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Depois de arrumada a cozinha do Panteão

por Inês Pedrosa, em 20.11.17

Não alinho em morais públicas que não sirvam toda a gente de igual forma; acresce que, certamente para minorar outros défices, tenho uma memória maior do que a de uma dúzia de robots Sofia, até porque pude desenvolvê-la, já que, por sorte, não nasci na Arábia Saudita. Assim, estranhei os brados e a indignação geral (a que prestamente se juntou o senhor primeiro-Ministro) quanto ao fruste jantar no Panteão Nacional, porque ainda me recordava bem de ter visto em vários canais televisivos hordas de crianças aos pulos, à meia-noite, no referido Panteão, então transformado em laboratório de feitiçarias, por mor do lançamento de um qualquer volume da saga Harry Potter, nos idos de 2002. Soube, depois, que naquele sítio se realizaram entretanto diversos repastos, um dos quais com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa e da EGEAC, empresa municipal de cultura, num período em que o agora indignado primeiro-Ministro presidia aos destinos municipais e em que a EGEAC era presidida pelo actual secretário de Estado da Cultura. 

Em muitos países europeus (não sei mesmo se em todos), o aluguer de monumentos para banquetes, festas de empresas, filmagens, casamentos ou baptizados, é prática comum e devidamente regulamentada. Evidentemente que as regulamentações deixam sempre espaço à interpretação individual e à decisão dos responsáveis pelos edifícios patrimoniais. Por exemplo: o convento de Cristo, em Tomar, tem uma tabela de preços para filmagens (e a fita mediática que se fez, há meses, por causa dos danos, afinal inexistentes, que ali teria causado um filme de Terry Gilliam, foi também épica). Mas parece-me óbvio que a proposta de realização de um filme pornográfico naquele cenário seja rejeitada. Ou de um manifesto partidário. No Panteão, o problema prender-se-ia, segundo os indignados, com o facto de se tratar de um monumento funerário: jantar junto dos Grandes Mortos, ao que parece, é ofendê-los. Sucede que nos Jerónimos também estão sepultadas Grandes Figuras. E, a bem dizer, em toda a cidade, por toda a parte, caminhamos sobre túmulos - de mortos tão antigos e anónimos que, felizmente, já não contam para a Honra Nacional, senão morríamos todos à fome. 

Há quem condene, pura e simplesmente, toda e qualquer rentabilização do património. Pergunto: então, como fazemos? Aumentamos os impostos? Onde é que se vai buscar o dinheiro? A cultura portuguesa é muito resistente ao mecenato - precisamente porque temos uma cultura empresarial muito pouco culta, o que aliás se reflecte desde logo na baixa produtividade do país. Deveria, em meu entender, criar-se um sistema de apoio ao mecenato cultural que realmente funcionasse, isto é, que incentivasse as empresas a investir no apoio às artes e na preservação do património de uma forma eficaz e, sobretudo, desburocratizada. Porém, para animar os responsáveis de museus e monumentos a procurar mecenas, seria necessário que os patrocínios granjeados fossem aplicados no equipamento cultural que trabalhou para os alcançar. Não é isso o que acontece: os apoios são canalizados para a Direcção Geral do Património Cultural, que depois os reparte, segundo os seus critérios. Enquanto não houver reconhecimento pelo trabalho e pelo mérito individuais não haverá estímulo nem responsabilização dos dirigentes. Temos uma Função Pública recheada de chefes que não mandam nada - e, se forem espertos, procurarão mesmo nunca decidir coisíssima nenhuma, porque quem nada faz nunca tem problemas e, de diuturnidade em diuturnidade, chega à reforma remediada e tranquilamente. É nisto que ainda estamos.


14 comentários

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De Beatriz Santos a 20.11.2017 às 04:16

Concordo que se aluguem e rentabilizem monumentos e espaços públicos e julgo que a receita poderia contribuir para manutenção e melhoramentos.
O Panteão Nacional, julgo eu, é o cemitério dos portugueses de eleição (ainda que seja discutível a eleição). Prezo bastante a opinião e a clareza verbal da Inês e a sua boa memória e concordo com o post em geral embora, por razões particulares, não tenha visto ou ouvido a polémica (também me passaram as hordas de crianças aos pulos).
Mas, se é um facto que há mortos por todo o lado, a ninguém lembraria jantar num cemitério. É certo, celebra-se missa, casamentos, baptizados e etc em lugares em que andamos sobre eles e sem pensar nisso. Na minha óptica, são situações diferentes. É só por ser um jantar? Sim, por ser uma refeição. Os estrangeiros gostam muito de refeiçoar rodeados de mortos? Pois que gostem, mas esperem para o fazer na terra deles. E depois? Bom, depois há o bom senso que é pedido a quem ocupa posições de chefia. Mas como com as chefias se passa o que diz, não entendo para quê tanta agitação nos portugueses. Quanto ao senhor primeiro ministro, é cada vez mais ele mesmo, uma boa coisa que não presta.
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De passante a 20.11.2017 às 09:47

> porque temos uma cultura empresarial muito pouco culta, o que aliás se reflecte desde logo na baixa produtividade do país.

Confundir causas com efeitos também não ajuda.
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De Luis Eme a 20.11.2017 às 10:13

Excelente retrato da forma como se olha para a cultura, Inês. Para além da falta de cultura (e interesse, porque dá pouco dinheiro...) dos empresários, não existem estímulos para que o mecenato cultural (tão necessário) possa ser uma realidade.

Eu poderia ir ainda mais longe por morar numa cidade onde se "estatizou a cultura" (Almada) e há muito tempo que se criaram mil estratégias para beneficiar sobretudo o "amiguismo" e os "nossos".

E na minha cidade (e em todas...) há chefes mais perigosos que os que não fazem nada, são aqueles que fingem nada fazer, mas que podem trocar (e trocam) a ordem dos processos (e de prioridades), se estiver em causa o "seu clube" ou o "seu amigo".
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De Inês Pedrosa a 20.11.2017 às 18:45

Sim, fui injusta na minha apreciação: o país tem uma longa tradição de arranjinhos corporativos, que dá trabalho a manter e que continua de boa saúde com o esforço concertado de muitíssimos....
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De Luís Lavoura a 20.11.2017 às 10:22

Excelente post.
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De Pedro Correia a 20.11.2017 às 10:50

Muito bem, Inês. Subscrevo por inteiro.
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De jo a 20.11.2017 às 13:42

Porque razão um jantar é aceitável e não um filme pornográfico?
Não são ambas atividades permitidas por lei: Jantar e fazer filmes pornográficos?
Se o filme de Terry Gillman tivesse cenas tórridas de sexo os danos nas pedras do Convento de Cristo seriam mais importantes?
Porque não concessionar o Panteão a um restaurante que faça casamentos e batizados (mas não filmes pornográficos) e rentabilizar melhor o espaço?
Qual o interesse de ter Monumentos Nacionais se praticamente todos esses edifícios dariam bons hotéis muito mais rentáveis?
Como é que se cria um funcionário público tão diligente, tão diligente, que até torna gestores medíocres paladinos da Cultura?
Alugar um espaço para jantar é mecenato? Se eu alugar o restaurante do meu bairro estou a fazer uma transação comercial ou sou um mecenas do restaurante?
Se devolver em impostos não cobrados o que recebe dos mecenas, o que ganha o Estado com o mecenato?
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De Inês Pedrosa a 20.11.2017 às 18:50

Os impostos não cobrados não são a única hipótese de "devolução" O Estado não deve ser, digo eu, uma mercearia. Nem as empresas podem ser geridas numa lógica de mera mercearia. Defende portanto que não se rentabilizem os monumentos e que paguemos todos ainda mais impostos para os manter? Ou qual é a solução que propõe?
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De jo a 21.11.2017 às 12:22

Faço perguntas porque não sei as respostas.
Mas não faz sentido termos monumentos nacionais para darem lucro. Senão a iniciativa privada tratava disso.
Penso que alugar salas para casamentos e batizados não é mecenato e não é disso que se fala quando se fala no banquete. Fala-se de exploração comercial de espaços, o que em si não tem nada de mal desde que se compreenda porque é que aqueles espaços existem.
O Estado resolveu criar um panteão para homenagear mortos ilustres, seguidamente aluga-o para jantares. Ou os mortos não são lá muito ilustres e o Panteão não se justifica como tal, ou é uma forma de reverência curiosa transformar aquilo em sala de banquetes.
Três mil euros é um valor pequeno, conheço várias pessoas que são capazes de dar esse valor para alugar o salão da festa de anos do filho. Que bases tem o Panteão para recusar um pedido desses? A festa não tem pornografia nem é política, o proponente paga, logo, todos os critérios estão cumpridos. Já agora o jantar dos veteranos de Angola de 1968, ou o banquete de casamento da Miquinhas.
Porque não ir dar jantares no Cemitério dos Prazeres, ou fazer uma RAVE na Sé de Lisboa?
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De Anónimo a 22.11.2017 às 13:33

Não consigo perceber porque é que não faz sentido que os monumentos sejam rentáveis ou lucrativos. Especialmente quando se ouve todos os anos a mesma ladainha de que não há dinheiro para a cultura, que o orçamento para a cultura é insuficiente, e etc...

Não se está sequer a equacionar concessionar monumentos para gestão privada, só mesmo a dar-lhes outra forma de uso, totalmente gerida pelo Estado. E este súbito moralismo cultural num país como Portugal deixa-me um bocado perplexa, confesso. É que era bom saber-se quantos visitantes portugueses terá o Panteão por ano.

Quanto à festa de anos, pode argumentar-se que colide com a dignidade do espaço ou que é susceptível de danificar o património. Ou ser arriscado para as próprias crianças, ou até que não conseguem garantir a segurança alimentar do que vão levar para a festa porque não há frigoríficos (estou a atirar para o ar). Cada caso é um caso e é para os analisar e decidir que os nossos impostos pagam os salários da DGPC e do Panteão... o que nos levaria a uma muito longa reflexão sobre o estado da Administração.
marta
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De V. a 20.11.2017 às 16:57

Por mim até podiam passar a Feira da Ladra lá para dentro quando estiver a chover. Um templo republicano com esqueletos dos serviçais da Maçonaria não passa disso mesmo.
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De Inês Pedrosa a 20.11.2017 às 18:53

Coitadinha da senhora D. Amália que, depois de levar a vida a ser classificada como "fascista", leva agora a morte a ser considerada "serviçal da Maçonaria".
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De V. a 20.11.2017 às 20:34

Está lá por engano, com certeza. Desconheço se a raptaram já falecida para adornar involuntariamente a necrópole dos pantocratas do Estado ou se ela própria se equivocou e escolheu ficar por ali a dignificar aquilo com o talento natural que lhe deram uns deuses que ali não entram.

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