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Delito de Opinião

Desconfinar em Monserrate

Pedro Correia, 11.10.20

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Contrariemos o Governo e o Presidente da República, que nos querem "confinar" de novo. Desconfinemos. 

Sugestão de passeio de fim de semana, sobretudo a quem vive na Grande Lisboa: rumar a Sintra. Estive lá há dias: nunca me lembro de ter visto a vila tão vazia. Há um ano, todos se queixavam do "excesso de turistas"; agora os lojistas vêm ter connosco na rua, implorando aos raros transeuntes para lá entrar. 

Esplanadas sem ninguém, restaurantes às moscas, hotéis sem hóspedes. No histórico Lawrence, celebrado por Eça, pergunto se servem almoços, como dantes, na varanda com vista para o mais frondoso verde que conheço em Portugal. O empregado da recepção olha para mim como se eu fosse um extraterrestre recém-desembarcado do Planeta Pré-Covid: «Agora não, acabámos com os almoços.» Magnífico cenário tão desperdiçado: a brisa soprada de Colares transportará o novo coronavírus? Talvez a notícia surja num dos telediários da noite.

 

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Felizmente o parque de Monserrate mantém-se aberto. Sabe-se lá por quanto tempo. E ainda é possível circular ali uma tarde inteira sem usar máscara - até o vigilante Chefe do Estado sugerir algo em contrário.

Andava há vinte anos para percorrer aqueles trilhos labirínticos, para visitar o palacete neomourisco ali plantado no século XIX por um industrial inglês que se perdeu de amores pela serra que deslumbrou Byron. 

Uma vez lá fui, e outra, e outra. Ou ameaçava ruína ou permanecia em "obras de reabilitação" sempre adiadas, talvez por falta de verba. Agora tive sorte: andei três horas por ali, vendo muito embora não visse quase ninguém. Como se Monserrate tivesse estado anos à minha espera para me brindar com este exclusivo.

 

Saí de lá fascinado com o panorama. Mas apreensivo com o futuro. Se ninguém o visitar, o parque acabará por encerrar outra vez. E os tais que clamavam há bem pouco contra o "excesso de turistas" voltarão a morder a língua pelas pragas que rogavam a quem permitiu salvar da ruína alguns dos mais belos recantos deste nosso doce mas ingrato país.

 

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Serra de Sintra vista de Monserrate, com o Palácio da Pena lá no alto

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