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Da dignidade do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 22.02.15

Há uma coisa que há muito se perdeu em Portugal que é o sentido da dignidade do Estado. Mesmo antes do memorando, quando Sócrates foi chamado a despacho a Berlim por Angela Merkel devido à subida dos juros da dívida portuguesa, fui de opinião que um primeiro-ministro de Portugal não se deveria sujeitar a esse tipo de tratamento. E muito menos me pareceu aceitável que quando Sócrates foi derrubado — a meu ver já tarde porque Passos Coelho insistia obstinadamente em mantê-lo no cargo — a chanceler alemã tivesse o descaramento de ir criticar a decisão do parlamento português no parlamento alemão. Estou por isso muito à vontade para achar inaceitável que, entre duas reuniões do Eurogrupo, a Ministra das Finanças vá prestar vassalagem a Berlim, aceitando que o país seja exibido carinhosamente por Schäuble como exemplo a seguir. O governo pode naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia. Mas já não me parece que o Ministro das Finanças de um Estado soberano deva contribuir para uma clara operação de spin do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.

 

Portugal segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, que em caso algum deveria estar à frente de um governo europeu. Se o está, é precisamente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda nos submetemos o suficiente. E nesse aspecto, se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior. As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.


1 comentário

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De Alexandre Carvalho da Silveira a 22.02.2015 às 16:32

A conversa das humilhações e do orgulho já cansa. Faz lembrar os tempos do ultimato. Quem tem de pedir dinheiro emprestado para manter os niveis de vida que ambiciona mas não pode pagar, tem de se sujeitar às regras de quem lhe empresta o dinheiro. Seja alemão, chinês ou visigodo.
Em Portugal assistimos ao triste espectáculo de ver a toda a hora nas tvs e nos media em geral gente que vive muito bem por via da divida que o estado tem de fazer para lhes sustentar as prebendas, sejam vencimentos sejam reformas, a falar de orgulho ferido e clamar contra a pretensa submissão do governo aos alemães.
Desde 1986 a Europa meteu em Portugal a fundo perdido mais de 100 mil milhões de euros; desse dinheiro, mais de metade veio da Alemanha, que por outro lado é o maior investidor estrangeiro em Portugal, e não é para produzir lambazes, são tudo empresas que criam riqueza e empregos altamente especializados e bem remunerados.
Não chega já de cuspir no prato da sopa?

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