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Da falta de vergonha

por Pedro Correia, em 12.11.19

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Cartoon de Nieto, no ABC

 

Queixamo-nos, e com razão, do excessivo número de organismos do Estado, pagos pelos contribuintes. Já foi muito pior. Houve um tempo em que a banca era toda pública, a actividade seguradora estava em exclusivo no perímetro do Estado, transportadoras ferroviárias privadas como a Fertagus eram proibidas por lei e a Constituição interditava as televisões de capitais privados, instituindo a RTP como monopólio do sector.

Marcas de um passado que se prolongou demasiado tempo: as gerações mais jovens questionam hoje, e com razão, como é que pudemos tolerar até ao final da década de 80 este cenário tão distante dos padrões europeus.

 

Mas há sempre quem esteja pior que nós. E não precisamos de ir para muito longe. Em Espanha existe ainda hoje um instituto público só para fazer sondagens - algo tão anacrónico que até deve surpreender os mais estatistas deste lado da fronteira. É o CIS - Centro de Investigações Sociológicas. Funciona na dependência do Ministério da Presidência e tem como missão o «estudo científico da sociedade espanhola», seja lá o que isso for.

Apesar das generosas verbas públicas de que dispõe, o CIS falha em toda a linha nesta missão. Como ficou bem patente na mega-sondagem eleitoral que divulgou a 30 de Outubro - escassos onze dias antes das legislativas de domingo passado. Este inquérito supostamente científico atribuía uma folgada vitória ao PSOE, com 32,2% dos votos e até 150 deputados. Com o PP a situar-se nos 18% (entre 74 e 81 lugares no parlamento), o Podemos a ficar com 14,6% (de 37 a 45), o Cidadãos a conseguir 10,6% (de 27 a 35) e o Vox a quedar-se nos 7,9% (de 14 a 21).

 

Os resultados, como sabemos, foram totalmente diferentes. O CIS pecou por excesso (prevendo mais 4,2% e mais 30 deputados para o PSOE; mais 1,8% e mais dez deputados para o Podemos; mais 3,8% e mais 25 deputados para o Cidadãos) e por defeito (prevendo menos 2,8% e menos 14 deputados para o PP; menos 7,2% e menos 32 deputados para o Vox).

Daria vontade de rir se não fosse um tema sério. Por custar tão caro aos contribuintes espanhóis e por os induzir em tão grosseiros erros a escassos dias do voto.

 

No fundo nada disto admira, até porque o presidente do CIS, José Félix Tezanos, é militante socialista.

Apetece concluir: a falta de vergonha, no país vizinho, consegue ser ainda maior do que por cá.


12 comentários

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De Luís Lavoura a 12.11.2019 às 11:20

Em Espanha, além do CIS, não há também empresas privadas que se dediquem a fazer sondagens? E, mesmo que não as haja, não é perfeitamente legal, no quadro da União Europeia, uma qualquer empresa privada estrangeira fazer sondagens em Espanha?
Admira-me muito que, produzindo as sondagens do CIS tão grandes erros, não haja outras sondagens, de empresas privadas, que corrijam esses erros.
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De Pedro Correia a 12.11.2019 às 13:12

Quem é que lhe disse que não havia outras sondagens?
Claro que houve outras sondagens, feitas por empresas privadas - como acontece em Portugal.
Todas acertaram mais do que a do organismo público. Pago pelo dinheiro dos contribuintes espanhóis.
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De Luís Lavoura a 12.11.2019 às 14:31

Quem é que lhe disse que não havia outras sondagens?

Ninguém me disse, nem eu afirmei que não houvesse. Perguntei "Em Espanha, além do CIS, não há também empresas privadas que se dediquem a fazer sondagens?". Uma pergunta não é uma afirmação.
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De Anónimo a 12.11.2019 às 12:31

Os erros têm sido constantes em eleições anteriores?
O CIS foi sempre dirigido por um socialista?
Em eleições anteriores foi dirigido por um não socialista e apresentou sondagens mais credíveis?
Um CIS não pago pelos contribuintes faria/faz sondagens mais credíveis?
Quem pagaria a um CIS privado pela prestação de serviço de fazer sondagens?
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De Pedro Correia a 12.11.2019 às 13:11

Que raio de perguntas.

1. Típico desconversar. Falo de um caso concreto, agora, e interrogam-me sobre o passado. Quero lá saber do passado. Interessa-me o que ocorre agora.

2. Outra vez a desconversa. O que importa é agora: com um governo PS, um centro de sondagem oficial, dirigido por um militante do PS e que divulga uma mega-sondagem a 11 dias das eleições dando uma projecção de voto ao PS muito acima do que realmente viria a ocorrer nas urnas. Pura vigarice política com máscara pseudo-científica.

3. Todas as outras sondagens apuraram números muito mais aproximados com o resultado do escrutínio de domingo.

4. A pergunta não faz qualquer sentido. O que se deve questionar é por que raio o Governo há-de ter uma empresa pública de sondagens, dirigida por um militante do partido do Governo e com mais de cem funcionários, paga com o dinheiro dos contribuintes para vigarizar a opinião pública.
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De Luís Lavoura a 12.11.2019 às 14:34

por que raio o Governo há-de ter uma empresa pública de sondagens

Essa empresa provavelmente não fará somente sondagens políticas.

É útil, para múltiplos ramos da administração pública, fazer diversos tipos de sondagens sobre os hábitos de vida da população. Deve ser a isso que essa empresa espanhola essencialmente se destina. E é útil que, para esse fim, o Estado disponha dos seus próprios meios e, sobretudo, da sua própria capacidade técnica.
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De Justiniano a 13.11.2019 às 10:26

E porque não, também, caro Lavoura, uma rede de padarias, para que superiormente o Estado possa gerir e assegurar a qualidade e quantidade de pão consumido em Portugal. E porque não uma empresa pública de obras públicas, será útil que, para esse fim, o Estado disponha dos seus próprios meios e, sobretudo, da sua própria capacidade técnica. E....
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De Luís Lavoura a 13.11.2019 às 11:34

uma empresa pública de obras públicas seria de facto bastante útil. Li no Expresso do último fim de semana que o Estado está a ter muita dificuldade em construir o caminho-de-ferro entre a Covilhã e a Guarda precisamente por não dispôr de capacidade técnica instalada (engenheiros civis, projetistas, etc) para tal. Essa capacidade existiu no passado, mas foi desmantelada, e agora o Estado está completamente dependente da contratação ad hoc de empresas privadas para tudo.
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De Justiniano a 13.11.2019 às 15:15

Contratação ad hoc de empresas privadas para tudo, que sacrilégio, meu Deus!!
Pasta de dentes do Estado, camas do Estado, sapatos do Estado, meias, cuecas, toalhas, colchas, pentes, cabeleiras e tudo e mais, do Estado, sempre, claro!!

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De Anónimo a 12.11.2019 às 13:45

Muito gostam alguns de desconversar, parecem os galambinos a debitar o que é bom senso, no meu entender:
Pesar os pró e contras da exploração do litio, e não embarcando na fé socialista que pode acabar "com os burros na água"...

A.Vieira
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De Pedro Correia a 12.11.2019 às 15:42

Desconversar é com o leitor Lavoura. Deve ser falta de lítio.
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De Justiniano a 13.11.2019 às 10:20

Recordo-me do tempo em que o Cavaco, aquando da concessão de licenças de televisão a canais privados, tinha a oposição do PCP e de alguns intelectuais publicistas, de turno, que temiam pela decadência do padrão do espaço publico. Quase trinta anos depois, concedo! Tinham razão, o padrão do espaço de televisão nunca esteve tão medíocre. É ver noite após noite um alarve regurgitar da mais descabida e profunda ignorância!! E não nos ficamos por ter de ouvir a mãresa da Ana Gomes, num apogeu de histérica imbecilidade!! Não fora o jornalismo desportivo e nem se podia abrir a tal janela para lado nenhum!!
Intrigante!! Questiono-me se estes publicistas se ouvem uns aos outros e se, de algum modo, se enternecem mutuamente!!

Em Portugal uma decadência silente, com meiguices infantis que apascentam os virtuosos num sono profundo!! Em Espanha a degeneração demencial em modo histriónico dramático, como sempre!

Em Portugal é tido por moderado, e virtuoso, o PR pronunciar-se a benefício, por clemência e compaixão, de uma delinquente que abandonou um recém nascido num depósito de lixo e que aguarda a pronúncia substantiva por um Tribunal. O Tribunal já leva o recado dado! (O mesmo mui moderado e virtuoso PR havia já dito a um outro Tribunal que não seria possível desalojar os ocupantes dos terrenos da Cova da Moura, reclamados há décadas pelo seu proprietário!). É a moderação que nos calha!

Em Espanha é tido por moderado e virtuoso um PM com sanha de profanador que desenterra à guisa de aleivoso e enterra onde bem lhe aprouver!!
Com moderados deste calibre é difícil ser-se radical!!

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