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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.04.21

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André Miguel: «O que parecia uma boa notícia não era senão um pré-alerta para o que estava a chegar. De um dia para o outro, o horror: os dólares acabaram. O mundo, afinal, era muito maior que Luanda e os ventos de lá fora sacudiram o El Dorado com violência, pois chegara a factura pelas dificuldades de financiamento devido à crise internacional e consequente baixa do preço do petróleo. Só às construtoras a coisa atingira uns estonteantes 5 mil milhões de euros. Os angolanos descobriam de um momento para o outro que afinal o petróleo não mata a fome e os portugueses que não há almoços grátis, principalmente na Ilha de Luanda onde nunca custam menos de 100 dólares por pessoa. O pior é que o preço do escritório e do apartamento não baixou, os buracos não se taparam todos, a energia continua a falhar e a água ainda só pinga na torneira; lidar com isto e com facturas por pagar não é para todos.»

 

Bandeira: ««O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:

«Foi o Marcelo.»

«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.

«O Marcelo, Caetano.»

Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.

«Viva, inspector! Viva, Caetano!»

«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.

«Pensei que estava consigo.»

«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»

«Fazer o quê, inspector?»

«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:

«O Marcelo, Caetano?»»

 

João Carvalho: «"Basílio Horta diz ter aceitado "com gosto" o convite para encabeçar a lista do PS em Leiria e continua a afirmar-se como "um democrata-cristão".» Ser cabeça-de-lista numa eleição é própria de um democrata, sim. Já mais duvidoso é ser-se cristão e apoiar aqueles que nos arruinaram. Mas cada um sabe de si, não é? Um bom cristão dorme com a consciência tranquila. E quem não foi atirado para a ruína também. Nada como ser-se democrata-cristão em casa socialista.»

 

Teresa Ribeiro: «Num país de crescimento demográfico negativo, a maternidade de referência anda de mão estendida por falta de verbas. O quadro tem uma forte carga simbólica. Sugere-me paisagens desoladas como aeroportos de província desactivados ou cidades fantasmas, como as que vemos em certos westerns. Portugal também ficaria bem a rodar em ecrã gigante, talvez com o som de rock depressivo em fundo. Joy Division ou um daqueles temas incompreensíveis e aflitos de Bjork combinam bem com imagens decadentes, como a da Maternidade Alfredo da Costa a pedir esmola.»

 

Eu: «Como se verá em Junho, quando forem contados os votos das legislativas, José Sócrates cometeu um erro trágico ao manter-se na liderança do Partido Socialista em vez de imitar o que fez Rodríguez Zapatero em Espanha. Uma nova direcção partidária permitiria outro fôlego eleitoral ao PS - à semelhança do que o PSOE vem indiciando nas mais recentes sondagens, feitas após Zapatero ter comunicado que não se recandidataria a novo mandato - e sobretudo recolocaria os socialistas portugueses no centro do palco político português, prontos a estabelecer pontes simultâneas à esquerda e à direita. Precisamente ao contrário do que fez Sócrates, também incapaz de dialogar dentro do partido que lidera e do seu próprio Governo, como testemunha a sua ruptura com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, agora saneado das listas eleitorais socialistas.»