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De Quem nos Deixa Saudades

por Francisca Prieto, em 04.12.15

enfeite de natal.jpg

A tia Mette sempre foi a nossa tia exótica. Dinamarquesa, casou com o meu tio Eduardo por duas vezes. Da primeira, de vestido branco, comprido, como manda a tradição. O cabelo curto e os dentes da frente ligeiramente encavalitados faziam adivinhar um espírito irreverente. Pelo menos nos anos sessenta de uma Lisboa onde as mulheres ainda andavam de saias e nem todas eram detentoras de carta de condução.

A tia Mette era para mim o cúmulo da sofisticação. Fumava longos cigarros SG gigante em pose de revista; à noite, na cozinha, segurava num copo de vinho de pé alto e brindava em dinamarquês com o meu tio e, sobretudo, conduzia o seu citroen com as mãos na parte de dentro do volante.

A sua casa combinava o melhor gosto das tradições portuguesas, com móveis de madeira nórdica, maciça, e algumas referências de pintura taitiana do seu bisavô – o pintor Paul Gauguin.

No Natal, ao contrário das árvores com bolas de todas as cores e fitas estridentes que povoavam as nossas casas, em casa da tia Mette havia sempre decorações de um bom gosto inédito. Claro que hoje sabemos que eram compradas no Ikea de Copenhaga, mas na altura sabíamos lá o que era o Ikea.

Como o aniversário de um dos meus primos é a 31 de Dezembro, passávamos sempre lá o ano em família. Os adultos à mesa, com talheres de um dourado baço a combinar com o serviço de loiça egípcio da minha avó, e nós, a miudagem, a correr pela casa, fazendo razias à árvore de Natal com velas verdadeiras acesas. Nem sei como nunca nos imolámos inadvertidamente.

Um dia, quando eu tinha uns doze anos, os meus tios desentenderam-se e a tia Mette pegou nos três filhos e em meia dúzia de malotes e rumou à Dinamarca.

Tive um desgosto tremendo e durante muitos anos lembrava-me desta tia com uma imensa saudade.

Passaram-se uma catrefada de anos e um dia fiquei a saber que o tio Eduardo e a tia Mette se iam casar outra vez. Parece que foram jantar fora um dia e que ela, arisca, lhe terá perguntado se ele queria ser seu amante. Reza a história que ele terá respondido que sim, mas só se ela se casasse com ele.

De maneira que foi assim que a tia voltou às nossas vidas. Um par de décadas mais velha, com mais meia dúzia de quilos, mas sempre com um sorriso e um piscar de olho que nos fazia saber o quanto gostava de nós.

Viveu em Portugal os últimos quinze ou vinte anos da sua vida, feliz, sempre de porta aberta para receber com pratos exóticos esta família que também era a sua.

Um dia, a dormir, chamaram-na do céu e lá foi ela, deixando-nos a nós outra vez cheios de saudades.

Lembrei-me disto tudo a propósito de uns enfeites de Natal que comprei no outro dia, iguaizinhos aos que ela costumava ter. Não sei se agora está no céu a evangelizar o Menino Jesus sobre a importância do sentido de humor, ou se só vive nos interstícios dos nossos corações mas, seja como for, desejo-lhe um Natal de arromba.


5 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 04.12.2015 às 21:59

Memórias felizes que transcreve deliciosamente.
Os que partem nunca nos deixam verdadeiramente enquanto nos lembrar-mos deles com tanta ternura.
Acabam tantas vezes poe ser o tema de conversa na mesa da consoada, pelas melhores razões evidentemente, porque nos deram tanta alegria para relembrar.
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De Maria Dulce Fernandes a 05.12.2015 às 11:37

* lembrarmos... os iPads por vezes têm vida própria...
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De gty a 05.12.2015 às 04:50

O Menino Jesus não precisa de ser evangelizado pela sua tia sobre a importância do sentido de humor.
Pôr o Filho de Deus a receber lições da sua tia é tão grátis que torna qualquer redacção insípida em algo de ainda mais insípido.
Humor por humor, quem parece necessitar ser evangelizado é Maomé. A sua tia e Maomé. Brinque com Maomé.
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De Francisca Prieto a 09.12.2015 às 20:52

Hummm...um bocadinho de humor também não lhe fazia nada mal nesta quadra. Ou noutra qualquer, já que falamos nisso.
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De Teresa Ribeiro a 05.12.2015 às 15:23

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