Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Desorientados do mundo

por Luís Naves, em 24.05.19

castelo.jpg

Quando se fizer a história deste nosso ano da graça de 2019, alguém desencantará esta patética entrevista, que revela mais sobre os tempos que vivemos do que três grossos tratados de ciências sociais e políticas. O voto do povo já não conta para nada, assim como já não contam para nada as velhas nações europeias, com as suas culturas ancestrais. «Os estúpidos nacionalistas estão apaixonados pelos seus próprios países», diz o ainda presidente da Comissão Jean-Claude Juncker, referindo-se à insurreição em curso nas eleições europeias. Franz Kafka escreveu sobre isto no seu fabuloso O Castelo, que me parece ser uma genial premonição do século XXI, enquanto O Processo faz o resumo sinistro do século XX que ainda não tinha acontecido em vida do autor. O enredo do livro mais ambicioso é estranho, nunca sabemos qual é a motivação da personagem principal, o agrimensor K. (será espião?), mas o mais fascinante no romance é aquela burocracia - para que serve? Como funciona? Que intenções esconde? que segredos? E, sobretudo, até que ponto os seus actuais mecanismos são diferentes da função original? O facto é que ninguém no Castelo de Kafka se lembraria de criticar pessoas apaixonadas pelos seus próprios países, apesar daquilo que se escreve numa passagem do capítulo 15: «Os Senhores do Castelo, quando se levantam das suas escrivaninhas, são mesmo assim, acham-se desorientados do mundo e, na sua distracção, dizem as coisas mais grosseiras que se possam imaginar».

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 comentários

Imagem de perfil

De Vorphastro a 24.05.2019 às 19:20

"Os Senhores do Castelo, quando se levantam das suas escrivaninhas, são mesmo assim, acham-se desorientados do mundo e, na sua distracção, dizem as coisas mais grosseiras que se possam imaginar"

Curioso como interpreto dita passagem de forma diferente. Aos escrevinhadores vejo-os como aqueles personagens, os Mestres, do livro "O Jogo das Contas de Vidro", de Hermann Hesse, que enfiados em grossos e poeirentos volumes se esquecem de olhar pela janela. Com a internet, com as facilidade de viajar e trocar ideias há toda uma cultura que se perdeu, mas outra, que desponta. Uma mais universalista, mais integrativa. Fiquem com os vossos panos cheios de cores, manchados a sangue, eu prefiro o abraço conhecido da diferença.

Imagem de perfil

De Vorphastro a 24.05.2019 às 19:23

Aliás, Luís, se houve alguém que experimentou na pele a loucura dos nacionalismos, foi Kafka. Trazê-lo num testemunho apologético do nacionalismo, vai perdoar-me, é, no minimo, paradoxal.
Imagem de perfil

De Luís Naves a 24.05.2019 às 20:18

O meu post não tem nada a ver com nacionalismo. É sobre um disparate do presidente da Comissão Europeia, como se as pessoas não pudessem gostar dos seus países. É uma afirmação desligada da realidade. Caramba! Isto tem de ser explicado?
Imagem de perfil

De Vorphastro a 24.05.2019 às 20:41

Peço desculpa. Falha minha. Bom fim de semana
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.05.2019 às 20:57

Paradoxal porquê? até parece que todos os nacionalismos são iguais.

Oops já me esquecia estamos na realidade Marxista.
Fidel Castro já pode ser "nacionalista" mesmo sem perguntar nada à nação...

PS: por onde andam esses mísseis nucleares da Polónia?

lucklucky
Imagem de perfil

De Vorphastro a 24.05.2019 às 19:24

Experimente Zweig, O Mundo Até Ontem.
Sem imagem de perfil

De Costa a 24.05.2019 às 20:23

O Mundo de Ontem. Convinha que fosse mais lido.

Costa
Imagem de perfil

De Vorphastro a 24.05.2019 às 20:40

Bolas...obrigado.

Sem imagem de perfil

De Vento a 24.05.2019 às 21:20

Juncker said he saw a glimmer of hope in what has happened since the Britain's decision to leave the EU, back in 2016. "Since Brexit ... the number of those in favor of the European Union is increasing because people are watching what is happening and they are seeing that leaving the European Union is not as easy as they were told."

A citada afirmação revela-nos que a UE, melhor, o concelho de Bruxelas, não passa de um concelho de procuradores ao serviço de um objectivo que se vislumbra através da miséria criada e do descontentamento semeado, mas que ninguém ainda assumiu diante dos povos.
São estas afirmações que nos fazem compreender que Bruxelas ainda não entendeu que a UE não é um simples tratado onde se vertem clausulas legais, mas um conjunto de nações onde os povos reivindicam o direito de soberania.
Portanto, compreende-se bastante bem que faltando esta soberania os governantes se tenham apresentado diante dos eleitores com manobras de diversão ditas em prol do avanço civilizacional, tais como as ultra-ortodoxas politicas feministas lgbtistas, fazendo sobrepôr sobre os demais teorias que contrariam as suas consciências, cultura... e o direito a tê-las e exercê-las . As quotas, o aborto e tantas outras realidades associam-se também a estas "comendas" governativas que têm sido impostas por via de um estalinismo legal. A lei, ao invés de regular relações, usa-se para impor teorias sobre as consciências e retirar o que por direito também pertence à família (direito de educar), criando-se também regimes de privilégio onde não deve haver privilégio algum, como é o caso das quotas
Adicionalmente, a recente jogada palaciana em torno de um suposto Pacto de Estabilidade e de uma suposta Contenção Orçamental, que tem desorçamentado as populações, confirmam o que vai exposto anteriormente bem como que a matéria presente e futura a ser discutida reside fundamentalmente na soberania dos povos europeus.

Em termos de conclusão da campanha eleitoral, proponho que se combata os contra-revolucionários e a reacção votando nas forças vanguardistas e democráticas do Aliança e do PCP, por forma a transformar por dentro a Europa, trazer novamente Seguro e os seguristas à política e gerarem-se equilíbrios.
Não ao PS não ao BE.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.05.2019 às 21:57

J-C Juncker tem o direito de pensar o que quiser. E de o propagar.

Os responsáveis por escolher, nomear e manter aquele personagem como Presidente da Comissão de esta União Europeia é que deviam -mas não são capazes- de pensar na imagem que dão de si mesmos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.05.2019 às 23:39

Está na altura de mudar os "comensais" e a natureza da "alimentação".


A.Vieira

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D