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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.02.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não estou, nem de perto, entre aqueles que evitam a esperança do que se passa no mundo árabe nos dias que correm. Mas se há caminho que não percorro, nem aqui nem noutros casos, é na leitura unívoca da rua. As manifestações espontâneas de rua abarcam milhares ou milhões de vontades, muitas delas incompatíveis e não é possível dar-lhes uma única orientação. Aliás, momentos como este, se acaso se eternizam, derivam sempre em ditadura, porque um Estado não consegue cristalizar permanentemente essas reivindicações, e estas quando se colam a um regime, morrem, confundindo-se com ele perdendo a sua razão de ser.»

 

Catarina Reis da Fonseca: «Há algumas coisas que podem não fazer muito sentido em Black Swan, como a associação entre questões sexuais ("go home and touch yourself") a um lado negro da personalidade de Nina ou certas cenas com demasiado sangue à mistura. Mas Black Swan é só isso? E o contraste perfeito das cores?  O confronto permanente entre branco e negro? O bem e o mal, a sanidade e a loucura, a lucidez e a alucinação, a racionalidade e a obsessão. A obsessão existe na vida real. Aronofsky não a inventou, lamento.»

 

Fernando Sousa: «Habituada ao ritmo da guerra, a cidade não soube onde pôr as mãos quando ela acabou. A paz não passou de uma notícia nem mereceu um brinde. Antes não havia dia sem saídas para o mato, colunas de camiões cheios de soldados, ainda compostos e de barba feita, ou sem regressos de contingentes rendidos, meio-despidos e de rostos cinzentos, cansados e esfomeados. O frenesi guerreiro tinha acabado.»

 

Laura Ramos: «Quando eu me embrenhava na vida escolar da descendência, até aos mínimos pormenores, já então não podia evitar o  distanciamento crítico e aperceber-me dessa evidência que era a feroz feminização do ensino, na tenra idade em que se molda a personalidade dos homens e das mulheres, no seu diário de sucessos e insucessos. E eu, que cresci num tempo em que persistiam, bem potentes e injustas, as réstias sexistas do sagrado direito à concorrência desleal masculina, vi-me mãe-investida-em-advogada-do-diabo, a insurgir-me contra um sistema de aprendizagem e de avaliação totalmente dominado pelo modelo de comportamento feminino, onde os rapazes não encontravam espaço cognitivo nem  re-cognitivo.»

 

Luís M. Jorge: «O passado não favorece os entusiastas. Ainda recordo, por exemplo, quando Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes reclamavam bombas sobre Bagdad. Os cínicos, como eu, manifestaram-se. Mas o tempo e as farsas de cem mil cadáveres trazem circunspecção e sabedoria. Também gosto de os ver agora, tão recolhidos, tão hesitantes em celebrar o derrube das ditaduras do norte de África.»

 

Rui Rocha: «Dizem-me que o Governo quer fazer constar a profissão no Cartão de Cidadão. No caso de Sócrates continuar muito mais tempo no Governo não é preciso cansarem-se muito. Basta preverem as situações de boy e de desempregado

 

Teresa Ribeiro: «Primeiro vemos Angelina Jolie a caminhar pela rua como numa passerelle. Cabeleira farta, cabelos soltos, vemo-la depois sentada numa esplanada. A seguir de perfil, de costas, em contra luz, de vestido de noite, cabelo apanhado, à média luz, em lingerie de renda, etc, etc. O guarda-roupa é luxuoso, a bijuteria exuberante. Que linda que ela é. Johnny Depp não sabe bem o que está ali a fazer. Enfim, ganha uma pipa de massa e passeia por Veneza, nada mau. Li numa revista que se enamorou de uma casa no Grande Canal e que a vai comprar. (...) O Turista não é uma catarse. Trata-se apenas e só de masturbação mental. O problema é que a Jolie não faz o meu tipo.»

 

Eu: «Um dos problemas deste país é gastarmos muito mais tempo a ler opiniões de gente burra do que de gente inteligente e bem informada. Ainda agora, a propósito das revoltas no mundo árabe, se percebe isso: damos um pontapé numa pedra na rua e saem de lá dez recentíssimos "egiptólogos" a debitar inanidades sobre a incompatibilidade radical entre a democracia e o mundo árabe. Alguns são os mesmos que há 30 anos garantiam ser impossível haver estados de direito na América Latina e há 20 anos juravam que o sistema democrático jamais vingaria na Europa de Leste.»