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Da Gravidade

por Bandeira, em 23.01.17

Um amigo de infância – crescemos ambos em Lisboa, na parte desfavorecida da Avenida de Roma – faz-me notar que a alopecia nos está a invadir o outrora hirsuto couro cabeludo (Alopecia era a deusa liechtensteinense do cheque careca, sincretizada pelos romanos aquando da conquista do principado por três legionários etilizados que o confundiram com um Burguer King; sabemos por Salústio que terá revelado a Júlio César, num sonho, um truque para disfarçar as entradas, a saber, pentear as melenas na direcção da testa.)

Não apenas carecas, old chap, como diziam na parte favorecida da avenida, não apenas carecas, mas irreparavelmente deselegantes. “Fala por ti”, dirás. Não preciso, outros o fazem bem melhor do que eu e sem precisar de palavras. Ontem, em passeio dominical pelas faldas do Tejo, topei com uma roulotte de venda de comes e bebes. Era fim de tarde, havia alguns bolos mas de salgados sobrava apenas uma empada, que solicitei me fosse entregue para que a devorasse. A menina da roulotte nem se mexeu. Manteve os cotovelos apoiados no balcão, as mãos nas axilas que adivinhei quentinhas, e disse melancólica, “Desculpe, mas já só tenho uma de legumes”.

Permaneci alguns segundos em completa imobilidade, usando uma técnica Zazen que me permite intuir a natureza da Existência ou, em alternativa, não cair redondo no chão. Então disse, a voz embargada pelo choque: «Espere. Deixe-me ver se percebi. A menina olhou para mim e pensou, “Eis aqui um carnívoro de quase cem quilos; um homem com uma percentagem de DNA neandertal superior aos comuns 3 ou 4% e que, em podendo, se alimentaria exclusivamente de carne crua nas suas cinco ou seis refeições diárias; alguém para quem a ideia de gourmet consiste numa salada de coiratos, pé de porco e caracoletas, tudo regado com muita cerveja. O aparelho gástrico deste cavernícola é incapaz de digerir uma empada de vegetais.” Foi isso? Diga lá. Foi?».

Ela riu-se muito, decerto do nervoso, deitou um olhar carente de solidariedade para a Judas que me acompanhava (e que também se ria a bandeiras despregadas), negou que eu fosse um cavernícola, pelo menos não um dos mais hirsutos (lá está, alopecia), e com um gesto receoso, como quem dá um amendoim ao babuíno que lhe estende a mão traiçoeira, entregou-me a empada de legumes. Antes, porém, ainda hesitou – também isso eu percebi – e perguntou-se a si mesma se eu iria requerer um guardanapo.


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