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Debate e cidadania

por José Meireles Graça, em 28.09.20

Bruno Alves, proprietário de uma excelente cabeça, disse numa rede, a propósito de um debate sobre a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: “De um lado, o pessoal achou que Oliveira ‘destruiu’, ‘humilhou’, ‘arrasou’, ‘arrumou’, ‘limpou’ ou ‘deixou KO’ Sousa Pinto. Do outro, a conclusão foi de que Sousa Pinto ‘destruiu’, ‘humilhou’, ‘arrasou’, ‘arrumou’, ‘limpou’ ou ‘deixou KO’ Oliveira. O que só quer dizer que ficou demonstrada a absoluta inutilidade do debate político”.

Foi realmente assim, confirmo. Mas não subscrevo a ideia da inutilidade: quando o assunto se presta a diferenças nítidas esquerda/direita, e se não houver um patente desnível da capacidade argumentativa dos debatedores, o normal é que cada um veja como campeão aquele cujas ideias subscreve. Isto justificaria realmente que todos os debates desta natureza fossem inúteis se não se desse o caso de as ideias que as pessoas têm sobre a forma como o Estado deve intervir na vida dos cidadãos evoluírem.

Evoluem, sim. Tanto que todos conhecemos pessoas que se deslocaram para a direita do espectro, defendendo hoje o que antes censuravam, e, ao contrário, pessoas que se deslocaram para a esquerda, perdendo a capacidade de detectar tolices.

O próprio Daniel Oliveira é um exemplo disso, tanto que no seu extenso percurso político já esteve muito mais à esquerda. E gente incuravelmente optimista como eu, que simpatizo com o homem, vai a ponto de imaginar que, se a esperança média de vida estivesse nos 120 anos, aquele ilustre comentador da Sic ainda podia bem acabar em liberal.

Os debates fazem parte deste lento processo de alquimia: em sólidos edifícios de certezas um dia um argumento pode abrir uma fenda imperceptível; mais à frente a fenda pode evoluir para uma brecha; e um belo dia já há uma cratera e o habitante muda de poiso. Um debate não chega e, nesse sentido, é inútil; são necessários muitos, e são portanto essenciais.

O Bruno sabe bem disto. Irritou-se foi com a acrimónia, que realmente era dispensável, ainda que por mim ache que o que se perdeu em civilidade se ganhou em sinceridade. E se lá estivesse ainda era pior porque nem sequer entendo, como Sérgio, que o programa da disciplina devesse ser outro, mas antes que nem sequer deveria existir, ao menos sob a forma obrigatória. E a indignação moralista de Daniel, que guardou do Bloco aquele tique de depositário de uma superioridade moral que imagina ser atributo daquela seita tresloucada que ajudou a fundar, convenhamos: faz perder a cabeça a um santo.

Não vou juntar o meu arrazoado ao que inúmeros (desde logo os dois contendores, ambos em artigos no Expresso) já disseram: quem quiser que vá ler, além deles, o que escreveram, por exemplo, António Barreto ou Mário Pinto.

Somente chamo a atenção para este facto que, por demasiado óbvio, passa despercebido: quase toda as pessoas de direita são contra esta Cidadania e Desenvolvimento; e quase todas as de esquerda são a favor.

O que significa que, a mim, não me passa pela cabeça educar os filhos de Daniel. Se, por exemplo, o bom do intelectual quiser oferecer às netinhas carrinhos e não bonecas, não vá as prendinhas inculcarem nos tenros espíritos das meninas ideias preconcebidas sob géneros, por mim faz favor; mas já vejo com maus olhos que a escola diga à minha neta que, se o vovô lhe deu bonecas e não carrinhos, fez muito mal porque o paizinho tem tanta obrigação de cuidar dos filhos como a mãezinha.

Talvez tenha. Mas isso é um assunto nosso – não de Daniel, nem da escola, nem do legislador.

E então, este Sérgio, deputado socialista, ou, já agora, António Barreto, são de direita? Não. Apenas têm a ideia peregrina de que, no combate das ideias, é um golpe baixo formatar os filhos de uns nas ideias dos pais de outros. Ou pelo menos é assim que interpreto. Mas, lá está, não sou um espectador isento.


7 comentários

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De Adalberto a 28.09.2020 às 23:01

António Barreto de esquerda? Oh, oh, as galinhas já deixaram de ter dentes há muito tempo.
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De Marques Aarão a 29.09.2020 às 08:08

O que é ser de esquerda em Portugal?
O autocolante colado na testa, ou o carimbo mal cravado nas orelhas bastam!
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De Francisco Almeida a 29.09.2020 às 10:25

Estruturalmente de esquerda, mas não é estúpido.
Claro que não é do ÚNICO partido para TODOS os ESTÚPIDOS.
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De Marques Aarão a 29.09.2020 às 08:04

Claques politicas, antes as do futebol.
As do parlamento e das comissões de inquérito continuam a propagar ondas virus altamente infecioso.
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De balio a 29.09.2020 às 10:41

um golpe baixo formatar os filhos de uns nas ideias dos pais de outros

Mas isso está sempre a ocorrer!

As crianças (e jovens) são educadas por tudo e todos. Não são educadas exclusivamente, nem sequer principalmente, pelos seus pais. São educadas pelos professores, pelos colegas, pela televisão, pelas redes sociais, pelos colegas de brincadeira no jardim infantil, pelos familiares mais ou menos distantes, etc.

Portanto, uma criança está sempre a ser formatada por muitas pessoas e acontecimentos, que não os que os seus pais lhe fornecem.

Isto é ainda mais verdade quando a criança atinge a adolescência, altura em que os pais quase perdem totalmente o controle daquilo e daqueles que a está a educar.

A disciplina de Cidadania é apenas uma entre muitas influências educativas que a criança (ou jovem) recebe.
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De Chuck Norris a 29.09.2020 às 21:32

Daniel Oliveira foi completamente aniquilado. Apareceu arrogante e totalmente impreparado, facto que o próprio oponente identifica e explica. Daniel Oliveira não está habituado a debates, não está confortável com o contraditório. Está constantemente na sua zona de conforto, em programas televisivos compostos por elementos da sua equipa, que vestem a sua camisola e aplaudem cada laberca que lhe sai pela boca fora.
Para além de prosseguir com a estratégia desta esquerda caviar, de não ouvir os contra-argumentos, por estarem de tal forma cegos pelos seus. E depois fazem uma coisa que irrita profundamente e este Daniel fê-lo durante todo o debate, que é subverter os argumentos dos outros, repetindo até à exaustão uma mentira, na perspetiva de que se torne verdade.
Sousa Pinto não é contra a disciplina de cidadania. É sim contra estes conteúdos educativos. Ele foi bastante claro e provou-o, que a disciplina está totalmente centrada num assunto. Esquece todos os outros que deveria abranger. E o Daniel tentou convencer quem assistia, de que Sousa Pinto se opõe à existência da disciplina. Este tipo de estratégia pré-adolescente é partilhada por toda esta esquerda moralmente snob que tomou conta das nossas televisões.
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De Nuno a 29.09.2020 às 22:48

O Sérgio excedeu-se e quem não saiba o contexto (aquela discussão não começou naquele estúdio) pode acreditar na tese do santo Daniel de que foi o único insultado ali.

O Daniel passou semanas a insultar tudo e todos, e a chamar o Sérgio de idiota útil, e depois foi para ali fingir que começara a escrever uma página branca.

Quanto ao conteúdo, o Sérgio também não se portou bem. Aquilo não é o programa da disciplina. Aquilo é o guião masturbatório que a Comissão para a Igualdade de Género (CIG) produziu sobre o que deve ser a disciplina (depois do Sérgio ter votado uma lei que incumbia a dita CIG de se masturbar).

O Sérgio tem toda razão que aquela masturbação é completamente descabida para as crianças a que se destina, mas muito mais ridículo que isso, é ele ter passado 2 minutos a ler os temas que a CIG acha essenciais ensinar numa disciplina obrigatória que tem 12h lectivas por ano naquela idade (quando as masturbações da CIG é suposto serem apenas uma parte de todo o programa). Mais de 12h demora o professor responsável a digerir o documento da CIG.

Mas isto é o país que temos. Criamos a disciplina de cidadania em moldes profundamente inúteis. Legislamos uma comissão cujo pretenso objecto é produzir masturbações, mas que na prática serve apenas para fingir que nos preocupamos com os problemas da moda (i.e. para calar parceiros de coligação com o nosso progressismo). As masturbações são prontamente ignoradas por qualquer professor de bom senso.

Mas depois damo-nos ao assomo de por despacho de sub-secretário de estado querer chumbar administrativamente 2 alunos por faltarem a 12h de inutilidades, com alguns a defender que a pais assim lhes devem ser retiradas as crianças.

No mesmo país em que é possível ensinar as crianças em casa (ensino doméstico), em que é possível substituir algumas disciplinas por outras artísticas ou desportivas (ensino integrado), não é possível exigir a pais que alegam objecção de consciência que ensinem então aos filhos a sua cidadania e depois verificar as competências que se considerem adequadas.

Não, bom é reter as crianças até que os pais aceitem expô-las a 12h de ideologia de género.

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