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De improviso em improviso

por Pedro Correia, em 11.09.20

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade.

Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

Não compreender isto é nada compreender de essencial.

 

Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.

De improviso em improviso, de disparate em disparate.


34 comentários

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De balio a 11.09.2020 às 10:39

Igualmente grave é que uma diretora-geral - um cargo administrativo, e não político - se ponha a fazer afirmações como se de uma política, a qual dá orientações políticas, fosse.
Quem toma decisões é o governo e os seus ministros, que são os responsáveis pela políica seguida. O governo e os seus ministros são quem decide se os jogos terão ou não público. A função da diretora-geral é apenas administrar as decisões tomadas pelo governo - não é ser ela mesma a apresentar e a dizer quais serão as decisões.
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 12:07

A directora geral só devia emitir opiniões de carácter técnico com base nos pareceres dos peritos.
Acontece que a senhora é mantida na frente mediática para poupar outros ao óbvio desgaste a que ela já se sujeitou com carácter irreversível.
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De balio a 11.09.2020 às 12:23

A directora geral só devia emitir opiniões de carácter técnico

Eu diria mais: a diretora geral não deveria emitir em público opiniões absolutamente nenhumas. As suas opiniões, e as opiniões dos peritos da sua direção-geral, devem ser somente comunicadas à sua superiora hierárquica - a ministra da Saúde. A diretora geral apenas deve informar o público daquilo que a sua Direção Geral está a fazer - não tem nada que transmitir ao público as suas opiniões, nem as opiniões dos seus peritos.
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 16:51

Na prática, actua como porta-voz da Autoridade Sanitária, tendo-lhe sido delegada essa tarefa pelos responsáveis políticos. O excesso de exposição pública provoca estragos - e, neste caso, são notórios.
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De Anónimo a 11.09.2020 às 10:41

Ninguém espera para ver... Está tudo mortinho por ver 22 Zéquinhas a correr aos pontapés uns aos outros e a comprarem jóias p`rás lambareiras das respectivas namoradas e lhes insuflar ainda mais os rabos nos institutos de beleza! Ou pensam em postas de corvina grelhada ou nas pernas do Reinaldo... que jornalismo...!
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 11:58

Tens ido "desconfinar" ao Elefante Branco, camarada?
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De Marques Aarão a 11.09.2020 às 11:17

Costa como sempre, a manobrar na sombra instruindo os seus sacos de pancada para serem eles a dar o peito às balas.
Quem é que consegue justificar a permanência desta senhora num alto cargo que nos devia tratar da saúde?
Justificar ninguém consegue, mas o mandante continua saltitante a pisar brasas sem se chamuscar, e a ziguezaguear por entre as próprias banhadas sem se inundar..
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De Marques Aarão a 11.09.2020 às 11:39

DA MESMA SÉRIE
"António Costa e a possibilidade de novo confinamento: Esse é um não cenário, não podemos voltar a parar."
Um individuo que bolsa uma barbaridade desta dimensão pode continuar a fazer o papel de 1º ministro?
Para a frente é que é caminho, seja qual for o número de infetados e mortos, às dezenas, centenas ou milhares.
Fartam-se de badalar que está tudo controlado, mas só se for na contabilidade da contagem do numero de vitimas a tratar ou já desaparecidas.
Ou nem isso!
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De João Campos a 11.09.2020 às 11:47

Tens toda a razão, Pedro. Nada faz sentido nestes critérios (e eu nem frequento estádios de futebol ou pratico modalidades). Tem havido protestos da parte dos clubes?

É curioso que um jogo de futebol sem público é um espectáculo triste mesmo quando o vemos pela televisão. Falta ali qualquer coisa.

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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 12:05

Não são só os estádios, João. É quase todo o desporto associativo e federado que está em paralisia, o que se reflecte sobretudo nas chamadas modalidades amadoras. Centenas de milhares de praticantes aguardam pelas iluminadas directrizes de quem já autorizou as mais diversas actividades e continua a excluir o desporto.
Sem receitas, as agremiações desportivas vão agonizar e morrer. Sobre isto, o secretário de Estado do Desporto limita-se a uma laracha de mau gosto. Confirmando que não está a fazer nada no Governo.
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De Anonimus a 11.09.2020 às 14:37

o Xuxa Rebelo, rápido a defender o Joao Feliz dos impropérios portistas, tem mais em que pensar.
O próximo vai ser ano olímpico. Normalmente as semanas que antecedem os Jogos são viçosos em propaganda ao Estado (os clubes ficam de fora das loas), com estes ao leme, estou particularmente curioso. Tenho um pressentimento que este ano, com todas as condições dadas pelo país, vamos competir taco a taco com os EUA pela supremacia.
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De João Campos a 11.09.2020 às 19:59

Convenhamos que num governo de António Costa larachas de mau gosto são currículo mais do que suficiente para chegar a secretário de estado ou a ministro...
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 20:15

Tens razão. Um desses até sonha ser primeiro-ministro. O que queria pôr a tremer os financeiros alemães.
Faltam-lhe mais duas ou três larachas como essa para enriquecer o currículo.
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De Vento a 11.09.2020 às 12:46

Tenho andado bastante hiperactivo por não deslocar-me a um estádio em Portugal. Se pudesse deslocar-me a uma destas maravilhosas catedrais dos xutos e pontapés, e aí poder encontrar-me com a Vanessa, sairia curado. Ela além de árbitra também é uma profissional da saúde. Tenho a certeza que seria duplamente benéfico para minha hiperactividade não só ver o jogo de futebol arbitrado pela Vanessa como também sair de lá com uma receita da psicóloga que ela é para vencer esta agonia que o governo e os geringonços me provocam.
O impedimento de ver jogos é uma atitude contra a saúde pública. Num momento em que as estatísticas dizem que os portugueses estão a pirar ou a ficar lelé da cuca, impedir que a malta tenha acesso aos estádios com uma árbitra-psicóloga no relvado é um verdadeiro holocausto.
https://magg.sapo.pt/atualidade/artigos/vanessa-gomes-conheca-a-primeira-mulher-portuguesa-a-arbitrar-um-jogo-de-futebol-profissional

Bora lá, cambada, ajudem a que o apito se desentupa:
https://www.youtube.com/watch?v=x0eG8XWrIO8

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De Anonimus a 11.09.2020 às 14:35

Nada como colocar técnicos a debitar discurso político. Dá credibilidade à coisa.
O Costa nisto é bom, vai lançando os seus peões; até a senhora da Agricultura, passado o confinamento após aquelas piadolas aquando da eclosão do vírus lá na China, regressou. O Rei, esse está sempre protegido.

Faltou abolir as sardinhadas. Está provado que são fontes de contágio.
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 20:12

A época da sardinha está no fim, ainda bem que só propõe isso agora. Eram capazes de a "confinar" também.
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De Anónimo a 11.09.2020 às 15:58

As tuas palas ideológicas não te dão para ver mais.

A senhora não é uma alta funcionária governamental.
Foi nomeada em 2017 pelo ministro da tutela para um cargo na administração pública, como outros. A CRESAP (Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública), já ouviste falar? Tenho até a ideia que foi criada no tempo do teu guru...
Despacho nº 11460/2017.
Não precisas de agradecer

As melhoras

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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 16:47

Não é alta funcionária? Tens razão, ela até é pequenina.
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De Anónimo a 11.09.2020 às 20:13

Quero presumir que sabes isto - não é uma alta funcionária GOVERNAMENTAL.
É uma alta funcionária da administração pública, transversal aos governos.

Concordo contigo com a falta de jeito da senhora nas conferências de imprensa, mas convinha que fosses rigoroso

Cumprimentos

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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 20:19

Não ponho em causa o currículo nem a preparação técnica da senhora.
Questiono a sua aptidão para assumir a função diária de porta-voz do Governo para a área da Saúde. Que é, na prática, uma função política.

É nesse teste decisivo que a avalio. E - lamento concluir - a avaliação não é positiva. Esta mais recente argolada, de englobar discotecas e recintos desportivos no mesmo pacote de interdições, não tem pés nem cabeça.
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De Elvimonte a 11.09.2020 às 15:59

De relance, face ao seguidismo evidente da nossa DGS - um acrónimo de conotação depreciativa que apenas aqueles com memória dos tempos da "outra senhora" entenderão - parece-me que o lugar é exercido em part-time, porque há que cuidar dos netos, limitando-se o horário de trabalho do séquito aos sábados e domingos, das 12 às 13 h, com uma hora para almoço e prolongando-se o fim-de-semana de segunda a sexta. Tal é a quantidade de tiros em ambos os pés que me custa a crer que se consigam manter em posição vertical.

Nunca terá havido, da parte da DGS, qualquer sintoma de liderança, de iniciativa e de pensamento crítico, tal como alguém - não é preciso adivinhar porque as declarações estão para aí - terá afirmado que usava máscara porque os netos lhe tinham falado no exemplo da China, tendo posteriormente sido fotografado estendido em toalha de praia a usar máscara, num espaço aberto, bem ventilado e sem ninguém em redor.

É claro que esta gente, para além da notória falta de bom senso, não lê artigos científicos, que a corte que os acompanha também não, ficando todos porventura relegados para a pior categoria de ignorantes: os que não sabem e nem sequer sabem que não sabem.

E nisto, sendo a política a arte de mentir com verosimilhança, muita da culpa recairá sobre as normas que regem os sistemas democráticos, elaboradas pelos políticos, os tais especialistas na arte, ao não obrigarem à realização de testes de inteligência a todos os candidatos a cargos políticos e de nomeação política.


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De Bruxa Mimi a 11.09.2020 às 17:59

Eu não frequento estádios de futebol e não vou a discotecas, mas reconheço que uma coisa não tem nada a ver com a outra! É muito mais fácil organizar lugares num estádio, devidamente separados, do que "controlar" clientes numa discoteca, onde muitos, para além de dançar, bebem mais do que a conta (dizem)...
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De Pedro Correia a 11.09.2020 às 20:10

A opinião que aqui deixa representa a voz do bom senso. Cumprimento-a por isso.
Às vezes, infelizmente, o bom senso é o atributo mais difícil de encontrar na nossa vida pública.

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