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Delito de Opinião

De S. João do Peso a S. João de Brito

Pedro Correia, 26.06.21

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Em boa hora as biografias voltaram a ser aposta decisiva no nosso mercado editorial. Esta é uma forma de tirar do esquecimento figuras relevantes da cultura portuguesa - e também, através delas, de conhecermos melhor a época em que viveram.

Objectivos plenamente conseguidos no caso deste Integrado Marginal, extensa digressão pela vida e obra de José Cardoso Pires (1925-1998), que chegou a ser enaltecido como um dos melhores escritores portugueses do século XX pela qualidade do seu inconfundível fraseado e pela densidade dos temas que aborda - inscritos na legenda "geração falhada", como o biógrafo, Bruno Vieira Amaral, tão bem ressalta.

Falhada porquê? Por ter sonhado muito e concretizado pouco. Por integrar aqueles que tinham 20 anos quando terminou uma guerra que Portugal não ganhou nem perdeu - uma guerra que nos passou ao lado.

Aqui desenrolavam-se outros combates: contra a tirania, contra a censura, contra o atraso atávico do País, contra o fatalismo periférico que nos punha à margem do destino europeu. Este era o contexto em que Cardoso Pires viria a forjar uma obra edificada em prosa tensa, sólida, macerada pela insatisfação permanente de alguém que ia experimentando vários ofícios sem se fixar em nenhum.

Foi aprendiz de piloto da marinha mercante, tradutor, consultor literário, jornalista, professor. Avesso a prazos e horários, frequentador imoderado de bares, fiel às amizades, alérgico ao salazarismo e à sua base social burguesa e provinciana (da qual provinha a sua própria família), intransigente com princípios éticos, incoerente em facetas diversas da sua vida privada, fiel a ódios e desamores. Faltou-lhe método e disciplina para ampliar um legado de meio século de labor na escrita.

De tudo isto nos fala Integrado Marginal, estranho título, difícil de memorizar, mas que resume o percurso deste autor irregular que «punha o mesmo rigor obsessivo, quase doentio» em todos os textos, chegou a estar 14 anos sem publicar um romance e negava prosseguir uma «carreira literária» apesar de ter recebido alguns dos mais cobiçados prémios em Portugal (Camilo Castelo Branco por O Hóspede de Job, 1964: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores por Balada da Praia dos Cães, 1983; Prémio Pessoa, 1997) e alcançado pelo menos três grandes sucessos de vendas: O Delfim (1968), Balada da Praia dos Cães (1982) e o breve livro-testamento, de género indefinido, a que chamou De Profundis - Valsa Lenta (1997), com 25 mil exemplares vendidos em poucas semanas.

 

Antítese de Saramago

 

«Não tenho paciência para a vida literária, nunca tive», confessava o escritor (citado nesta biografia, p. 535). Incapaz de produzir romances a um ritmo pendular, antítese da espartana disciplina de confrades como António Lobo Antunes (de quem se tornou amigo), José Saramago (de quem nunca se sentiu próximo), Agustina Bessa-Luís (que detestava) ou Vergílio Ferreira. Já para não falar de mais antigos, mas igualmente seus contemporâneos, como Aquilino Ribeiro ou Alves Redol. «Precisava de uma grande anarquia para escrever e a anarquia requeria tempo.» (p.436) 

Legou-nos quatro romances, duas novelas e quatro livros de contos - além de duas peças teatrais e alguns volumes de crónicas e ensaios. Pouco para quem tanto prometia ao estrear-se como autor, tendo apenas 24 anos, com o magnífico Os Caminheiros e Outros Contos (1949), que cedo vincou a sua mais autêntica vocação - a de contista, muito por influência das leituras juvenis que lhe consolidaram o estilo e lhe moldaram uma voz muito própria no panorama literário português do pós-guerra, ainda marcado por rendilhados francófonos e heróis campesinos.

Assumia sem complexos a veia anglófila e o imaginário urbano povoado de rufias alfacinhas que tanto influenciaria obras como A Noite e o Riso (1969), de Nuno Bragança, e O Que Diz Molero (1977), de Dinis Machado. Mesmo tendo nascido, por acidente biográfico, em meio rural (na aldeia de S. João do Peso, concelho de Vila de Rei). 

 

Terra de ninguém

 

Ao centrar-se neste escritor, com minúcia que o desvenda como admirador do essencial da sua obra, Bruno Vieira Amaral fornece também ao leitor de 2021 um retrato de geração - a dos intelectuais da oposição que passaram grande parte da vida adulta em abortados combates a uma ditadura que parecia interminável. Para muitos, a democracia chegou tarde de mais: acabaram afinal por permanecer ancorados numa espécie de terra de ninguém. Sentindo-se estranhos num país que pouco lhes prestava atenção, encontrando refúgio afectivo em afinidades tribais propiciadas pela endogamia lisboeta, na retórica política e na turbação alcoólica. 

Se o homem é produto da sua circunstância, esta geração (que incluiu Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, Urbano Tavares Rodrigues, Luiz Pacheco, Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Dinis Machado e Baptista-Bastos) ficou a meio caminho também pelos horizontes em que se encerrou. Vários destes escritores poderiam ter rumado ao estrangeiro (e alguns fizeram-no, como Jorge de Sena), mas a grande maioria não ousou trilhar a aventura da emigração. Acabaram enclausurados num exílio interior.

Disto nos falam, em larga medida, os livros de Cardoso Pires, cuja obra está «intimamente ligada à atmosfera social do salazarismo» (p. 408). E disto nos fala também - com rara sensibilidade e notável argúcia - o seu biógrafo. Que não se limita a enunciar factos, a partir das mais diversas fontes orais e escritas: vai-nos traçando igualmente uma perspectiva crítica e analítica do autor de Jogos de Azar, cultor por excelência da ficção em formato curto - à semelhança de Ernest Hemingway, seu herói literário.

 

Luzes e sombras

 

Bruno Vieira Amaral - romancista, crítico e jornalista - assinala os traços de modernidade n' O Anjo Ancorado, a sábia caracterização das personagens d' O Hóspede de Job, a original construção romanesca d' O Delfim, o cruzamento da realidade com a ficção nas páginas da Balada da Praia dos Cães, o manifesto desequilibrio de Alexandra Alpha. Sem ceder à tentação tão portuguesa do elogio a metro, da louvaminha, da hagiografia.

Não nos narra uma história exemplar: elabora um retrato com luzes e sombras de um homem sociável mas solitário, generoso mas quezilento, pai distante mas avô meigo, cáustico demolidor do marialvismo mas machista funcional a tempo inteiro. Um homem que fazia vida de solteiro estando casado. Que militou no PCP clandestino (onde tinha o pseudónimo "Nunes") mas logo se desfiliou em 1974. Que alternava picos de criatividade com longos períodos em que se sentia incapaz de escrever uma linha. 

Eis-nos, portanto, perante uma verdadeira biografia. Que nuns pontos iguala e noutros até supera a que em 2007 Maria Antónia Oliveira dedicou a O'Neill.

Sente-se aqui a falta de fotografias que ilustrem o percurso de Cardoso Pires - com o pai marinheiro, a mãe beirã desterrada em Arroios, a escola primária no Largo do Leão, a infância feita de «janelas e solidão», o tio da América que o fascinou ao ponto de ter iniciado mais de uma vez um romance que o imortalizaria, a sua passagem pelos escritórios da Ulisseia, pela redacção do histórico Almanaque, pelo gabinete no Diário de Lisboa (onde foi director-adjunto nos febris anos revolucionários de 1974-1976 e era lentíssimo a escrever editoriais, ao ponto de lhe chamarem «a vírgula mais cara da imprensa»), as passagens pelo Brasil, as aulas que deu no King's College de Londres, os encontros com Elio Vittorini, Roger Vailland, Julio Cortázar, Norman Mailer, Vargas Llosa. No apartamento da Caparica, onde se refugiava para escrever. Na casa de Alvalade, onde morou nas últimas quatro décadas de vida, entre queixas reiteradas à atmosfera burguesa do bairro e à presença tutelar da igreja de S. João de Brito, a poucos metros da sua varanda: parecia punição divina a quem sempre se proclamou anticlerical.

Ao contrário do que sucede com outros escritores (José Rodrigues Miguéis, por exemplo), o espólio de Cardoso Pires tem sido bem preservado pelas herdeiras. No final de Integrado Marginal, Bruno Vieira Amaral exprime o desejo de trazer «novos leitores» para o autor de Lavagante. Acaba de dar um excelente contributo ao escrever esta biografia.

 

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Integrado Marginal, de Bruno Vieira Amaral (Contraponto, 2021)
599 páginas.
Classificação: *****

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