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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.06.24

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Bandeira: «Eu à época fumava; e às vezes fumava em lugares estranhos. Em Grenoble era num gabinete de paredes encardidas no piso térreo de uma empresa de tecnologia de ponta. Tinha janelinhas de guilhotina sempre abertas para o Dezembro dos Alpes e por única peça de mobília um cinzeiro de pé, ao centro, embaraçoso de tão cheio. Acredito que não o esvaziaram nunca, e que hoje o cone de beatas há-de ter ultrapassado em proeminência o pico do Chamechaude (digo o do Chamechaude para que não pensem que estou a exagerar). Uma bancada na parede era tornada inacessível por um aviso descortês de proibido sentar. Os fumadores (os outros, por nojo, nunca entravam) sentiam ali um desconforto tão intenso – do frio, do cheiro, do enxovalho – que não tiravam do cigarro consolo e saíam acanhados e tristes, de uma tristeza um pouco amarela.»

 

Francisco Prieto: «Esta semana, Xiquinha Prieto leu NA-NI nas costas de uma camisola do Manchester United. Do ponto de vista dos rapazes cá de casa, o objectivo académico deste ano escolar está cumprido.»

 

João André: «Portugal terá de optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-á começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairía sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, de começar o jogo.»

 

José Navarro de Andrade: «Na primeira parte Portugal tentou desenvolver a sua táctica a dois tempos: na primeira fase de transição (é assim que agora se diz, burro) o jogador que conduz a bola pergunta onde está o Ronaldo; na segunda fase manda um bico na bola na direcção genérica dele com um recado: desenvencilha-te.»

 

Luís Menezes Leitão: «Tenho de reconhecer que Paulo Bento teve uma estratégia brilhante neste jogo do Mundial de Futebol. Conseguiu demonstrar a Angela Merkel que não só precisamos de um segundo resgate, como vamos precisar de um terceiro e até mesmo de um quarto resgate. Vejam o ar de desespero da senhora perante a evidente má prestação de Portugal em comparação com a da Alemanha. Está encontrada a explicação para o facto de Passos Coelho não se ter querido deslocar ao Brasil e assistir ao jogo. Escapou assim à fúria de Merkel, mas agora ficou tudo esclarecido. Agora só falta perguntar quando é que vem a próxima tranche do dinheiro.»

 

Luís Naves: «Podia concluir que os países avançados foram varridos pela novidade do liberalismo e que está em curso uma revolução no mundo. O poder americano decorre provavelmente de uma ordem liberal e serão liberais o poder financeiro e o do petróleo, o poder das oligarquias das potências não democráticas, como também é liberal o poder da FIFA ou o avanço dos fundamentalismos.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O último voto de vencido de Maria Lúcia Amaral deve ser discutido e não cabe no mesmo pacote das declarações de uma senhora vice-presidente do PSD ou no que disse o primeiro-ministro Passos Coelho. O debate tem de fazer-se por inteiro sob pena de se assim não for não valer a pena fazê-lo. Se quisermos ser sérios, penso eu, não podemos discutir o assunto com pruridos ideológicos e punhos de renda para não se ferirem susceptibilidades.»

 

Eu: «Judite Sousa, que tem Marcelo Rebelo de Sousa à sua frente e não precisa portanto de chamar por ele, fez-lhe ontem vinte e duas vénias em forma de título académico: Marcelo - profere ela, num ritual sincopado - é o "Professor". Isto acentua a aura do visado: podia ser violinista ou ourives, mas não seria a mesma coisa. Prestamos tributo às formas de tratamento com ancestral desvelo: o verniz de modernidade não resiste a dois minutos de televisão.»

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