Dessegurança social
Em tempos pretendi aceder a determinada informação sobre a minha conta na Segurança Social e por isso fui ao respectivo site, dali saltei para a Segurança Social Directa (sei hoje, mas então ignorava, que é directa ao coração porque faz subir a tensão e ao fígado porque incentiva a produção de quantidades anómalas de bílis) e perdi-me lá dentro.
Aquela joça, como outras que conheço da Administração Pública, representa um esforço para poupar deslocações aos cidadãos, mas invariavelmente requer destes que saibam navegar de modo a encontrarem o que procuram, visto que não existe nenhum mecanismo permanente de aperfeiçoamento baseado em reclamações, presumindo os informáticos, como presumem sempre, que as suas soluções são superlativas mas o utilizador burro, e os dirigentes que a modernização fica conseguida “investindo” milhões. Estão sempre presentes motores de busca, mas se a terminologia utilizada não for exactamente a mesma que o site contempla não se encontra nada.
Desisti e marquei através do site (sim, algumas coisas são boas, excelente desculpa para a maior parte serem más) um atendimento presencial – em Braga, que era o sítio mais perto.
Lá chegado, fui atendido por um suficiente que me informou ser jurista (logo ali me persignei) e que, inteirado da minha pretensão, esclareceu que semelhante informação só a poderia obter em Lisboa.
Extraordinário: Há informação em Lisboa a que é possível aceder se o beneficiário lá for, mas a delegação regional do mesmo serviço a ela não tem acesso, ou tem mas não a disponibiliza ao cidadão local, decerto para promover o famoso cheiro a Lisboa e a luz do dia, que naquela abençoada cidade, segundo opinião muito difundida, não tem paralelo em nenhuma outra, incluindo Tombuctu.
Creio ter, na altura, contado a história com mais detalhe (eu conto tudo, a minha vida é, além de exemplar, um livro aberto).
Deixei o assunto marinar e resolvi contactar um fundo abutre, que é o beneficiário da história, a fim de apurar o que me interessava. Estão a estudar o assunto há meses e, sempre que contactados, por escrito ou telefonicamente, informam que estão a estudar, de modo que concluí que o doutoramento em postergação ainda está longe de concluído e entretanto sempre vão recebendo a sua pitança.
A certo ponto resolvi ir para o tal site da Segurança Social, para o mesmo arrepelar de cabelos. Fui e, ó sorte!, ao cabo de percorrer caminhos, veredas e becos esconsos, encontrei um canto onde se pode escrever a suas internéticas excelências o que se deseja. Eis o que lá escrevi, em 26 de Novembro passado:
“A minha pensão de velhice é objecto de uma penhora desde 2019, ordenada por um agente de execução. Há um outro penhorado pela mesma dívida e o autor vendeu entretanto o crédito e o adquirente, posteriormente, mudou de designação social. A dívida pode estar extinta porque entretanto houve uma liquidação parcial por um administrador de insolvência e de todo o modo ignoro quanto é que foi já pago. Pretendo aceder à minha conta-corrente onde esteja evidenciada a dívida original, as datas das deduções à pensão e o respectivo beneficiário. Se for possível para o meu e-mail xxxxx”.
O sistema, com uma presteza que o honra, acusou a recepção e atribuiu um número ao pedido.
Desde então regressei ao site umas quantas vezes e de todas andei a apalpar o terreno até encontrar a mesma informação “Em Análise”. No intervalo, já recebi igualmente dois e-mails com a mesma esperançosa novidade.
Quase no fim da convalescença de uma gripe para a qual estava vacinado (abençoada vacina, se não a tivesse tomado por certo estaria quase em coma) lembrei-me de telefonar para um dos números que vem na tal Segurança Directa.
Esperei tempos infinitos enquanto ouvia uma daquelas musiquetas de encher chouriços, intervalada com umas orações sobre as maravilhas que oferece a Segurança Social e a simpática informação de que a chamada seria atendida logo que possível. Pus o telefone em alta voz e enquanto se desenrolava a interminável litania fui jogando sucessivas partidas de “FreeCell Two Decks”, em que sou consagrado mestre. A certo ponto verifiquei a carga do aparelho – ainda tinha um terço. Faltava bastante para me chamarem para o almoço e depois de cada jogo há outro, de modo que aguardei até que de lá uma senhora cujo nome não retive quis saber com quem falava e, logo a seguir, qual o meu número de beneficiário, o de contribuinte, a data de nascimento e o endereço. Respondi prestes, após o que disse ao que ia, informando do número atribuído ao meu pedido. Silêncio durante dois ou três minutos, após o que fui inteirado de que o serviço não era aquele, era coisa do Centro Nacional de Pensões. Comentei que estava a ligar para a Segurança Social, não tinha de conhecer as repartições de competências nem conhecia outro número e a senhora declarou que ia passar a chamada para os colegas.
Passou e todo o processo recomeçou, recomeçando eu também a jogar. Aleluia, a chamada não caiu, eu ganhei um jogo que era particularmente difícil e uma nova senhora apareceu (também não retive o nome, mas como as chamadas são gravadas se alguém tivesse essa desnecessária curiosidade não seria difícil descobrir). Satisfiz todas as perguntas, que eram as mesmas (mais um detalhe qualquer que esqueci e que me fez pensar que se fosse considerado relevante conhecerem também o número da minha carta de condução estava bem arranjado, porque não o sabia de cor), novamente expliquei o que pretendia e novamente indiquei o número do meu pedido e novamente aguardei um momentinho, para ser informado que a chamada iria ser transferido para a equipa que se ocupava de assuntos de tal natureza.
Fiquei momentaneamente envaidecido, não me lembro de alguma vez uma equipa se ter ocupado de mim, o que talvez tenha sucedido apenas no parto, e portanto aguardei com expectativa, como se costuma dizer.
E aguardei, e aguardei, sempre na companhia prestimosa dos dois chouriços: o da musiqueta e o da treta. Até que recebi a informação de que a chamada não poderia ser atendida, por favor ligasse mais tarde.
Tinham passado, diz o meu telemóvel, 42 minutos e 2 segundos.
Já vou em 3 páginas, é? Tinha uns conselhos úteis para o ministro Matias e a ministra Ramalho, mas sei por experiência que nos blogues ou jornais ninguém liga a artigos com mais de três páginas. E suspeito aliás que nenhum dos dois tem condições para receber aulas porque sempre as deram.

