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Desafio "Museu Salazar"

por Cristina Torrão, em 25.08.19

Vivendo no estrangeiro, estou um pouco de fora do teor desta polémica, embora já tenha lido algumas alusões pela net. Como sou uma apaixonada pela História (porque acho que só nos conhecemos, se conhecermos a nossa História) e como Salazar e o Estado Novo fazem parte da História de Portugal, decidi dar a minha opinião, principalmente, depois de ler o Editorial do “Público”, por Manuel Carvalho.

Tal como Manuel Carvalho, acho que um "Museu Salazar" não pode ser nunca uma homenagem branqueadora e normalizadora do ditador. Por outro lado, nas democracias não pode haver temas tabus, personagens apagados das fotografias ou lugares de esquecimento, porque isto também serve para branquear a História, apagando, ou fazendo por esquecer, aquilo que nos incomoda. Aliás, Portugal tem muita necessidade de trabalhar certos momentos da sua História de forma rigorosa e o mais objectiva possível.

Um "Museu Salazar" nunca deve ter como propósito homenagear um “grande homem” (como parece afirmar o autarca socialista de Santa Comba Dão), mas deve possuir o objectivo de educar e informar. Isso, sim, seria um centro interpretativo do Estado Novo. Aliás, o nome da instituição devia ser este, por exemplo, ou Museu do Estado Novo, em vez de "Museu Salazar".

Um museu, ou centro, deste tipo, além de fazer um retrato da vida de Salazar, devia, obrigatoriamente, incluir:

- Uma secção sobre a Censura à Imprensa, praticada durante todo o Estado Novo, com imagens de notícias censuradas e informações sobre que tipo de artigos o eram (porque não eram apenas os políticos, também se censuravam notícias de suicídios, por exemplo, ou de crimes familiares).

- Uma secção dedicada ao Tarrafal (com imagens e artigos, talvez vídeos, se os houver) e à perseguição dos comunistas e sindicalistas.

- Uma secção dedicada à PIDE e às prisões de Caxias e Peniche, também com imagens, documentos, descrição das torturas, testemunhos, etc.

- Uma secção dedicada ao assassinato de Humberto Delgado (e a outros crimes que se tenham cometido em relação a opositores do regime).

- Uma secção dedicada à guerra colonial, com fotografias (que não faltam) e, proponho também, vídeos que mostrem, por exemplo, os embarques das tropas, ou as mensagens de Natal que os combatentes enviavam, todos os anos, pela televisão.

Estas são as minhas sugestões. Os historiadores especialistas desta época teriam mais e deviam ser contactados. Para que se fizesse, em Santa Comba Dão, um verdadeiro Museu ou Centro Interpretativo do Estado Novo, que nos oferecesse uma visão aberta da História. De visita obrigatória para estudantes!

Será que o autarca socialista de Santa Comba Dão tem arcaboiço para tal?

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55 comentários

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De Vorph Valknut a 25.08.2019 às 13:01

Concordo com tudo. Mas inclua-se também, em jeito de prelúdio, e em favor do entendimento histórico, a história da Velha, da Nova, e da Nova Velha República. Sem entender estas etapas, precedentes, históricas jamais se entenderá a génese do Estado Novo e os doze trabalhos de Salazar.
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 18:03

Tudo o que faça parte da História e ajude a perceber o "fenómeno" seria bem-vindo.
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De Anónimo a 25.08.2019 às 15:10

A opinião de Manuel Carvalho é assim tão valiosa? Estamos sempre a aprender!

O problema é que os avençados comem tudo e até as baboseiras parecem credíveis..
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 18:07

Que me lembre, vi o nome de Manuel Carvalho hoje pela primeira vez, neste Editorial, porque fiz uma busca "Museu Salazar" no Google (coisas de quem vive no estrangeiro).

Para mim, esta opinião foi importante, porque diz muitas coisas com as quais concordo. Por isso, o citei, em vez de tentar explicar o mesmo com as minhas palavras.
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De Anonimus a 25.08.2019 às 15:28

Nunca ao museu Salazar da celebração fascista.
E na mesma linha proponho a imediata eliminação de todos os monumentos à escravatura, imperialismo e ditaduras bacocas ou iluminadas.
Abaixo a Praça do Império.
Torre de Belém, demolir o palácio em Mafra construído com o ouro roubado ao povo brasileiro, estátuas do esclavagista da Gama, do ditador Pombal ou do assassino Afonso I, tudo ao chão.
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 18:11

Devemos ter orgulho nos nossos mais de 800 anos de História. Não é boa ideia apagar, seja o que for, pois, como referi no postal, apagar, ou fazer por esquecer aquilo que nos incomoda também serve para branquear.
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De Maria Dulce Fernandes a 25.08.2019 às 18:21

Concordo, Cristina. Aprendemos sempre. Pela positiva e pela negativa. Aprendemos o bom e o mau. Devemos apreder tudo o que faz parte da nossa identidade como povo. É assim em democracia.
Felizmente ainda não temos Ministério da Verdade.
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De xico a 25.08.2019 às 20:38

Por mim já me dava por satisfeito com o derrube da estátua da rotunda da Boavista no Porto.
Depois ia o templo de Diana em Évora: afinal o que é que os romanos fizeram por nós?
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De Cristina Torrão a 26.08.2019 às 11:55

Deram-nos a língua portuguesa?
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De Anonimus a 26.08.2019 às 13:05

E tirando isso, o que é os romanos fizeram por nós?
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De xico a 26.08.2019 às 20:47

E ainda por cima uma língua com conjunções coordenativas subordinativas copulativas, que eu sempre pensei ter a ver com sexo até que levei um tabefe à romana...
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De Cristina Torrão a 27.08.2019 às 12:01

Além do legado do latim, os romanos marcaram a nossa civilização (ocidental/europeia) a vários níveis (como o filosófico e o político), para o bem e para o mal.
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De xico a 26.08.2019 às 20:43

E a ironia, tão cultivada pelos gregos? Será que entende o que é ironia?
https://www.youtube.com/watch?v=Pc5DlVZRNE8
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De Maria Oliveira a 25.08.2019 às 15:29

Apoio esse Centro Interpretativo, mas o autarca não tem arcaboiço.
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 18:11

Receio o mesmo, Maria Oliveira.
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De Miguel a 25.08.2019 às 15:51

Na secção dedicada à PIDE não esquecer tudo o que se relaciona com os seus informadores (o vizinho do lado), incluindo estatísticas de natureza sociológica, etc etc ...

Claro que nenhum autarca de uma santa terrinha tem arcaboiço para uma empreitada dessa dimensão. Portugal é um país pobre em capital cultural e financeiro.

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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 18:12

Sim, receio que o seu desejo de "apresentar obra" o faça contentar-se com pouco.
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De xico a 25.08.2019 às 20:46

Ponha-se à frente de um autarca de santas terrinhas e diga-lhe isso na cara e vai ver o arcaboiço e a dimensão da empreitada! Portugal tem é uma capital com gente pobre culturalmente.
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De Alberto Jorge Sousa a 26.08.2019 às 19:44

Porquê? Só em Lisboa é que há gente culta e com arcaboiço para fazer qualquer coisa?
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De Cristina Torrão a 27.08.2019 às 12:05

Não sei se a pergunta é a mim dirigida, mas a minha resposta é não.

Do que este autarca é, ou não, capaz, não faço ideia, não o conheço. Está nas mãos dele mostrar quais são as suas capacidades.

Desejo-lhe sorte. Mas espero que não construa um santuário a Salazar.
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De JMS a 25.08.2019 às 16:16

Sendo socialista, não tem arcaboiço para isso, como é óbvio.

Só tem para receber o salário ao fim do mês juntamente com o dinheirito da corrupção que, sempre compõe o fim do mês.
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De Bea a 25.08.2019 às 18:13

Finalmente encontro uma pessoa com pensar semelhante. Mostrem o que o homem foi, caramba. Como homem e como político. O que criou, as leis que fez e quem protegeu com elas; mostrem o viver português nos tempos de Salazar, aguerra nas províncias ultramarinas, a miséria que corria no país.
Que, se é para o louvarem e lhe circundarem a figura da aura que nunca teve, esqueçam. Mas apagar a história é que não se pode. É contá-la como foi.
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De V. a 25.08.2019 às 18:39

Tudo isto padece de mesmo mal: não perguntarem às pessoas de S. Comba Dão o que elas querem fazer ali. Tal como não perguntaram aos penichenses se queriam um museu-prisão no Forte de Peniche que os prende ao passado e não os deixa rentabilizar um espaço com um potencial muito mais interessante do que preservar a memória comunista. Sempre os de esquerda de Lisboa a tomarem decisões sobre o que não lhes pertence (declaração de interesses: eu sou de Lisboa).


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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 19:02

Os comunistas também são seres humanos, com direito aos Direitos dos ditos cujos.
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De V. a 26.08.2019 às 23:41

Direito a ocupar edifícios públicos que não lhes pertencem? Então também quero um.
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De JPT a 26.08.2019 às 17:25

Esperamos todos que o museu-prisão no Forte de Peniche tenha uma secção com o regime que "homens bons" que por lá estiveram presos tinham em mente para o nosso país, por exemplo: uma secção sobre a censura à Imprensa, praticada em todos os estados comunistas; uma secção dedicada ao GULAG (por exemplo, para a Dra. Rita Rato ficar a saber o que é) e à perseguição e extermínio dos opositores praticada em todos os estados comunistas (enquanto escrevo isto haverá um milhão de uigures em campos de reeducação na China); uma secção dedicada à KGB, à STASI, à Securitate (se calhar é preciso mais de que uma secção); uma secção dedicada às execuções extra-judiciais praticadas pelo PCP de informadores, divisionistas e desviantes ou dos tipos que tiveram o azar de passar quando rebentaram bombas da ARA (dá-se alvíssaras a quem encontrar informação pública sobre o assunto); uma secção sobre as guerras, golpes e purgas em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor, envolvendo os movimentos de libertação comunistas (com uns gráficos, comparando as vítimas causadas por estes e pela Guerra Colonial). Esperamos, mas esperamos sentados e sossegados - o que, no fundo, até faz lembrar o regime do Dr. Salazar.
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De Cristina Torrão a 27.08.2019 às 12:16

Não há dúvida de que as ditaduras, sejam de esquerda ou de direita, têm muito em comum.

Álvaro Cunhal, que esteve muitos anos preso em Peniche, assim como outros, sabiam perfeitamente o que se passava nos países com regimes comunistas. Mas todos os presos o saberiam? Unia-os a vontade de lutar contra a repressão salazarista e só uma minoria levou realmente a cabo actos terroristas perigosos. Além disso, mesmo se tratando de terroristas, sou contra a tortura.

Para lembrar como Salazar lidava com opositores ao regime, não sei se é preciso explicar com muito pormenor como funcionavam os países comunistas, embora este seja também um tema importante, a ser tratado em locais a isso dedicados.
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De JPT a 27.08.2019 às 12:44

O regime do Dr. Salazar era uma ditadura que não tolerava oposição organizada, que via como uma ameaça à ordem, e que reprimia, se necessário, com violência. Era um regime comum quando apareceu, e era comum porque era desejado por muitas pessoas, pois a alternativa era a violência sem ordem, como sucedeu em toda a Europa nos anos 20 e 30, quando as várias esquerdas e direitas se combatiam nas ruas (só em Portugal, numa noite, matou-se a tiro e à cutilada, o primeiro-ministro e mais quatro políticos de relevo). Na Europa, apenas a Checoslováquia, a França e as democracias consolidadas do Norte não enveredaram por esse tipo de regime. Depois de 1945, sim, o regime do Dr. Salazar torna-se num abencerragem. A sua longevidade resultará, a meu ver, da persistência da memória do desastre político, económico e social que foi o regime que o precedeu. Todavia, obter um livro sobre a violência política em Portugal, entre 1910 e 1926 é mais difícil do que subir ao Evereste, o que é inglório para quem teve uma bisavó morta à bomba na Calçada do Combro e gostava de saber mais sobre o assunto.
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De Cristina Torrão a 27.08.2019 às 13:22

O poder é viciante. Tendo tudo sob controlo, quer-se mais e mais. É o grande mal das ditaduras, mal, aliás, que também surge em democracia.

Pois, esse seria mais um período da nossa História a esclarecer, pelos vistos.

A sociedade, em geral, era muito violenta, antigamente. Com certeza já leu "Amor de Perdição". O que mais me impressionou, nesse livro, não foi a história de amor, mas a quantidade de violência quotidiana. Impressionante.
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De Cristina Torrão a 27.08.2019 às 18:37

Caro JPT, depois de escrever a primeira resposta ao seu comentário, pus-me a pensar e resolvi vir fazer uma ressalva: ao referir que a sociedade antigamente era muito violenta, não quis de maneira nenhuma menorizar o episódio trágico de que foi vítima a sua bisavó.

Sei, apenas por alto, que, a seguir à abolição da monarquia, o caos se apoderou do país. É pena que não consiga as informações que gostaria de ter.
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De Anónimo a 25.08.2019 às 18:41

Pois é bom saber em que circunstâncias,porquê, vão buscar um homem que vai
"desenhar" um Estado(Novo) e uma Constituição e os põe em prática.
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De Vítor Pereira a 25.08.2019 às 18:56

Um BOT não faria melhor, cheio de copy paste's. Texto sem substância ou originalidade. Como diria uma comentadora "por isso é que as máquinas nunca irão substituir o homem".
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De Cristina Torrão a 25.08.2019 às 19:03

Eu nunca irei substituir um homem, não senhor.
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De xico a 26.08.2019 às 20:49

Afinal sempre sabe o que é ironia. E esta foi de primeira água.

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