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De luz e de sombra

por Rui Rocha, em 19.11.18

Vamos lá ver. Sempre gostei de touradas. Gostei da 1ª vez que vi ao vivo, com 5 anos, até porque a minha mãe me garantia que aquilo que saía do touro quando lhe espetavam as bandarilhas era vinho tinto. E, nesse dia, quem lhas espetava era o Chibanga. Gostava de ver touradas na televisão, com a minha avó, num tempo em que na televisão não se passava nada, ou o que se passava eram o TV Rural, o Tom e o Jerry, os desenhos animados desencantados na Checoslováquia pelo Vasco Granja e os Jogos Sem Fronteiras. E gostava de ver ainda que, até certa altura, a minha mãe tivesse de me tapar os olhos para não ver as pegas porque nas pegas eu tinha um bocadinho de medo. Depois, já em Braga, onde víamos mais a televisão espanhola do que a portuguesa (eu já conhecia o Piranha e o Chanquete uns bons anos antes de a RTP os trazer para Portugal), descobri a tourada à espanhola. Com os Miuras e os Victorinos. Com picadores, morte do touro na arena e, nos dias perfeitos, corte de rabo e orelhas. E sim, a tourada portuguesa perdeu um bocadinho de interesse, com excepção da parte dos forcados. E sim, houve tardes em que corri para casa para ver as transmissões da TVE da Feria de Las Ventas, ou da Maestranza de Sevilla ou de Ronda. Sim, vi o Antoñete, o Ruiz Miguel, o Espartaco, o Paco Ojeda, o El Niño de la Capea, o José Luis Manzanares e o El Yiyo e o Curro Romero. Adorava aquilo, cheguei a perceber um bocadinho daquilo. Do "temple", dos "espacios", das "querencias", das "tablas". Por isso, não me venham falar das touradas do ponto de vista de gostar. Gostava de touradas e acho, para ser sincero, que ainda gosto. Do frisson, da valentia, do perigo, da violência, eu sei lá. Não me interpretem mal, mas gostava das touradas como gostava dos filmes de cowboys em que os índios eram sempre os maus e perdiam sempre. Morriam como tordos à pistola do John Wayne e dos tipos do Bonanza e nós ficávamos contentes. Ou não ficávamos? Ou como gostava do wrestling até perceber que aquilo não era pancada a sério, que estava tudo feito. Da mesma maneira, imagino, que alguns gostam de ver quando há acidentes. Ou que outros gostam de insultar árbitros todos os fins-de-semana. Somos herança genética e somos cultura e uma e outra influenciam-se. Nesse gostar de tourada, de filmes de cowboys, havia uma questão de empatia direccionada que resolvia o problema. Os índios eram todos maus, não eram? E os touros, na verdade, eram praticamente um objecto. E se estavam lá, era porque queriam. Essa é a história perfeita da tourada. O touro está lá porque é da sua natureza ser bravo, investir, ser toureado. Se não for toureado, extingue-se e, como todas as espécies, o touro orienta-se para a sua sobrevivência. E o toureiro está lá, com todos os que estão, porque essa a é a sua cultura, a sua tradição. Está tudo bem, então. Somos genética, química e cultura e a violência está presente no resultado. Está tudo bem, não está? Do ponto de vista dos instintos básicos, está, Desse traço fundamental da humanidade está, claro. Mas e depois? Não há na tourada uma violência gratuita que merece reflexão para lá disso? Pergunto porque continuo a gostar de tourada e, ao mesmo tempo, sinto que as touradas já não são deste tempo, que chegou a hora de pensarmos nisso.

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35 comentários

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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 10:42

Rui, concordando, só quero deixar uma adenda. No séc XIX eram legais as lutas entre cães, na Inglaterra . Depois foram proibidas e com essa proibição desapareceram várias raças destinadas ao combate, criando-se outras. Se o touro de lide desaparecer pois que seja.

Se o mundo proibir as armas e as fábricas fecharem e com isso milhares ficarem sem emprego pois que seja. Há "males "que vêem por bem.
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De Luís Lavoura a 19.11.2018 às 11:18

Se o touro de lide desaparecer pois que seja.

Não há problema em que a raça "touro de lide" desapareça. Mas o que pode ser problemático é que, se desaparecer a criação de touros de lide, desaparecerá o sustento económico para a manutenção do cultivo de algumas terras em regime extensivo, favorável à conservação da natureza. Essas terras, de valor económico de outra forma marginal, serão então possivelmente abandonadas e ficarão abertas ao ciclo infernal dos incêndios.

Ou seja, o que importa não é o touro de lide, é a conservação da natureza que ele possibilita.
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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 11:50

Não se preocupe. Temos a Unidade de Intervenção Rápida das Cabras Sapadoras (UIRCS).
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De Luís Lavoura a 19.11.2018 às 12:29

Pois. Mas as cabras sapadoras custam dinheiro. Alguém vai ter que pagar o trabalho delas.
Já no caso dos touros de lide, quem paga o trabalho deles (a limpar as terras em que pastam) é quem vai assistir às corridas. Não tenho que ser eu, nem você, nem o contribuinte em geral.
Assim como assim, eu prefiro que o trabalho de limpeza das terras seja pago (voluntariamente) por quem assiste às corridas de touros, e não (coercivamente) pelos contribuintes.
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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 13:26

Já fez as contas. Eu ainda não.
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De Sarin a 20.11.2018 às 18:25

Só desaparecerá se quiserem - a carne tem tradição gastronómica na Península, mas é uma teadição pouco difundida porque isso daria argumento contra o argumento preferido dos defensores das touradas. :)
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De Luís Lavoura a 19.11.2018 às 10:49

o toureiro está lá [...] porque essa a é a sua cultura, a sua tradição. Está tudo bem, então.

Não. Está tudo mal. Quando a justificação para algo é essencialmente a cultura e a tradição, então é porque esse algo está fortemente errado.
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De JgMenos a 19.11.2018 às 10:59

Pois claro, 'chegou a hora de pensarmos nisso'.

E chegou a hora de pensarmos nisso porque se diz que tudo tem que ser interrogado, pensado, reflectido, desconstruído, reconstruído, porque parece que ultrapassamos já a fase da genética e agora é o pensamento que nos guia.
Não o pensamento a solo, mas o pensamento guiado por aqueles que a todo o momento nos propõem pensar no que eles pensam.

Já pensamos, e sabemos agora que os cães não dão serviço social, dão mesmo cadeia. Porque não os toiros? Porque não as ovelhas?
Pensemos pois em tudo que nos mandem pensar, e tenhamos em conta que os pensadores são os guias e quem não os siga são seres sencientes cujos gostos, tradições e impulsos genéticos não são de considerar.
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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 11:10

Serviço social serve quando alguém dá uma murraça. Cadeia quando um energúmeno abre com uma faca o ventre de uma cadela a sangue frio. Aliás psicopatia e crueldade com os animais costumam andar de mãos dadas.
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De Oscar Maximo a 19.11.2018 às 11:42

Stavro Blofeld's, Spectre, Bigglesworth, demonstram o contrário.
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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 11:54

Tem razão. Acrescentaria também o Hitler, que adorava a sua cadela Pastor Alemão. Contudo Óscar, talvez em todos esses casos seja mais um questão de sociopatia, que psicopatia.
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De JgMenos a 19.11.2018 às 12:46

O Hitler é-lhe um bom exemplo, julgava tudo e todos muito rapidamente.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 13:07

"...la fiesta más culta que hay hoy en el mundo".
Ferderico, "o" Garcia Lorca...

Surpreende-me não ter mencionado dois extraordinários artistas :Paco Camino e Santiago Martin "El Viti" ( ou "Su Majestad El Viti"...).
Na actualidade, Ponce .
Sugestão de leitura (mas céptica...) : "Toros y Cultura", de Andrés Amorós.

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De JgMenos a 19.11.2018 às 15:38

Da caça e dos touros - Ortega y Gasset


'... nenhuma época quer a sério e de modo resoluto, emigrar de si mesma, mudar-se em outra...'
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De António Maria a 19.11.2018 às 17:33

Ponce sim, mas acrescento Roca Rey, Mazanares, Talavante e uma boa mão cheia de novos novilheiros.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 18:06

Caramba, ninguém fala do José Tomás?
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De António Maria a 19.11.2018 às 19:44

Esse está noutra galáxia. Estamos sempre à espera que desça à terra para no deslumbrar.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 13:34

Chegou a hora é de questionar a cultura da esquerda anti-catolica em Portugal, não as touradas que fazem parte da cultura portuguesa do mundo rural !!!
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De Anónimo a 19.11.2018 às 17:24

Ja reparei que os animais ja tem mais poder que as crianças!!! Toda a gente se choca com os coitadinhos dos animais mas nao se chocam com as crianças portuguesas em barracoes nos hospitais, nao se chocam com o estado a promover a pornografia nos museus portugueses, ninguem se choca com...aleluia!!! ...
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De António Maria a 19.11.2018 às 19:45

Mainada. Falou.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 14:07

"Não há na tourada uma violência gratuita que merece reflexão para lá disso?"

Todo o seu texto aponta no sentido contrário.
Mas é só uma questão de coerência.
De resto, a questão é colocada de forma bastante equilibrada e civilizada.

Pessoalmente, discordo da oportunidade.
Enquanto houver gente que vive e morre como aquela família em Fermentões-Sabrosa, estou convencido de que as prioridades são outras.

João de Brito
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De Anónimo a 19.11.2018 às 17:34

"Pessoalmente, discordo da oportunidade.
Enquanto houver gente que vive e morre como aquela família em Fermentões-Sabrosa, estou convencido de que as prioridades são outras."

Isto aplica-se (quase diria) de forma universal. Quantas vezes não temos assuntos quentes (de preferencia fracturantes) em público, e por detrás outros que passam no espaço da chuva.

Parece uma especie de "cativações" da opinião pública.

Na mesma altura em que criminalizamos os maus tratos a animais, chumbamos a proposta de criminalização de abandono de idosos.
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De lucklucky a 19.11.2018 às 15:58

As touradas são de qualquer tempo, podem é não ser do seu lugar : a cidade.

As touradas são do campo, da planície, da relação com animais, da criação, da caça.
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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 17:16

Tem razão. Ama-se o bicho. Cada facada é como a expressão de um amor de junho.

A tourada já não é do campo. É agora da cidade. Do campo é a matança do porco, algo completamente distinto
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De jo a 19.11.2018 às 19:07

Sítios onde há praças de touros de 1ª categoria (tirei da Wikipédia):
Lisboa, Vila Franca, Santarém, Montijo, Setúbal, Moita do Ribatejo, Almeirim, e Coruche.
Tirando as duas últimas é um campo cheio de prédios
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De Luís Lavoura a 20.11.2018 às 10:36

Como se vê, todas essas praças de touros se situam numa região minúscula do país - a península de Setúbal e um pouco para o interior.

Portanto, a tourada não é verdadeiramente uma tradição portuguesa - é uma tradição de uma pequena parte de Portugal.
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De António Maria a 19.11.2018 às 17:39

Grande texto. Obrigado Rui Rocha.
Só não concordo consigo no último parágrafo.
E precisamente porque gostamos de tourada que ela deve continuar e são deste tempo. Se vamos por aí qualquer dia somos todos iguais e vestidos à moda da Coreia do Norte.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 19:26

E sem dentes como na Albânia. Sonho maior do BE e demais.

A arrogância e a obstinação de que as meninas do dito padecem denotam - no bem.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 18:03

Excelente texto, Rui. Com entrada directa na próxima antologia do DELITO.
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De Anonimus a 19.11.2018 às 18:54

Será que as pessoas do campo acham maus-tratos manter um cão num T0? Será vida digna de uma cobra passar a sua existência numa caixa? Se o gato não é propriedade, porque pode ser comprado e vendido?

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De Pedro Vorph a 19.11.2018 às 20:12

Será que matar um chimpanzé é homicídio?
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De Anonimus a 19.11.2018 às 22:58

O leopardo pode alegar autodefesa ou insanidade mental?

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