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Darkness at noon

por Pedro Correia, em 23.11.17

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«O Zimbábue é meu!»

Robert Mugabe, Dezembro de 2008

 

No dia 21 de Fevereiro de 2009, quando celebrou 85 anos, Robert Mugabe mandou organizar um faustoso repasto que incluiu tudo do bom e do melhor. Indiferente à chocante miséria que grassava no seu país, o Zimbábue, outrora conhecido por celeiro de África.

O festim incluiu nada menos de duas mil garrafas de champanhe (Möet & Chandon e Bollinger de 1961 no topo das preferências), oito mil lagostas, cem quilos de camarão, quatro mil doses de caviar, 16 mil ovos, 500 quilos de queijo e oito mil caixas de bombons Ferrero Rocher, entre outros acepipes.

Fora das paredes palacianas, milhares de zimbabuanos viam-se forçados a arrancar ervas daninhas do mato para matar a fome. A ex-Rodésia do Sul, como era conhecida durante o domínio colonial britânico, batera no fundo: 94% de desempregados, sete milhões de habitantes dependentes da caridade internacional, mais de 70 mil casos de cólera confirmados pela Organização Mundial de Saúde devido à falta de elementares condições de higiene, a maior inflação do planeta, o colapso generalizado da sociedade civil.

 

Aquela celebração digna da corte absolutista de Versalhes foi um dos inumeráveis actos obscenos praticados pelo poder político num país varrido por todo o género de indignidades. Perante o silêncio conivente de muitos, em África e na Europa, que ao longo destes anos foram aludindo a Mugabe como um "combatente da liberdade" sem corarem de vergonha por abastardarem uma das mais nobres palavras associadas à espécie humana.

Em Dezembro de 2007, Lisboa recebeu Mugabe com todas as honras, na inútil cimeira entre a União Europeia e África. Dar-lhe face nessa altura equivaleria a fazer correr sangue no Zimbábue, dissemos então vários de nós na blogosfera. Infelizmente, foi isso que sucedeu. Para vergonha nossa e dos nossos civilizadíssimos parceiros comunitários.

 

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Quem analisar com atenção o percurso político de Mugabe – um homem de formação católica que se tornou marxista quando estudava Direito numa universidade sul-africana – verifica que os primeiros sinais do déspota em que se tornou eram já detectáveis no início da década de 80, quando ainda merecia os mais rasgados elogios da imprensa internacional, pela forma brutal como esmagou aquele que era então o seu principal adversário político: Joshua Nkomo, líder da União Popular Africana do Zimbábue (Zapu).

Nkomo foi, a par de Mugabe, um dos principais opositores a Ian Smith, que durante década e meia tentara impor ali um regime dominado pela minoria branca, nunca reconhecido pela comunidade internacional. Após a independência, em 1980, integrou o Governo de unidade nacional como ministro do Interior. Menos de dois anos depois, Mugabe acusou-o de conspiração contra o Estado. Nkomo foi preso e pelo menos 20 mil dos seus apoiantes no Leste do país acabaram assassinados. A Zapu foi dissolvida e a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu), de Mugabe, tornou-se o partido único.

 

No ano 2000, a máscara caiu de vez. Mugabe lançou uma “reforma agrária – a ocupação pura e simples das propriedades agrícolas dos brancos. Suprimiu toda a oposição. Aboliu o poder judicial independente. Meteu na cadeia opositores, sindicalistas, estudantes e activistas de direitos humanos. Amordaçou a imprensa. E fez mergulhar o país no caos económico: em Outubro de 2008, segundo o Banco Central do Zimbábue, a inflação atingiu 231.000.000%. Cerca de um terço da população zimbabuana exilou-se em Moçambique ou na África do Sul para fugir à fome.

«Neste momento, as pessoas morrem de fome neste país que dava de comer a toda a região, onde havia cultivo de todo o género», alertava em 2007 uma ilustre ex-residente no Zimbábue: a escritora Doris Lessing, nesse ano galardoada com o Nobel da Literatura. Segundo a Unicef, um quarto das crianças do Zimbábue são órfãs: a esperança de vida é a menor à escala mundial - 37 anos para os homens, 34 anos para as mulheres.

 

O antigo estadista modelar, invocado outrora como exemplo no continente, tornou-se apenas mais um nome a juntar à longa lista de tiranos que vêm destruindo o sonho de uma África próspera, justa e livre. Nada diferente do que fizeram um Bokassa, um Mobutu ou um Idi Amin numa parcela do globo onde a esperança de progresso parece uma miragem cada vez mais longínqua.

Apesar da cruel evidência dos factos, o agora deposto Robert Mugabe ainda era visto em largos sectores como um “herói da libertação”. Este paternalismo benévolo de certas elites ocidentais, cheias de complexos de culpa pelo “colonialismo”, contribui para oprimir África, o único continente onde é generalizada a condescendência perante as violações mais generalizadas e grosseiras dos direitos humanos.

Se hoje assistimos com júbilo à queda do tirano que chegou a proclamar "o Zimbábue é meu", não podemos baixar a guarda perante quem lhe sucede. As últimas seis décadas de história ensinam-nos que um déspota africano, em regra, é substituído por outro déspota. Já sabemos o suficiente para deixarmos de confundir democratas com ditadores.

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13 comentários

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De Luís Lavoura a 23.11.2017 às 11:14

O festim que Mugabe ofereceu em 2009 pode talvez ser comparado ao festim que o xá do Irão ofereceu, alguns anos antes de cair, em celebração (salvo erro) dos dois mil anos do império persa.
Nessa altura o xá era um ditador muito admirado pela "comunidade internacional" dos países do "Ocidente", os quais ficaram todos muito tristes quando esse ditador foi derrubado em 1979.
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De Pedro Correia a 23.11.2017 às 22:42

Havia o Hitler também. Não esqueça o Hitler.
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De Maria Dulce Fernandes a 23.11.2017 às 12:01

Sei apenas do que li na imprensa e do que o meu padrinho me contou dos amigos da Rodésia, que era ali ao lado de Moçambique, e dos que tiveram a sorte de fugir.
Trabalharam uma vida inteira e tudo o que ganharam com o seu trabalho foi mesmo a própria vida. Diz ele que o que os vivos contam dos mortos é de arrepiar e dal modo, que houve momentos em que pensaram que a única saída da Rodésia era "dentro de 4 tábuas", eufemismo para vala comum.
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De Luís Lavoura a 23.11.2017 às 14:21

Numa vala comum não se tem quatro tábuas à volta. Tem-se outros corpos em contacto direto.
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De Pedro Correia a 23.11.2017 às 22:37

Estamos sempre a aprender.
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De Luís Lavoura a 23.11.2017 às 15:48

Há que ter em conta que Mugabe sozinho não deu cabo do Zimbabue, nem o podia ter feito. Quem deu cabo do Zimbabue foi Mugabe com o fiel acompanhamento e aceitação de muitos zimbabueanos. Esses muitos zimbabueanos não aceitarão pacificamente, porventura, uma inversão das políticas de Mugabe.
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De Anónimo a 23.11.2017 às 16:39

Quais políticas?
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De MM a 23.11.2017 às 19:48

Em Africa será possível uma democracia orientada daqui a uns 100-200 anos. A estrutura e organização das sociedades africanas dificilmente aceita ainda o conceito. Mesmo os jovens que estudam fora têm dificuldade em contrariar os mais velhos. Haverá um pai/chefe/soba/mais velho rodeado de conselheiros que mandam e desmandam e que são os detentores do território e/ou do que se produz nele. Por vezes os mais velhos não são tão egoístas e apostam na diplomacia, no entendimento com os vizinhos, evitam a submissão a interesses exteriores prejudiciais e o povo não sofre tanto. Mas menor instabilidade política e uma verdadeira democracia são cenários pouco prováveis nesse continente nos próximos séculos. Com optimismo aos poucos lá chegaremos.
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De Pedro Correia a 23.11.2017 às 22:41

Entretanto, até lá, vão morrendo pessoas com doenças erradicadas em todo o mundo, a esperança de vida diminui, a corrupção aumenta, a miséria grassa. África é, de momento, e salvo raras excepções, um continente perdido.
Basta ver o mais recente país que proclamou a "independência", há apenas seis anos: o Sudão do Sul, hoje mergulhado numa carnificina brutal que tem depauperado o território e afugentado as populações para países vizinhos. A guerra civil presentemente ali em curso já tem característica de genocídio.
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De Luís Lavoura a 24.11.2017 às 12:02

vão morrendo pessoas com doenças erradicadas em todo o mundo, a esperança de vida diminui, a corrupção aumenta, a miséria grassa. África é, de momento, e salvo raras excepções, um continente perdido.

Não seja tão negativo.

(1) As doenças em África estão quase todas em acentuada recessão. A malária está a matar metade ou um terço daquilo que matava há uma ou duas décadas. As outras doenças idem.

(2) A economia africana está a crescer bastante mais que a população. As taxas de pobreza estão em decréscimo em quase todos os países africanos.

(3) África é hoje muito menos mal governada do que já foi.

(4) Muitos mais africanos estão a emigrar, o que é sinal de uma riqueza crescente. Há uma coincidência muito grande entre a taxa de emigração dos países e o seu nível de crescimento económico.
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De Anónimo a 24.11.2017 às 00:11

Logo agora que estava criado o homem-novo.Qualquer dia fazem o mesmo na Venezuela.O trabalho que tiveram Maduro e Mugabe.Já viu as grandes conquistas sociais? Ou vocemecê acha que o povo zimbabuano vai ficar assim sem a quantidade de notas que transportava para as comprinhas? Conhece algum país com tanta notinha?
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De Anónimo a 24.11.2017 às 18:05

Um criminoso igual a Hitler, Estaline ou Mao.

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