DELITO há dez anos

Joana Lopes: «Há algum tempo, aterrei em Frankfurt, vinda de Pequim, numa tarde chuvosa de um sábado de Novembro. Na minha cabeça, estavam ainda as ruas cheias de multidões, os milhares de bicicletas e automóveis, o movimento que não parava durante vinte e quatro horas. Tive medo quando cheguei ao centro da cidade alemã: tudo era cinzento, chuviscava, não se via rigorosamente ninguém, até um gato preto fugiu alucinadamente quando encarou alguns seres humanos. A sensação que tive foi que a Europa tinha acabado durante as duas semanas em que eu estivera na Ásia e que ninguém me tinha avisado. Pessimismo radical? Nem por sombras, apenas necessidade de perspectivar a realidade um pouco de longe. De perto, a vida continua, as férias estão à porta, os portugueses continuam a ir para Varadero, Cristiano Ronaldo é pai, uma equipa europeia vai ganhar o Mundial e o engenheiro Sócrates diz-nos que o futuro será risonho daqui a meia dúzia de dias!»
Sérgio de Almeida Correia: «Passada a fase do seleccionador que era esmurrado pelo jogador, veio a fase do seleccionador que esmurrava o jogador da equipa adversária. Depois passámos à fase do seleccionador que esmurra o jornalista e comentador televisivo. Agora estamos num outro nível, estamos na fase em que o seleccionador nacionaldescontente com o trabalho de um jornalista que o entrevistou o mimoseia com termos do género "vigarista", "execrável" e "aldrabão". A próxima fase deverá ser o insulto directo aos portugueses que não vislumbraram as suas virtudes.»
Eu: «Carlos Queiroz, acolhido há dois anos como seleccionador nacional por um coro quase unânime dos comentadores futebolísticos, ao jeito de um concerto para piano e vuvuzelas, recebe agora as primeiras críticas dignas desse nome na chamada imprensa da especialidade. Mais vale tarde que nunca. Mas convém não esquecer que estes mesmos "críticos" são aqueles que festejaram entusiasticamente a contratação de Queiroz por Gilberto Madaíl, como alternativa ao odiado Scolari.»
