Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




21wed1-master768.jpg

Ilustração de Andrea Ucini/NYT 

 

Quem diria que seria Donald Trump a propor uma mudança legislativa restritiva em matéria de armas... É certo que a ordem executiva que o Presidente assinou, e que obriga o Departamento de Justiça a rever a lei, é bastante limitada e incide apenas na proibição da venda de acessórios ("bump-stocks) que permitem modificar armas semi-automáticas em automáticas, mas, mesmo assim, já é qualquer coisa. É também certo que Trump, num laivo de bom senso político ou bem aconselhado, percebeu rapidamente que precisava de aliviar a pressão. Antes, já tinha também anunciado que estava disponível para apoiar legislação que aperte o controlo ao "background" de possíveis compradores de armas. Estas medidas são claramente insuficientes e, na verdade, até têm o apoio da National Rifle Association (NRA), o que se compreende, já que, através destas cedências, aquela organização vai gerindo a agenda das armas nos EUA, mantendo intacto o enquadramento legal que verdadeiramente interessa e que permite ter no mercado todo o tipo de armas.

 

Aliás, poucos acreditam que a vontade reformadora de Trump vá ao ponto de se poder vir a discutir a proibição da venda de armas de assalto. No entanto, isso não significa que a Casa Branca, nesta altura, não alimente junto da opinião pública a percepção de que Trump poderá estar comprometido com novas medidas restritivas. E neste sentido, as declarações da sua porta-voz, Sarah Huckabee Sanders, são muito interessantes, porque quando questionada pelos jornalistas sobre a possibilidade da proibição da venda de armas de assalto, responde que a Casa Branca "não fecha a porta em nenhuma frente". Isto é o mesmo que dizer que Trump admite rever a lei para proibir a venda daquele tipo de armas, o que é uma posição arrojada, para um Presidente republicano que se assumiu um "true friend and champion in the White House" da NRA.  A questão é que mesmo sabendo-se que dificilmente será concretizada algum tipo de iniciativa, a "intenção" presidencial já foi lançada para a opinião pública.

 

Se olharmos com clareza para as últimas décadas, constatamos que em matéria de controlo de armas os presidentes americanos têm sido impotentes ou passivos, ficando sempre amarrados aos seus interesses e ao "gun lobby". Nem Barack Obama conseguiu mexer substancialmente no sistema vigente. Os massacres sucedem-se, mas a acção política tem-se ficado pelos lamentos. Pelo menos, até agora. Trump, por pouco que seja, está a fazer algo de concreto e, como foi acima referido, tem tido a preocupação de passar a ideia da "intenção" de fazer ainda mais. E esta "intenção" não deve ser desvalorizada, tendo em conta as pressões, os lobbies e os financiamentos eleitorais que se fazem sentir e jogam na arena das armas. Trump parece estar a ir um pouco mais além do que, por exemplo, Barack Obama terá ido em matéria de controlo de armas.

 

O que terá então acontecido para que Trump, um republicano "amigo" das armas, esteja a ter uma posiçao aparentemente mais interventiva do que Obama, claramente identificado com um outro tipo de sociedade? A resposta, na minha opinião, tem a ver com um fenómeno que está a acontecer desta vez e que não se verificou em tragédias anteriores semelhantes: a resposta e a mobilização dos jovens estudantes. Para quem tem acompanhado os meios de comunicação social norte-americanos nos últimos dias, percebe que há uma dinâmica crescente, que tem potencial para se transformar numa questão política e social, sobretudo a partir do momento em que os jovens estudantes decidiram fazer uma "marcha" sobre Washington. A Casa Branca percebeu o que tinha pela frente, porque desta vez não se trata apenas de uma campanha dos media das elites de Washington contra a administração. A causa dos jovens estudantes tem um aliado muito mais poderoso: os seus pais. Se, por um lado, a irreverência e temeridade da juventude dá a dinâmica ao movimento, os pais dão a consistência e a dimensão. Trump percebeu isso ao ponto de alguém ter "passado" ao Washington Post a informação de que o Presidente tinha ficado muito sensibilizado quando viu as reportagens dos jovens estudantes e que se terá virado para os seus convidados, que estavam com ele na residência de férias de Mar-a-Largo na Flórida, e lhes terá perguntado o que mais poderia fazer pelo controlo de armas. Provavelmente, Trump saberia melhor do que ninguém naquela sala o que poderia fazer, mas a questão é que da forma como a história é contada e transmitida (como se de uma grande cacha do Post tratasse), as pessoas ficam com a percepção de que o Presidente, na sua intimidade, se importa genuinamento com o assunto. E isso em comunicação política é o que, por vezes, mais conta.

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 comentários

Imagem de perfil

De Magda L Pais a 21.02.2018 às 15:43

Tenho sérias dúvidas se o "Presidente, na sua intimidade, se importa genuinamento com o assunto". Registo com agrado este pequeno passo que Trump deu, sei que todas as caminhadas começam com pequenos passos (ou, usando uma frase que gosto muito - os elefantes comem-se uma dentada de cada vez) mas parece-me muito mas mesmo muito insignificante.
Sem imagem de perfil

De joao a 21.02.2018 às 17:40

Mas a administração do santo obama não teve 8 anos, alguns dos quais com maioria no congresso para proibir as armas. Nesse período existiram atentados em escolas. Onde estavam os estudantes e os merdia ?Não teve tempo ? se calhar não, uma vez que perdia muito tempo a fechar guantanamo, a jogar golfe e fazer de comediante nos talk-shows de tv. Se a hipocrisia democrata inutilizasse armas, não havia armas por esta altura nos eua.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.02.2018 às 22:56

Parece-me que o João está a confundir o Obama com o Trump. "Jogar golfe", really? Deve ter engolido os factos alternativos todos.
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 21.02.2018 às 19:04

Até o ano de 2012 foram registrados em todo o mundo cerca de 400 ataques contra escolas; cerca de 87% dentre os que atiraram contra alunos nos últimos 45 anos foram estudantes que sofreram bullying na própria instituição.

Como estamos de bullying? Sobrarão as facas e machados?

O problema dos EUA é mais na cabeça que no dedo. Em Portugal existem segundo a PSP, 1,4 milhões de armas legais em Portugal. A este número juntam-se outros 1,2 milhões de armas ilegais em território nacional. Ou seja, para cada 100 portugueses, existirão 26 armas de fogo.

Quantos massacres em Portugal?
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.02.2018 às 23:00

"1.2 milhões de armas ilegais"? De onde vem essa estatística? Se tem conhecimento de um número tão alto de armas ilegais, porque não denunciou às autoridades? Ao não o ter feito, está a ser cúmplice de muitos crimes.

Temos então 14 armas de fogo por cada 100 habitantes em Portugal. Sabe como é a situação nos EUA? Há mais armas de fogo que pessoas.

O Canadá tem uma cultura semelhante aos EUA mas não tem tantos massacres. Porque será?
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 22.02.2018 às 08:08

http://visao.sapo.pt/atualidade/um-em-cada-cinco-portugueses-tem-uma-arma-ilegal=f560026

O Canadá tem um cultura muito diferente da Estado Unidense. Basta ver que os canadenses tem um Sistema Nacional de Saúde semelhante ao europeu.

Menos soberba!

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 22.02.2018 às 09:18

É falso que o Canadá tenha uma cultura semelhante à dos EUA. Eu conheço ambos os países e posso assegurar que culturalmente são muito diferentes (e, é claro, no interior deles também há grandes diferenças).
Sem imagem de perfil

De JS a 21.02.2018 às 19:25

Parabéns A.R.. Poucos têm a coragem de escrever o quê escreveu: dar a Obama o que é de Obama e a Trump o que é de Trump. Boa análise.
Nunca esquecendo, no entanto, que existe (infelizmente) um (explicável) crescendo de violência em certas faixas sociais da juventude nos EUA.
Sem imagem de perfil

De Lucklucky a 21.02.2018 às 21:47

Se você tem o jornalismo a justificar a violência aumenta a violência.
Veja-se o que aconteceu nas cidades onde existiram os protestos "raciais" na época Obama onde até uma mayor justificou a violência.
Resultado uma data de gente emigrou.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.02.2018 às 23:01

Todas as estatísticas contradizem a sua última frase. Mas você deve preferir os factos alternativos.
Sem imagem de perfil

De Lucklucky a 22.02.2018 às 05:51

http://time.com/4651122/homicides-increase-cities-2016/

https://www.usnews.com/news/articles/2015/03/06/gang-violence-is-on-the-rise-even-as-overall-violence-declines
Sem imagem de perfil

De Lucklucky a 21.02.2018 às 21:42

O que se discute aqui não é sobre armas, nem sobre violência.
O que interessa é reforçar o poder totalitário do Estado. É isso que está por detrás de textos como este.

Porque se o problema fosse a violência discutia-se a violência.
Isto é só uma proxy para uma uniformização cultural/politica de ódio aos outros.

Já a violência que não desce em cidades Democratas como Chicago, Baltimore, Filadélfia por exemplo não se discute.

Factos- Há muito mais armas agora que há 20 anos atrás.
Factos -E apesar de mais armas a violência com armas diminuiu.
Factos -Também as leis sobre armas em diversos estados se tornaram mais liberais.

Temos a censura sobre a incompetência do FBI bastamente avisado, sobre este e outros casos. Que também não interessa.

O que fica são mais uma vez são as fake news do jornalismo.
Porque se não fosse então teriam de fazer perguntas :
Escolas como organizações sociais de opressão?
Cidades mergulhadas no crime há décadas?

E isso não interessa, pois não é a violência que interessa. É o Poder.




Sem imagem de perfil

De Lucklucky a 23.02.2018 às 11:17

A censura é para continuar:

Sheriff: Armed officer at school never entered building during shooting

http://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/375174-broward-co-sheriff-armed-officer-at-school-never-went-into

Armed police are guarding the home of the deputy who resigned over his lack of action in the Parkland school shooting:

http://businessinsider.com/parkland-shooting-officer-resigns-deputies-sent-to-protect-his-family-2018-2

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D