DELITO há dez anos

Ana Vidal: «O que faz dele um ser especial é ter saído da prisão sem sinais de sede de vingança ou sede de poder, quando o contrário teria sido expectável e mais do que compreensível. A grande lição de Nelson Mandela é a da sublimação pessoal, uma elevação que está, afinal, ao alcance de todos nós.»
Eu: «Infelizmente, como quase sempre sucede em circunstâncias semelhantes, a nossa imprensa ilustrou o obituário de mestre Niemeyer com os últimos retratos que lhe fizeram em vida, já muito frágil e debilitado. É a solução mais cómoda, previsível e preguiçosa: deita-se a mão ao primeiro boneco disponível em arquivo ou nas agências e não se pensa mais nisso. Olhamos os retratos desse ancião já tocado por uma insondável sombra crepuscular e somos incapazes de encontrar ali o génio visionário que fez irromper Brasília da vastidão desértica do Planalto Central brasileiro (...). Prefiro recordar Niemeyer naquela extaordinária foto (...) olhando a maqueta do Palácio do Planalto, na segunda metade da década de 50, capaz de transformar o mais arrojado sonho em pura arte. A meio de uma vida longa, que foi também uma vida frutuosa, a deste homem que imaginava o universo como uma superfície interminável, livre e sensual, em forma de curva projectada no infinito.»
