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De novo o verde, o azul e o laranja (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.19

Mount Kinabalu 1.jpg

Um dos aspectos que mais negativamente me impressionou nos percursos de barco, durante as imersões, em praias de ilhas praticamente desertas e nos percursos que fiz pelo interior dessas ilhas foi a quantidade de lixo, em especial plásticos, caixas de esferovite e latas, espalhado por esses locais. Em geral, tratam-se de materiais de fácil recolha, muitos arrastados pelas marés e vindo de outras paragens. No leito do mar e próximo de bancos de coral também vi aparelhos de pesca e redes semi-desfeitas.

Creio que foi em Mamutik que demos de caras com um esgoto rudimentar a céu aberto, construído a partir de duas latrinas, com chuveiros anexos de apoio aos mergulhadores e banhistas, esgoto esse que dava directamente para uma praia. Os líquidos e sólidos saiam da tubagem de plástico e seguiam areal fora, por aquela cama lisa, macia e tão branca que de tão fina parecia farinha de trigo. Sem obstáculos e em via aberta para o mar. A este propósito foi tirada uma fotografia e apresentada uma reclamação junto do departamento oficial competente. A responsável que a recebeu ficou bastante incomodada, mas os guardas da ilha estavam perfeitamente ao corrente da situação. Estou curioso em saber qual o andamento que foi dado ao assunto e cuja resposta ainda aguardo. 

Praia 1.jpg

Jacques Cousteau, o oceanógrafo que passou muitos meses com o Calypso por estes mares e desvendou Sipadan ao mundo, não teria certamente gostado de ver o que encontrei: muito coral destruído e menos espécies do que aquelas que esperava. A inclemência dos temporais que ciclicamente assolam estas paragens responderá por uma parte, mas o grosso da destruição deve-se a nós, humanos, às dezenas de barcos que circulam a alta velocidade, apinhados de turistas, sem qualquer cuidado em zonas baixas, fazendo tangentes aos corais, assustando a fauna toda. 

Barco Borneo Divers.jpg

Naturalmente que não é possível estabelecer comparações com o que se alcança nos mares europeus, com excepção de alguns locais mais remotos dos Açores, mas estabelecendo um paralelo com outros locais de mergulho, mesmo na Malásia, nas Filipinas, na Indonésia, em Palau ou na Polinésia francesa, era de esperar muito mais. Desconheço como estará a situação em Tiga, Layang-Layang, Lankayan ou Kapalai, do outro lado da ilha, perto de Semporna, mas tenho esperança de que esteja melhor. Pode ser que em breve regresse para confirmá-lo. O Tunku Abdul Rahman Park está demasiado perto da costa de Bornéu e isso também torna fácil o acesso de excursionistas mais preocupados em se exibirem e tirarem fotos aos seus óculos e chapéus do que à natureza.

Logo Parque.jpg

O mar será sempre o mar e a sua resistência aos nossos desmandos é grande. A natureza também em regra é generosa. Todavia, há limites. Neste caso penso que já os ultrapassámos todos. O Governo de Sabah tem procurado fazer a sua parte na manutenção da fauna, da flora e de um ambiente ecologicamente saudável, mas exige-se uma outra cultura e uma outra relação dos humanos com a natureza.

Penso que quem vai até paragens como estas tem o dever de alertar as autoridades locais para a necessidade de preservação dos ambientes marinhos. O turismo de massas tem aberto muitos horizontes, só que, concomitantemente,  tem contribuído para a destruição de muitos locais, outrora verdadeiros santuários. E para mal dos meus pecados tenho sido uma das testemunhas do descalabro.

Carnívora 1.jpg

No interior da ilha de Bornéu a situação pareceu-me bem melhor. À medida que nos afastamos de KK vêem-se menos excursões. Longe do centro não há lojas, as estradas estarão ao nível das nossas regionais e florestais, longe das vias principais, e isso acaba por demover muitos de aí se deslocarem. Há quem aproveite os muitos passeios organizados por operadores de eco-turismo, normalmente empresários jovens com formação superior. É possível ir em jeeps 4x4, descer alguns rios (Kiulu, Kadamaian e Padas) fazendo rafting, escalada ou percorrendo os trilhos ao longo dos dias até se chegar ao topo da montanha. Em Bornéu é fácil e acessível o aluguer de um carro ou de uma mota, mas o ideal é mesmo ter um natural da terra, conhecedor dos sítios, da sua história e geografia para nos acompanhar pelos acessos. Esta foi também a escolha que fizemos para nos aventurarmos pelo interior.

Mapa KK Park.jpg

A fauna e a flora são riquíssimas valendo a pena visitar os parques nacionais. O Kinabalu Park é um deles. Cobrindo uma área de 750 km quadrados, foi fundado em 1964 e constitui património mundial classificado.

Flores 3.jpg

Nele estão catalogadas mais de 800 espécies de orquídeas, das mais variadas cores, tamanhos e feitios, das mais minúsculas e nascendo nos lugares mais estranhos, às maiores. Há fetos lindíssimos de um verde penetrante e dimensões descomunais, várias espécies de plantas carnívoras, borboletas incríveis (nas proximidades há várias quintas e jardins com imensas espécies), mas o mais impressionante é de facto a floresta e as suas árvores frondosas, com seus caules descomunais, muitos atingindo diâmetros de mais de 4 ou 5 metros e alturas da ordem dos 80 e 90 metros.

Saber que aquela floresta existe há milhões de anos, que aquelas cores e sons estiveram ali desde sempre e continua a alojar tantas e tão variadas espécies não deixa de ser  esamgador.

Parque 2 militar.jpgPark 1.jpg

Há alguns militares em pontos estratégicos, cordiais e prestáveis, não sendo permitido colher "recordações".  O que lá está é para continuar. Ali só se deixam pegadas, apenas é permitido levar fotografias. Não pode ser de outra maneira.

Raflésia 1.jpg

No percurso de ida fizemos um pequeno desvio para ver uma da espécies que recolhe mais atenção e protecção. Trata-se da raflésia.

A raflésia é uma espécie de planta parasita, da qual estão identificados dezassete tipos, que só existe no Sudeste Asiático. Até hoje foi encontrada na península malaia, em Sumatra, nas Filipinas e em Bornéu. Há quem diga que também em zonas remotas da Tailândia. Oito daquelas espécies são apenas daqui, de Sabah, sendo que três delas só é possível ver em altitudes entre os 200 e os 1200 metros.

A espécie foi primeiramente descoberta em Java, por volta de 1794, por Louis Deschamps. Todavia, em Bornéu só a vislumbraram em 1818. Foi um guia do Dr. Joseph Arnold quem teve esse encontro com a flor da raflésia, cujo nome foi atribuído em homenagem a Sir Thomas Stanford Rapples, o líder da expedição.    

A planta não tem caules, folhas ou raízes verdadeiras. É um endoparasita que introduz o seu órgão absortivo, o haustório, na planta hospedeira onde se aloja e a partir da qual  recolhe os nutrientes de que necessita.

Raflésias 2.jpg

A flor da raflésia pode ter cinco ou mais pétalas e atingir diâmetros de mais de um metro e um peso até 10 quilos. O seu aroma atrai muito insectos que transportam o pólen das flores macho para as flores fêmea. Na maior parte das espécies as flores macho e as flores fêmea crescem separadamente, havendo algumas que são bissexuais. Sabe-se pouco sobre a dispersão da sementes, que aparentemente serão dispersadas pelos esquilos e outras espécies que comem os frutos. Para ver as raflésias e fotografá-las é necessário pagar-se, estando as plantas em locais protegidos. As comunidades indígenas usam-nas em tratamentos e na Tailândia, pelo que me disseram mas não pude confirmar, também como especialidade gastronómica. Esperemos que a sua voracidade não acabe com as que restam.

Flor 1.jpgCaule 1.jpg

Há imensos insectos, borboletas que mais parecem pequenas andorinhas, tal a sua envergadura, de cores espantosas, muitos esquilos, milhares de pássaros emitindo toda a variedade de sons, cascatas pequenas e grandes, riachos correndo apressados pelo meio do verde, passadeiras de madeira e corda atravessando pequenos vales, sempre com vistas espantosas nas zonas mais altas e abertas da floresta.  

Orquideas 1.jpg

As fotografias, os pequenos vídeos e os apontamentos que se vai tirando ajudar-nos-ão um dia a recordar os detalhes daquilo que observámos. A nossa memória encarregar-se-á de nos transportar até ao que não pode ficar registado. Aos cheiros, ao perfume do verde e da madeira, à delicadeza e graciosidade de alguns voos que nos furam o olhar e penetram até à entranhas, enquanto vemos as cores irreais da plumagem, as combinações que a natureza fez, sentindo toda aquela humidade, que se nos cola à pele, escorrer vertiginosa pelas folhas e riachos, conduzindo-nos trilho após trilho, sem hiatos, como se fora uma inesgotável fonte de prazer e de vida sempre pronta a regenerar-se e a recomeçar todas as manhãs, entre duas chuvadas e o raio de sol que por momentos atravessa a copa das árvores acendendo um poderoso foco à nossa frente. Como que alumiando-nos o caminho que pisamos, para vermos melhor os seus habitantes, formigas enormes e apressadas, guiando-nos por aquela imensidão e de onde não queremos sair quando a noite se aproxima e os sons da manhã vão sendo substituídos por outros mais estridentes que se agitam nas copas mais altas, indiferentes à nossa presença. Como há milhões de anos. Como se não existíssemos e nunca ali tivéssemos estado.

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3 comentários

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De Luís Lavoura a 27.02.2019 às 11:38

Que caraças, esses atrasados não sabem construir uma simples latrina de compostagem, como os nossos avós faziam e se faz, por exemplo, no Vietname?
Basta um buraco fundo no solo, devidamente impermeabilizado com cimento, e com um banco de madeira por cima!
E os turistas aceitam ir a um sítio assim, onde vêem a própria merda a correr para o mar onde depois se irão meter?

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