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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.05.21

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Ana Margarida Craveiro: «Em França (e também por aqui), um homem poderoso é um santo, e tudo o que faz em privado são meros pecadilhos (incluindo a tentativa de violação). A polícia e o sistema judicial são abusadores deste mesmo homem, ou jogadores numa teoria internacional de conspiração. A vítima? Não interessa nada, é  uma empregada de hotel.»

 

Bandeira: «Numa remota região da China, tão remota que ali os rios desaguam uns nos outros por desconhecerem a existência do mar, habita um povo do qual jamais houve notícia. O que mais o distingue dos outros povos é a sua estranha língua: cada indivíduo pode pronunciar cada uma das palavras do léxico uma única vez. Talvez por isso, existem – de acordo com a última contagem – 271 palavras diferentes para significar "facécia", 6525 para "pórtico", 895477 para "linda" e 9003226635910 para "não". Os habitantes desta região remota da China possuem nomes ainda mais compridos do que os dos reis de Portugal.»

 

João Campos: «1825 dias de derrapagem nas obras do Metro de Lisboa que estoiraram a Avenida Duque D'Ávila. São apenas mais cinco anos - mais coisa menos coisa - do que o previsto. A derrapagem orçamental também deve ter sido grande, já que os comerciantes ficaram praticamente só com... poeira. É um bom retrato de como são feitas muitas obras públicas neste país.»

 

João Carvalho: «O ainda secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, disse hoje que o aumento da taxa de desemprego "estava dentro das expectativas", ressalvando que "o contributo mais significativo foi de pessoas que não estavam à procura de emprego e que agora estão". Querem isto mais bem explicado? Ok, lá vai: a subida do desemprego não tem interesse porque estava prevista; o que interessa é ressalvar que o desemprego só aumentou graças à contribuição esforçada e generosa de quem tinha emprego e agora não tem. Entendido?»

 

José António Abreu: «Hoje é um dia histórico. Reportagem no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Um adepto do Porto comprou o bilhete há meses porque tinha «fé». Um adepto do Braga chegou às três da manhã para apanhar um avião que sai às nove. Regresso ao estúdio. Excerto de It's a Beautiful Day, dos U2. Ligação a Dublin onde, afinal, chove. Reportagem com o tio de Domingos Paciência, que prepara uma sardinhada num pavilhão de Matosinhos. Vai levar entre duzentos e trezentos pães mas não apanhei o número de sardinhas.»

 

Luís M. Jorge: «Com o alto patrocínio da nação que inventou a Via Verde e os cartões pré-pagos do seu telemóvel reunir-se-ão hoje em Dublin alguns milhares de pategos para celebrar outro evento histórico, outro marco reluzente da portugalidade: uma final europeia. O que é uma final europeia? As oito primeiras páginas do Público esclarecem-nos: é um jogo de bola em que os bracarenses Alan, Vandinho e Paulão defrontam os portuenses Helton, Guarin e Sapunaru. Rapazes humildes de Nevogilde e Cedofeita, que molhavam o pé em Labruge ou conduziam juntas de bois em Tibães e que hoje revelarão, como é habitual nestas merdas, novos mundos ao mundo

 

Patrícia Reis: «Estou-me nas tintas para o ensaio - aliás, brilhante - de Desmond Morris que defende que o futebol é uma actividade que advém do facto de termos deixado de ser nómadas para passarmos a ser sedentários, deixarmos a caça, para sermos agricultores. A minha pergunta é muito simples: porque carga de água é que todos os dias os jornais desportivos fazem manchetes com futebol?»

 

Samuel Filipe: «Acertámos o encontro para o final da tarde. Enquanto caminhámos nas ruas do centro da cidade José J. manteve-se no mais escrupuloso silêncio. Dirigimo-nos à zona ribeirinha, onde podíamos conversar tranquilamente passeando entre os contentores e o rio. Era o melhor amigo de José J. e ele queria deixar-me ao corrente dos planos que tinha para os anos vindouros, os últimos anos de vida, aqueles em que já não era indispensável trabalhar. O projecto de fundo pareceu-me desde logo assombroso. Tencionava perder a memória.»

 

Rui Rocha: «Há umas dezenas de anos, num Portugal que críamos e queremos longínquo, Baptista-Bastos escreveu uma crónica sobre uma família de Setúbal que entaipou as janelas para que os filhos não pudessem ver os bolos exibidos na montra da pastelaria que ficava do outro lado da rua. Pois bem, perante estes números, a fome volta a ser um dado da nossa realidade.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Se o problema fosse só de amadorismo, aliás reconhecido pelos da própria casa, até não seria mau. Antes amadores bons - que até agora não demonstraram ter - do que profissionais caros e incompetentes. O pior é tudo o que vem atrás do amadorismo, e os que vêm atrás, a correr desbragadamente, quando está em causa governar o país e se deixou o poder nas condições em que Santana Lopes foi obrigado. Haja memória.»

 

Eu: «Quando ouviremos José Sócrates assumir um erro de governação?