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Delito de Opinião

Declaração de voto II

José Meireles Graça, 24.08.20

Em 2016 escrevi, a propósito da eleição de Trump, um texto seminal onde a determinado passo se dizia assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim”.

Um amigo já morto, detentor com justiça da notoriedade que com a mesma justiça a mim me falta, e que tinha opinião oposta, disse-me: És capaz de ter razão!

Tinha. E passado pouco mais de um ano pude, com assinalável modéstia, lembrar aos incréus o bem fundado do meu palpite.

Em 2018 fiz o ponto: “Talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida”.

Não deu. Tudo o que Trump diz (e, infelizmente, o homem nunca aprendeu a pensar duas vezes antes de falar, em vez de fazer precisamente o oposto) é passado ao pente fino do hipercriticismo, enquanto as suas reais conquistas, no plano interno como no externo, são votadas a um silêncio desdenhoso e revelador. Isto enquanto a guerra suja do Partido Democrata, inconformado com a rejeição de um acquis que julga civilizacional, e é na realidade a versão americana do mesmo socialismo que todos os dias faz a UE um pouco mais irrelevante, vai atingindo píncaros de promiscuidade com o Poder Judicial, e destruindo a credibilidade de uma comunicação social que há muito, lá e cá, deixou de cultivar a independência opinativa e a seriedade noticiosa.

Fora destes textos, raramente abri a matraca, porque Trump não deixa: não se pode razoavelmente defender um tipo que vai todos os dias expectorar tolices para o café reles, manhoso e primário que o Twitter é. E de tanto gritar olhem para o que o homem faz, não para o que diz, corria o risco de ficar rouco.

A guerra verdadeira não é entre as grosserias de Trump e o palavreado delicodoce de Biden, uma versão medíocre do demagogo Obama; é entre uma América grande, que talvez esteja numa decadência que é o destino inelutável de todos os impérios, e que Trump quer retardar, e outra que se condena a suicidar-se na dissolvência do socialismo mole que matará a competitividade, a vitalidade e a superioridade da economia americana.

Biden, praticamente uma não-pessoa, escolheu como colega de ticket uma preta (afro-americana, como dizem lá pela mesma razão que, aqui, os arrumadores de carros passaram a chamar-se técnicos de parqueamento automóvel). E como não ando ao corrente das trincas e mincas da politiquice americana, aguardei que me dissessem quem é a personagem. É isto.

A manobra é transparente e bem vista: trata-se de garantir o voto dos negros e das mulheres. Kamala Harris não é lésbica, que se saiba, nem portadora de uma deficiência qualquer, senão fazia o pleno.

Não faltam vozes a defender o valor simbólico da eleição de uma mulher, por o ser; e preta pela mesma razão.

Esse valor simbólico existe, e é por existir que talvez tenha valido a pena a eleição de Obama: ao menos acabou-se com a generalizada convicção de o racismo histórico da América impedir a eleição de um preto. Mas não me parece que existam os mesmos obstáculos a mulheres – basta ver a votação de Hillary, um exemplo acabado do que de pior pode produzir a classe política americana. De modo que as feministas e os feministas (sim, não faltam por aí uns tipos que passam a vida a lisonjear os preconceitos e ambições de parte do mulherio, para o efeito de lhes agradar como se elas não tivessem inclinação para escolher os homens que não lhes convêm) o que têm a fazer é arranjar uma candidata convincente. E há: Nicky Haley, por exemplo, mas não é democrata, que maçada.

Que fique claro, por causa da brigada bem-pensante: se Thomas Sowell fosse novo, e gay, e candidato, e eu fosse americano, teria o meu voto; a tal Nicky Haley também, com a condição de a conhecer um pouco melhor; e ter um genro preto, e netas pretinhas, nem por um segundo me afligiria. De modo que quem quiser interpretar as minhas opiniões à luz do racismo pode bem, com licença, ir para a puta que o pariu.

O que sucede é que, lá como cá, a riqueza não se multiplica pelo efeito de se a dividir, a eficiência não aumenta pelo efeito de se a regulamentar, e um Estado forte não é a mesma coisa que um Estado grande. Escolher um chefe de Estado não é equivalente a escolher um namorado, um sogro, um amigo, um sócio, a pessoa com quem se gostaria de jantar ou aquela com quem se apreciaria discutir a obra de Elena Ferrante.

Se bem que, no caso do jantar, Trump talvez levasse vantagem sobre Marcelo. Ao menos, a ementa não seria vichyssoise e Trump alardearia a sua imensa e genuína ignorância, em vez do vasto manancial de superficialidades de Marcelo. Mas o meu post não é sobre esta importante diferença.

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