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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 21.10.21

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João Carvalho: «Dou por mim a pensar no meu Porto. A 24 de Junho, depois de uma intensa noite de S. João, a cidade acorda sempre tranquila e quase deserta. Deverei concluir que a manhã de 24 de Junho, no Porto, indica serenidade e expectativa em relação ao futuro? Ou será que hoje é Dia de S. João em Tripoli?»

 

José António Abreu: «O casal que arrendara o apartamento era simpático mas não se assustava com facilidade. A rapariga, faladora e de cabelo comprido, e o rapaz, alto e muito magro, riam-se sempre que objectos caíam sem motivo aparente, culpavam o vento quando, apesar de nenhuma janela se encontrar aberta, as portas se fechavam com estrondo, atribuíam, com um encolher de ombros e um trejeito de resignação, barulhos esquisitos nas paredes e no tecto à acção de ratos ou dos vizinhos. Mas isso não era o pior. O pior era que passavam horas a ver filmes de terror num televisor enorme.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Considero a Monarquia, de todos os tipos de regime democráticos, aquele mais arriscado, mas porventura ao mesmo tempo (e, de certa maneira, consequentemente), poderá ser também, se bem sucedido, o mais frutuoso.»

 

Leonor Barros: «Agradecia, canais de televisão e jornais, que parassem de mostrar a cara do ditador assassinado. O rapaz em vida já era o que era, em morto ficou um susto. Bem sei que estamos a um passo do Halloween mas poupem-nos. Grata pela atenção.»

 

Patrícia Reis: «Uma menina na China foi atropelada, ignorada por quem passava, e morreu. O ditador da Líbia deixou uma fortuna na Caixa Geral de Depósitos. Um satélite alemão vai cair na Terra, não se sabe onde, mas é pouco "provável" que possa atingir alguém. Manuela Ferreira Leite acha que a educação e a saúde deverão deixar de ser gratuitas (alguma vez foram totalmente? Devo viver num país qualquer estrangeiro). As minas de não sei onde, cá em Portugal, desculpem, mas dormi mal, deverão ser compradas por um consórcio sul com accionistas angolanos. E sei tudo isto sem ter ligado a televisão, sem ter ouvido rádio.»

 

Rui Rocha: «Tudo indica que Khadafi foi conduzido à morte tal e qual como viveu. De forma ignóbil e cobarde. Nada que nos faça perder tempo se o nosso ponto de referência for a relação do próprio Khadafi com a vida e com a morte. O ditador infame, por si, não vale, sequer, o custo de produção das balas que o mataram. Todavia, se sempre o repudiámos em vida, como podemos  tomar-lhe agora o referencial sanguinário para nos pronunciarmos sobre a sua execução? Há aqui um estremecimento que interpela o nosso sentido de dignidade e de justiça.»

 

Teresa Ribeiro: «Antes de pôr "quem pode" a pagar a educação e a saúde, que tal começar por estabelecer um tecto para as vossas reformazinhas? E já agora deixar de as acumular? Hum? Em tempo de crise, nada como contribuirmos todos com boas ideias e esta, de facto, não podemos esquecer. Pela parte que me toca, vou-me empenhar nisso. É uma promessa.»

 

Eu: «Muammar Kadhafi era um simples coronel do exército líbio quando subiu ao poder, em 1969. Quarenta e dois anos depois, ao ser derrubado, era um dos homens mais ricos do planeta e provavelmente o mais rico do continente africano: a sua fortuna estava avaliada em 150 mil milhões de dólares, desviados de fundos estatais da Líbia e espalhados um pouco por todo o mundo. Só em Portugal, como revelou hoje o Público, o ditador deixou 1300 milhões de euros em quatro contas na Caixa Geral de Depósitos. Nada de muito original: vários ditadores antes dele eram também corruptos. Novidade é vermos pela primeira vez a esquerda radical, pura e dura, verter lágrimas por um multimilionário.»