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Delito de Opinião

Delitos poéticos (15)

Ivone Mendes da Silva, 15.07.14

Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115x96  c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença 

 

"ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA",

DE BRONZINO

                                                         Ao Murilo Mendes

 

Pomposa e digna, oficialmente séria,

 

é geometria ideal de príncipes banqueiros,

 

sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,

 

de reis, senhores de terras e armadores,

 

severamente equilibrados entre

 

o sexo, a devoção e as hipotecas.

 

O mundo é um imenso cais de intolerância austera,

 

a que aportam escravos, pimenta, a caridade

 

à sombra das colunas sem barbárie gótica.

 

Na boca firme, como no olhar duro,

 

ou o cabelo ferozmente preso

 

ou nas imensas pérolas que se multiplicam,

 

ou nos bordados do vestido que nem seios

 

se alteiam muito, há uma virtude fria,

 

uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,

 

uma reserva de discreto encanto

 

em que a Razão de Estado era um passeio altivo

 

por entre as árvores de um jardim areado,

 

com áleas racionais e relva em secção aúrea.

 

Sem dúvida que os astros presidiram,

 

numa ciência de terra já redonda,

 

às próprias proporções que o quadro regem.

 

Palácios, festas, complicadas odes,

 

e procissões e cadafalsos e a

 

de um céu toscano limpidez que pousa no

 

pó e nas ruínas da imperial Toledo,

 

tudo isto se condensa em penetrante

 

tom de ocre vago, onde as cores se opõem

 

como teses tridentinas muito práticas

 

elaboradas com paciência para o descanso eterno

 

dos príncipes cristãos que se devoram sob

 

a paternal vigilância de uma Roma éterea,

 

guardada pelos suiços, por cardeias e frades.

 

A grã-duquesa - se o foi, não foi de quem é filha,

 

de quem foi mãe, ante um retrato assim

 

tão pouco importa! - fez-se pintar.

 

Mas a pintura era outra coisa, um escudo,

 

um escudo de armas e um broquel tauxiado,

 

para morrer tranquilo quando a angústia brota,

 

como um vómito de sangue, do singelo facto

 

de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,

 

e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,

 

iluminando as multidões, as raças, tudo,

 

e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,

 

cujo estridor silente ao madrugar se ouvia

 

ranger discretamente, às portas dos castelos.

 

                                       Jorge de Sena 

                                                    Lisboa, 6/6/1959

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