Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Delito à mesa (8)

por Pedro Correia, em 17.02.19

       thumbnail_20181204_191024[1].jpg thumbnail_20181204_191137[1].jpg

 

O centenário Faz Frio foi recuperado sem perder as características que lhe deram fama. Assim se evitou o óbito de outro histórico restaurante de Lisboa.

 

Eis a boa notícia: o restaurante Faz Frio, na zona do Príncipe Real, em Lisboa, reabriu as portas. De cara lavada, com um toque renovado na decoração, mas mantendo a traça original, incluindo as salinhas interiores características de uma época cada vez mais dissolvida na memória dos alfacinhas.

Quem conhecia a Antiga Casa Faz Frio, encerrada em 2017, receou o pior. Felizmente, o centenário estabelecimento não veio acumular as negras estatísticas necrológicas da capital, que tem visto desaparecer vários restaurantes que levaram consigo inumeráveis histórias narradas por sucessivas gerações de clientes.

É bom saber também que reabriu com qualidade renovada, a preços comportáveis, com serviço competente e uma ementa que, sendo escassa, não descura o bom casamento entre modernidade e tradição. Sempre com uma sugestão diária. Na semana em que lá passei, os destaques eram estes: arroz de polvo, açorda de bacalhau, arroz de carnes fumadas, entrecosto com ervilhas, bacalhau à Assis, pastéis de massa tenra com arroz de feijão.

 

thumbnail_20181204_194002-1[2].jpg

Peixe assado com puré de cebola

thumbnail_20181204_193942-1[2].jpg

Cachaço de porco preto com xerém de amêijoas

 

O menu fixo deste remoçado Faz Frio, assumidamente, «troca as voltas ao passado», dando realce aos sabores sazonais de cada época. Agora, por exemplo, experimenta-se ali peixe assado com puré de cebola ou cachaço de porco preto com xerém de amêijoas. Bacalhau, em diversos formatos, há todos os dias. E pelo menos um prato vegetariano. Vinho a copo, com opções variadas. A rematar, arroz doce com creme de canela ou musse de chocolate 70% com abóbora, laranja e amêndoa.

Saúde-se a proeza: novos artífices honrando sabores antigos.

 

thumbnail_20181204_201119-1[1].jpg

Musse de chocolate 70% com abóbora, laranja e amêndoa

 

Rua D. Pedro V, 96, 1250-091 Lisboa

Telefone: 21 581 42 96

Horário: do meio-dia à meia-noite. Encerra às segundas.


19 comentários

Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 17.02.2019 às 10:54

Seria interessante fazer constar o preço médio por pessoa.

Cachaço já marchava
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.02.2019 às 12:48

Comigo vai marchar agora um arroz de coelho. Mas caseiro.

No Faz Frio os preços são módicos. Refeição completa, em média, não excede 20 euros. Ou até nem isso. Numa zona central de Lisboa, o Príncipe Real.
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 17.02.2019 às 14:59

Obrigado, meu caro.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.02.2019 às 21:56

Se quiser, vá-nos dando sugestões.
Sem imagem de perfil

De alexandra g. a 17.02.2019 às 23:47

"Musse"?
Raios, não como, mas escrito assim parece pedra de calçada + musgo
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.02.2019 às 00:08

Assim mesmo. Musse.
Sem imagem de perfil

De alexandra g. a 18.02.2019 às 00:11

não, falta-lhe o whisky :p

_____
(se é mesmo para comer, cousa rara, comigo)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.02.2019 às 09:03

Uísque. Com esta transcrição fonética, em fidelidade ao original escocês (nada a ver com o inglês).
Uisquinho, para os mais íntimos.
Sem imagem de perfil

De alexandra g. a 18.02.2019 às 10:19

Uísque passa, muito conotado, no meu entender, com versa enre amigos, solta, aligeirando o TAVP.
Agora, Pedro, "Uisquinho"?
"Uisquinho"??? Isto está ao nível do "'mor", do "fazer o amor", da "musse", do dálmata de loiça - ainda me lembro do texto - no parapeito da janela, etc.

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.02.2019 às 10:37

Vá dizer isso aos brasileiros, que popularizaram a expressão - e a grafia. Eles são os grandes (re)criadores do nosso idioma.
Sem imagem de perfil

De alexandra g. a 18.02.2019 às 10:41

Não vou nada, já fui, mais do que uma vez: sucede que concordo em absoluto com aquilo que li e ainda acrescento que, com a (re)criação, a revitalizaram de tal forma que são praticamente autónomos, não passado o PT de Portugal, de uma musse/uisquinho
Sem imagem de perfil

De Costa a 18.02.2019 às 15:29

E que seja esse português de Portugal o que deve ser, seja ele falado e escrito por muitos ou por muito poucos: que seja essa "última flor do Lácio, inculta e bela" que um dia um brasileiro lhe chamou (e em que "inculta" nada tem de pejorativo).

Melhor será que os brasileiros, querendo-o, façam o seu idioma passar a um estatuto de língua própria. Nada contra e não parecem andar materialmente muito longe disso (e quantos deles leram esse soneto de Bilac, quantos encontrarão na língua que falam essa flor e essa raiz?). Sendo isso bem mais legítimo e preferível: uma língua que partindo do português se constitua pela sua natural evolução no brasileiro, na língua brasileira.

Afinal, vocabulário, ortografia e sintaxe já parecem impor por lá outras edições, traduções ou legendagens para uma mesma obra por cá disponível. Afinal, a predisposição para aceitar por cá a variante sul-americana do português não parece em regra gozar de semelhante grau de reciprocidade entre os brasileiros.

Antes isso do que ver a flor do Lácio desvirtuada pela força esmagadora dos números (força que aqui surge como magnífico exemplo de que quantidade não significa forçosamente qualidade). Isso ou ver (ainda mais) os portugueses curvados em servil fascínio a fórmulas ditas de "português com açúcar", ou vê-los a inventar versões indefensáveis, a pretexto dessa lógica dos números. E que nem os brasileiros adoptam.

Mas desvio-me do tema.

Costa
Sem imagem de perfil

De alexandra g. a 18.02.2019 às 16:34

Costa (a minha rapidez na resposta deve-se ao facto de estar de folga: trabalho num museu :).

E, por falar em museus, e tendo-o lido com respeitosa atenção, concordo, se é que bem o entendi: são agora 2 formas de falar o PT, de tal forma que já não digo 'Português do Basil', digo Brasileiro, referindo-me à língua. Basta conviver com aquela malta (e o meu genro, papai da minha neta, é um desses casos) para perceber que não percebemos metade do que dizem: autonomizaram-se, e a vastidão do seu território (pensemos assim: a região do Pantanal tem sensivelmente o tamanho de Portugal, e é pouco habitada.......) ajuda à vastidão do vocabulário, nomeadamente porque a língua reporta para o que nos curcunda, o que fazemos, etc., e temos realidades absolutamente distintas, donde...

Às vezes, falando com o Fellipe, não percebo metade do que diz, mas ele percebe tudo o que digo.

Depois, há que perder, de uma vez por todas, a aura do Portugal colonizador, essa bela porcaria, quando o Brasil é uma miscelânea absoluta: posso pegar no nome do meu genro, por exemplo: origens? portuguesas, africanas, alemãs, italianas, francesas e, motivo de muito orgulho, neto de uma pura Tupi-Guarani (não é à toa que defendo cada vez mais a miscelânea das gentes, que, aliás, produz belos espécimes: a minha neta tem um olhar asiático, a pele clara, um sorriso de desmaiar e, claro, fala incongruências lindas, aos 11 meses, mas seguramente terá o melhor dos mundos - muito mundo - dentro de si)

Ninguém se desviou do tema, que o tema é uma mescla (não será à toa que os brasileiros riem de ventre para cima com a treta do AO-Coiso).

Sem imagem de perfil

De Costa a 18.02.2019 às 18:35

Ora também eu estou em folgas.

Nada há, concordará, no que escrevo, de anacronismo colonizador. Ou de sua aprovação. Nem isso nem, já agora, de sentimentos de culpa jamais expiada por coisas que eu não cometi, que o foram muito antes de eu por cá andar e que, melhores ou piores, devem - deveriam - sempre ser vistas à luz dos valores próprios, melhores ou piores, do tempo em que foram cometidas. Desses e não dos valores do presente. Nessa perspectiva histórica e não nessa outra de, perenemente, responsabilizar um povo pelo que em seu nome se fez num passado já não exactamente próximo. Assim o manda, devia mandar, a mais elementar honestidade.

Quanto ao resto, não discordaremos. Mas eu vou um pouco mais longe: pergunto-me se estamos perante duas variantes da língua portuguesa ou já (ou pelo rumo das coisas em breve) perante a língua portuguesa e uma outra que, nela alicerçada, dela filha, digamos, ganhou suficientes características específicas para ser outra: brasileiro e não português do Brasil. E, será de admitir, muito naturalmente.

E não há que ter complexos quanto a isso. Nem complexos por parte do antigo colonizador, nem complexos por parte do antigo colonizado. Entendemo-nos, oralmente e em texto, sem dificuldade, numa e noutra, ao ponto de adoptar reciprocamente vocabulário? Tanto melhor! Embora eu seja mais céptico quanto - e não só -, ao grau dessa reciprocidade; embora convenha que um mesmo texto seja vertido - nem que por mera agradabilidade - numa e noutra variantes; embora haja em alguma terminologia técnica, por exemplo, diferenças por vezes susceptíveis de gerar perigosos mal-entendidos.

Muito bem fazem os brasileiros em rir à gargalhada do AO90. Aliás os imbecis - é esse o mais moderado termo que encontro, nesta questão - somos nós, portugueses, que envergonhados da nossa língua corremos ou a enchê-la de estrangeirismos (alguns brasileirismos incluídos), ou a co-inventar uma aberração indefensável, em que insistimos, de que os outros pelos vistos riem, e que, ela sim, entre outros aleijões que ostenta, pela uniformidade internacional que visa impor, tresanda a absolutamente risível neo-colonialismo.

Não me tenha, peço-lhe, na conta de um anti-brasileiro. Conheci - uma ínfima parte e apenas brevemente - o país e nunca nele me senti mal-querido (e não foi em turismo, limitado a idílicas praias tropicais, foi em trabalho). Tenho relações profissionais, praticamente diárias e algumas já de amizade, com brasileiros por cá estabelecidos. Brasileiros ou portugueses que, de tanto tempo lá vivido, voltaram incertos - uma incerteza feliz, creio - do que são (o melhor de uns e de outros, quero crer).

Deixe-me felicitá-la pela sua radiosa ternura de avó. Nisso ainda só posso invejá-la.

Costa
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.02.2019 às 12:01

O Pedro é como eu, defensor da nossa cultura através da linguística e fonética lusa, sem misturas, que já são suficientes os estrangeirismos que ao longo do último século se acomodaram no nosso modo de falar.
Imagem de perfil

De jpt a 17.02.2019 às 14:30

ai, que saudades, ai, ai
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.02.2019 às 14:49

Havemos de lá ir.
Imagem de perfil

De Luís Menezes Leitão a 18.02.2019 às 08:30

Era frequentador habitual do antigo, onde se comia um magnífico arroz de pato, uns pastéis de bacalhau excelentes e, na época e por encomenda, um arroz de lampreia como não havia igual. A comida tinha um sabor caseiro, e o restaurante tinha um estilo de tasca antiga, como já não se via em Lisboa.

Fiquei alegre quando reabriu mas a visita foi uma desilusão. Pareceu-me uma remodelação à Martinho da Arcada, com muita pretensão e objectivo de atrair turistas, mas a ementa nada tinha a ver com a anterior e a cozinha já não tinha a mesma qualidade.

Para mim a antiga casa Faz Frio deixou de existir. A actual não passa de um restaurante médio, idêntico a tantos outros de Lisboa, mas sem nada que o distinga particularmente dos restantes. Assim como o hábito não faz o monge, o nome também não faz o restaurante.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.02.2019 às 09:08

O salto foi positivo, Luís. Porque esse Faz Frio que tens na memória já não existia ainda com a anterior casa aberta. Foi definhando por ausência de clientes, falta de investimento e manifesta incapacidade de adaptação numa das zonas mais turísticas de Lisboa.
Também lá comi um extraordinário arroz de lampreia - sobre o qual cheguei a escrever. E confirmo que os pastéis de bacalhau eram excelentes. Mas a alternativa era o encerramento definitivo, como esteve iminente e aconteceu com tantos outros estabelecimentos da capital (o Conventual e o seu inigualável cozido no pão, o Muni e o seu magnífico bacalhau à Gomes de Sá).

P. S. - Série colectiva, esta. Escreve para ela também.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D