainda mais doida do que ele», que apareceu um dia lá em casa chorando porque o filho tinha morrido «e ela não tinha dinheiro para o funeral», arrancando lágrimas - e dinheiro - a toda a família. «No dia seguinte, sem nada saber da própria morte, aparece-nos o morto, ressuscitado, a pedir almoço.»

Algumas das melhores páginas desta memórias que se lêem de um jacto são dedicadas aos pais. Sobretudo à mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen, que lhe legou máximas inesquecíveis. Eis uma delas: «Viajar é olhar.» Miguel, justamente comovido, confidencia-nos: «Também aprendi com ela que saber partilhar o silêncio é a forma mais íntima de estar com alguém. E, na verdade, por maior que seja o silêncio, nunca deixou de falar comigo. Quanto mais não seja nos poemas que deixou nas páginas dos seus livros, alguns dos quais escrevi nas paredes da minha casa para que ela saiba que continuo a escutá-la.»

 

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

 

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras):

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4 comentários

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De Meister Von Kälhau a 03.06.2018 às 10:16

Li a entrevista na Visão.
Dizia Sousa Tavares que embora a família fosse nobilitada passavam frequentemente por dificuldades porque ninguém dava trabalho ao pai, excepto Champalimaud. E que viver, ser educado, com dois idealistas não foi tarefa fácil, mas que dela não abdicaria por uma outra de tipo mais aburguesada. Uma medíocre, de "nins" e do respeitinho muito lindo.

Miguel conta que às 3 da madrugada "apanhava" a mãe na sala declamando é dançando.

O livro deve ser interessante
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De Pedro Correia a 03.06.2018 às 10:22

Gostei muito do livro. Muito. E recomendo, claro.
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De Teresa Ribeiro a 03.06.2018 às 10:51

Não conhecia essa da mãe do César Monteiro, mas soube, de fonte segura, que isso era o que ele próprio fazia para sacar dinheiro aos amigos. Pelos vistos, aprendeu com a mãe. De vez em quando fazia peditório na cinemateca para o funeral de alguém ligado ao cinema. Mortos que invariavelmente estavam vivinhos da costa :)
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De Meister Von Kälhau a 03.06.2018 às 11:07

Um Maníaco de Qualidade

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