Delitos poéticos (15)
Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115x96 c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença
"ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA",
DE BRONZINO
Ao Murilo Mendes
Pomposa e digna, oficialmente séria,
é geometria ideal de príncipes banqueiros,
sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,
de reis, senhores de terras e armadores,
severamente equilibrados entre
o sexo, a devoção e as hipotecas.
O mundo é um imenso cais de intolerância austera,
a que aportam escravos, pimenta, a caridade
à sombra das colunas sem barbárie gótica.
Na boca firme, como no olhar duro,
ou o cabelo ferozmente preso
ou nas imensas pérolas que se multiplicam,
ou nos bordados do vestido que nem seios
se alteiam muito, há uma virtude fria,
uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,
uma reserva de discreto encanto
em que a Razão de Estado era um passeio altivo
por entre as árvores de um jardim areado,
com áleas racionais e relva em secção aúrea.
Sem dúvida que os astros presidiram,
numa ciência de terra já redonda,
às próprias proporções que o quadro regem.
Palácios, festas, complicadas odes,
e procissões e cadafalsos e a
de um céu toscano limpidez que pousa no
pó e nas ruínas da imperial Toledo,
tudo isto se condensa em penetrante
tom de ocre vago, onde as cores se opõem
como teses tridentinas muito práticas
elaboradas com paciência para o descanso eterno
dos príncipes cristãos que se devoram sob
a paternal vigilância de uma Roma éterea,
guardada pelos suiços, por cardeias e frades.
A grã-duquesa - se o foi, não foi de quem é filha,
de quem foi mãe, ante um retrato assim
tão pouco importa! - fez-se pintar.
Mas a pintura era outra coisa, um escudo,
um escudo de armas e um broquel tauxiado,
para morrer tranquilo quando a angústia brota,
como um vómito de sangue, do singelo facto
de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,
e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,
iluminando as multidões, as raças, tudo,
e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,
cujo estridor silente ao madrugar se ouvia
ranger discretamente, às portas dos castelos.
Jorge de Sena
Lisboa, 6/6/1959


