Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Danos colaterais

por Cristina Torrão, em 02.04.20

Todos sabemos que esta pandemia, como todas as catástrofes, é pródiga em danos colaterais. Não os causa só na economia, como na psique de cada um, separando famílias, proibindo os contactos sociais e constituindo um verdadeiro desafio à paciência dos agregados familiares que se vêem confinados às suas quatro paredes (os efeitos nas crianças e nos jovens podem ser ainda mais marcantes do que nos adultos).

Zangas e discussões estão programadas, mesmo em famílias que se dão bem. Infelizmente, sabemos que a vida familiar está longe de ser agradável para todos, mesmo em tempos de normalidade. Não faltam casos de violência, cuja esmagadora maioria das vítimas são mulheres e crianças. Se a vida destas costuma já ser um inferno, piora, nestes tempos, não só por uma existência mais escondida, como também pela falta de momentos em que podem espairecer: na escola, no trabalho, ou mesmo em casa, enquanto o/a agressor/a está ausente. É difícil de calcular o martírio por que estão a passar muitas destas vítimas, pedofilia incluída (a maior parte dos abusos sexuais a crianças ocorre na família). E não esqueçamos a negligência sofrida por muitas crianças, também uma forma de violência. Quando os pais não encontram paciência para, ou se acham incapazes de, cuidar dos filhos (e não estou a falar apenas de lhes dar atenção, mas de cumprir as regras básicas de higiene, ou de alimentação, por exemplo), a mensagem (implícita) que lhes dão é: “tu não mereces que se trate de ti”, ou “tu não vales o suficiente para que alguém se preocupe contigo”. É isto que a criança interioriza e não é preciso ser psicólogo para se calcular que deixa mazelas para toda a vida.

Como se tudo isto não bastasse, também os serviços sociais se vêem obrigados a cancelar muito dos seus procedimentos, ou seja, a ajuda, quando existe, diminui, ou desaparece mesmo. Foi isso que constatei numa entrevista ao Director da CARITAS no bispado alemão de Hildesheim, o psicólogo John Coughlan, que pode bem servir de referência, já que calculo que a situação seja semelhante em todo o mundo.

De facto, a ajuda e o apoio psicológico, que a CARITAS presta a crianças, jovens e famílias, estão muito limitados. Se há casos em que contactos telefónicos, ou por email, ou por um determinado serviço de Messenger podem remediar, noutros, a situação é mais complicada. Havendo crianças em perigo, por exemplo, seja por violência, seja por negligência, as visitas ao domicílio são essenciais para que os assistentes sociais e psicólogos se inteirem da situação e possam actuar. Também o contacto telefónico pode impedir que a pessoa que pede ajuda se exprima à vontade, seja por medo de ser escutada por alguém que esteja em casa, seja por ter dificuldade em falar dos seus problemas. Num contacto pessoal, os profissionais estão mais em condições de decifrar sentimentos silenciados e de interpretar gestos e expressão corporal que possam revelar algo que a vítima esteja a esconder.

Não só a mortandade causada pelo vírus é assustadora. Todos nós tememos as consequências destes tempos estranhos. A bem da nossa saúde mental, é imprescindível manter a esperança e viver o mais normal possível.

John Coughlan deixa sugestões. O mais importante é criar uma estrutura no dia-a-dia, principalmente, com crianças, pois a disciplina ajuda a dar sentido à vida. Os pais não devem descurar as horas certas de se levantarem ou de irem para a cama. Devem também ser estabelecidas horas, ou alturas do dia, para tarefas como trabalhos escolares. As horas das refeições devem igualmente ser cumpridas e, melhor ainda, introduzir as crianças na sua preparação (sem grande severidade e com paciência para erros e desatenções). Tudo o que se faz em conjunto reforça os laços e ajuda a superar crises. Deve, no entanto, haver igualmente uma altura do dia que possibilite a cada um, se o desejar, recolher-se e ocupar-se unicamente dos seus próprios interesses.

Crise Corona.jpeg

Espero que o Pedro Correia me perdoe por lhe ter "roubado" esta fotografia. É que ainda não vi mais nenhuma que simbolize melhor a esperança num mundo agradável pós-Covid19.


20 comentários

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 02.04.2020 às 14:01

Fico muito satisfeito por ter reproduzido essa imagem aqui, Cristina. Também eu não vi ainda, até agora, um símbolo tão feliz dessa esperança que não esmorece.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.04.2020 às 19:04

Um grande abraço, Pedro.

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 02.04.2020 às 15:07

o Whatsapp ou o videotelefone proporcionado por redes sociais não são considerados suficientemente seguros para trocar mensagens sigilosas

!!!

Eu julgava que o Whatsapp fosse todo encriptado e que somente os serviços secretos americanos (e os seus parceiros) fossem capazes de o descodificar!

De facto, pensava que o Whatsapp fosse muito mais seguro do que chamadas telefónicas, que facilmente podem ser escutadas.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.04.2020 às 19:11

Não sei, não entendo muito dessas coisas. A entrevista fala do "Messenger SIGNAL". Depreendo que seja um Messenger utilizado pela instituição. Lendo melhor, diz que é um meio absolutamente seguro de comunicar, mas realmente não diz que seja melhor do que outros que já existam. Talvez seja exclusivo deles e, por isso, o considerem mais seguro.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.04.2020 às 19:19

Olhe, modifiquei o texto do post. Realmente era um bocado abusivo da minha parte dizer que determinados meios de contacto não seriam seguros, sem entender do assunto. Fiz a tradução de alguns passos da entrevista à pressa, mas agora, lendo esse passo mais atentamente, constato que não fui rigorosa. Obrigada pela chamada de atenção. E continue a confiar no Whatsapp!
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 03.04.2020 às 11:21

Eu, confiar no Whatsapp, Cristina? Eu nem sequer tenho smartphone, quanto mais apps!
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 02.04.2020 às 17:02

Excelente reflexão, Cristina. Alles gut
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.04.2020 às 19:12

Obrigada, para si também. Cuide bem de si.
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 02.04.2020 às 19:44

Igualmente, Cristina. Tudo de bom para vós
Sem imagem de perfil

De o cunhado do acutilante a 02.04.2020 às 19:29

É de facto uma excelente reflexão, - desculpe o plágio, Vorph, - nada que eu não tivesse pensado desde o primeiro momento que a hipótese de recolhimento foi aventada, e que se confirma pelo que já me é dado ver por alguma vizinhança.
Gritos e portas a bater e saídas pela porta do prédio de moradores em fúria
Tudo homens. Elas, se discutem, não o mostram. Nervinhos é com os valentões.
Sempre assim foi e portanto não há motivos para alteração de comportamento
Quanto às crianças, se já antes era o que se sabia, que Deus as ajude.
Muita saúde para si e para todos a quem estime.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 02.04.2020 às 20:08

Obrigada, igualmente.
Sem imagem de perfil

De ChakraIndigo a 02.04.2020 às 20:07

O assunto da violência e dos abusos é incomodativa porque dói verificar a intolerância e a falta de empatia de uma franja significativa da sociedade.

E a violência contra os idosos é em si mesmo o corolário do desrespeito pela vida humana.

Esperemos uma nova aurora.
Imagem de perfil

De José Couto a 02.04.2020 às 20:47

Excelente texto de reflexão e de partilha de importantes conhecimentos.
Obrigado.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 03.04.2020 às 12:34

Eu é que agradeço.
Tudo de bom para si.
Sem imagem de perfil

De João Lopes a 03.04.2020 às 15:13

"Não só a mortandade causada pelo vírus é assustadora."
A mortandade causada por este vírus é assim tão assustadora? É que pelos números está a anos-luz de distância da mortandade causada, por exemplo, pelo vírus da gripe comum... E tenho pena que existam poucas pessoas a questionar a fundo os números por forma a relativizar isto do covid.
Confesso-lhe que me preocupam muito mais os danos colaterais. Quero ver se alguém tem coragem de confrontar os decisores políticos com a desgraça social e económica que aí vem.
Imagem de perfil

De Cristina Torrão a 03.04.2020 às 18:17

Bem, parece que a procissão ainda só vai no adro.

E não me lembro de, nos outros anos, com todas as doenças que existem, os hospitais colapsarem, como na Itália e na Espanha, ou estarem no limite, como em Portugal e na Alemanha.
Sem imagem de perfil

De João Lopes a 03.04.2020 às 19:44

Os nossos hospitais estão no limite como sempre estão. Costumo ir com o meu pai, com regularidade, ao hospital de VFX, pois ele é doente oncológico, e o pandemónio está sempre instalado. Com ou sem covid. E convenhamos que os números, se estão certos (ou por outra, se as "autoridades" não nos estão a enganar) estão longe de ser uma catástrofe como foi, por exemplo, a gripe espanhola. É por isso que eu não entendo a histeria que foi criada à volta disto, tal como não entendo a forma como a comunicação social tem lidado com isto. Mas se calhar sou eu que sou lerdo. Não excluo essa hipótese.
Contudo, todos vamos pagar isto bem caro. Disso tenho a certeza.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 03.04.2020 às 18:07

Sempre em GRANDE o nosso general Eanes

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D