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De novo o verde, o azul e o laranja (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.19

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Foi com esperança de que a época seca chegasse um pouco mais cedo, de maneira a coincidir com o tempo que tinha disponível, que parti pela terceira vez para Bornéu, mais concretamente para Sabah, que com Sarawak, outro dos  estados da federação malaia, ocupa cerca de 26% da área da terceira maior ilha do mundo (a seguir à Gronelândia e à Nova Guiné). O restante território faz parte da Indonésia e do pequeno estado do Sultanato do Brunei.

Logo à aproximação ao aeroporto de Kota Kinabalu pude vislumbrar os mais de 4000 metros do Monte Kinabalu, que rasgando os fundos oceânicos se ergueu ali entre aquela ponta do mar do Sul da China, o mar de Sulu e o mar de Célebes, para alguns chamado de Sulawesi.

Desta vez ia com propósitos específicos e que em momentos anteriores não pude concretizar, a saber: visitar a região do Monte Kinabalu, percorrer as ilhas das proximidades e mergulhar no Tunku Abdul Rahman Park, do qual há anos ouvira falar quando estivera em Sipadan e que, embora sabendo que não iria encontrar grandes pelágicos – ver tubarões-baleia seria uma hipótese remota –, me atiçaram a curiosidade sobre as variedades de coral e das centenas de pequenas espécies que por ali deambulam. 

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Por aquelas paragens, normalmente muito transparente e com visibilidades acima dos trinta metros, o mar assume diversas tonalidades que vão do azul profundo ao convidativo turquesa, sempre com temperaturas mais perto dos 30 do que dos 20.º Celsius.

Cheguei ao início da tarde, um pouco cansado, pelo que aproveitei o que restava do dia para retemperar forças, dar uma pequena volta pelas proximidades do hotel, apercebendo-me das mudanças operadas nos últimos anos, visitando um pequeno mercado nocturno e tratando de programar as jornadas que se seguiriam.

No dia seguinte, a alvorada foi cedo e aproveitámos para um primeiro contacto com as ilhas do Parque Nacional, cujo nome se deve a um antigo primeiro-ministro malaio.

Ocupando uma área de aproximadamente 5000 hectares, na sua maior parte coberto por água, o Tunku Abdul Rahman Park situa-se no chamado "triângulo de coral", que inclui as águas da Indonésia, Filipinas, Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão e Timor. A sua biovidersidade é considerada a mais rica do mundo, havendo cerca de mais de quatro dezenas de mamíferos que só existem ali. Da sua floresta tropical se diz ter sido formada há mais de 130 milhões de anos, ou seja, num período ainda anterior ao da formação daquela que ocupa a bacia do Amazonas.

Nos últimos quarenta anos, a ilha perdeu cerca de 25% da sua floresta, o que a tornou em mais um centro de atenção da tragédia que a todos nos afecta e cujas alterações mais sensíveis são diariamente sentidas na irregularidade dos ciclos climáticos e em muitas das tragédias que nos diversos pontos do mundo vão assolando a humanidade. E essa foi mais das razões que me levou este mês até lá. Antes que fosse tarde.

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Uma rápida viagem de pouco mais de vinte minutos a partir de Jesselton Point, de onde saem diariamente muitas centenas de barcos, ora com mergulhadores, ora com viajantes, turistas, excursionistas ou simples curiosos das mais diversas nacionalidades e credos, levou-nos até Pulau Manukan e, depois, à ilha vizinha de Mamutik. Para primeiras impressões não foi mau. Tanto numa como na outra ilha existem alojamentos para os viajantes poderem pernoitar ou passar alguns dias, mas o ideal, para quem quer dormir, é chegar com reservas feitas e transfer garantido.

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As condições dos alojamentos locais pareceram-me razoáveis, com uma paisagem magnífica, mas não serão as melhores para quem prefere passar a noite a dormir num bom hotel, sem bicharada por perto, jantar num restaurante confortável e está predisposto a todas as manhãs apanhar um barco para demandar as águas do parque. 

A alimentação nas ilhas é má, pelo menos para os meus padrões, com cozinha predominantemente asiática e os típicos hambúrgueres para turistas, em geral mal confeccionados, com uma qualidade péssima e higiene discutível. Daí que haja quem, como eu, prefira garantir todas as manhãs um bom pequeno-almoço, levando fruta e umas buchas, que permitam aguentar o dia até ao regresso sem sobressaltos de maior. 

Convém ter cuidado com as diversas espécies de jelly-fish, algumas quase invisíveis dada a sua pequenez e transparência, alforrecas e espécies afins. Passam despercebidos e, em regra, só depois do contacto ou da picada, quando sai da água, é que o banhista se apercebe das marcas no corpo e começa a comichão.

Convém não esquecer que também estamos em mares onde as temíveis caravelas portuguesas (Portuguese Man O’ War, Physalia physalis) costumam fazer aparições, pelo que todo o cuidado e atenção são poucos.

Em todo o caso, não se faça disso um drama, sob pena de não se tirar qualquer partido da viagem. Para as situações de emergência, nas praias, os nadadores-salvadores de serviço costumam ter uns pensos de vinagre para aplicação imediata, assim aliviando o desconforto. Daí que, também por causa do sol intenso destas paragens, haja quem só tome banho com t-shirts e fatos de licra, o que não é, nunca foi, o meu caso. Apesar de tudo.

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As ilhas do Parque são muito pequenas — as outras são Gaya, a maior, Sapi e Sulug —, com lagartos e macacos curiosos, e com os quais convém ter atenção, pois há relatos de quem tenha ficado sem as mochilas, os óculos ou a comida entre dois mergulhos. Os lagartos, de dimensões respeitáveis, passeiam-se tranquilamente. A macacada vai-se ouvindo e vendo. A Sapi não fui depois de me dizerem que era a ilha com mais macacos naquela zona. Também não mergulhei num ilhéu famoso pelas suas cobras do mar. Não me apetecia ser importunado e de macacos e cobras já tenho a minha conta.

Em Pulau Gaya podem-se passar longas horas a ler e passear, observando os pássaros, e mergulhando com os Borneo Divers, com os quais aliás já havia mergulhado noutras ocasiões em Mabul e Sipadan, e a equipa do Down Below - Marine and Wildlife Adventures, os únicos que têm a operação centrada em Gaya. Os primeiros têm um centro magnífico nas imediações do Shangri-La, com óptimo equipamento, boas embarcações e pessoal profissional, e uma base de apoio em Mamutik, onde normalmente fazem os intervalos entre mergulhos. Convém ter em atenção que hoje em dia há dezenas de operadores de mergulho embora nem todos sejam recomendáveis.

Para além daqueles com quem mergulhei naquela zona, há muitos mais com lojas na cidade, pelo que é fundamental obter referências antecipadamente para se saber com quem se vai para um outro mundo com a confiança de se saber que não se vai para o outro mundo. Pode parecer paradoxal mas em matéria de segurança debaixo de água o meu lema é nada de aventuras. E felizmente não me tenho dado mal nos últimos trinta anos.

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A partir do mar têm-se óptimas vistas para terra. Em especial para quem vá às ilhas Mantanani, a vista do Monte Kinabalu e o silêncio são sublimes. Para se ir a estas ilhas é melhor fazer primeiro os cerca de 80km por estrada, a partir de KK até Kota Belud, para depois se apanhar uma das potentes lanchas, em regra com motores de 750 ou 500 cavalos, que fazem a ligação em cerca de 35 a 40 minutos, sabendo de antemão que estar preparado para levar alguma bordoada durante o trajecto de ligação é normal. Na Mantanani Besar há cerca de duas dezenas de locais de mergulho, sendo possível ver três navios japoneses da II Guerra em Usukan Bay.

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No regresso, ao final da tarde, há quem aproveite para visitar algumas espécies locais de símios e gozar um fantástico pôr-do-sol no Kokol Haven Resort, onde não cheguei a ver o pôr-do-sol devido à hora tardia em que nos pusemos a caminho. O local fica a cerca de meia-hora de KK e é recomendado por muitos residentes. Não vem nos guias. Quem quiser lá ir deverá sair cedo, se se deslocar a partir de KK, aí por volta das 16:15, por causa dos engarrafamentos citadinos e de maneira a chegar a horas de poder desfrutar a vista. De táxi, uma viagem de ida  poderá custar cerca de 40 RM (talvez aí uns 8 euros).

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Há imensos sítios para se apreciar o espectáculo do final do dia, mesmo na cidade ou em praias próximas, como na Tanjung Aru, só que também não há mais nada para além de muita gente, pelo que é preferível fazer uns quilómetros e fugir da "turistada" endinheirada, que vinda do Império do Meio arrasta os chinelos de "smartphone" em riste, fazendo poses, exibindo camisas com desenhos Versace e Valentino, aos berros e aos encontrões...

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2 comentários

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De Vorph Valknut a 27.02.2019 às 08:31

Texto, fotos...tudo sublime.

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