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Da contracultura ao mainstream

por Alexandre Guerra, em 12.06.19

Ainda a noite eleitoral das europeias não tinha terminado e, um pouco por toda a Europa, os vários staffs dos partidos percebiam, à luz dos resultados que começavam a surgir, que os temas da economia ou da migração não tinham sido os únicos vectores mobilizadores do eleitorado. De um momento para outro, como se de uma revelação tratasse, a maioria dos políticos e respectivos assessores foram confrontados com uma agenda de interesses que lhes passou completamente ao lado na campanha e que “rendeu” muitos votos para alguns partidos que começaram, finalmente, a capitalizar nas urnas a aposta feita numa área até aqui de nicho. Chegara a vez do ambientalismo e das questões climáticas, associadas à sustentabilidade do planeta Terra, ocuparem um espaço vital no sistema político da Europa. Mais do que um tema de “moda”, o ambiente consolidou-se como “agenda” e mobilizador das tão cobiçadas gerações mais novas de eleitores (mas não só).

À Associated Press, Anna Kretzschmar, uma jovem berlinense de 20 anos dizia o seguinte: “A eleição europeia foi uma eleição climática.” Esta simples frase consubstanciava um movimento efectivo na Europa, movimento esse que impulsionou os partidos “verdes” a tornarem-se no quarto maior bloco do novo Parlamento Europeu, com mais de 75 assentos em Estrasburgo, o que representa um aumento substancial face a 2014. Ironicamente, para a história destas eleições ficará a subida dos “verdes” e não o tão anunciado despontar dos populismos. Basta ver o exemplo português, onde um pequeno partido de matriz mais ambientalista e ecologista conquistou entusiasticamente um eurodeputado, obtendo comunicacionalmente ganhos evidentes, ao dominar a agenda mediática e política, obrigando mesmo, na própria noite eleitoral, alguns candidatos de outros partidos a alterarem os seus discursos para “encaixarem” à última da hora o tema ambiente. E quando aqui se menciona ambientalismo, recorrendo à definição do sociólogo Manuel Castells, falamos de “todas as formas de comportamento colectivo que, tanto nos discursos como na prática, visam corrigir formas destrutivas de relacionamento entre o homem e o seu ambiente natural, contrariando a lógica estrutural e institucional predominante nos nossos dias”.

Bastaram 169 mil votos e um eurodeputado eleito para que, literalmente de um dia para outro, o sistema político em Portugal passasse a contemplar a questão ambiental nas suas prioridades. Da esquerda à direita, todos os partidos se assumiram como eufóricos defensores do combate às alterações climáticas, quando durante décadas foram esses mesmos partidos que nunca mostraram qualquer sensibilidade ou interesse na protecção do riquíssimo e vasto património natural do nosso país. Pelo contrário, nalguns casos, foram responsáveis directos pela destruição de preciosos recursos e pela criação uma política de desresponsabilização ambiental.

O tema do ambiente entrou muito tarde no sistema político português e se a prestação do PAN nas eleições legislativas de 2014 podia ser vista como uma anomalia sistémica ou um epifenómeno, as europeias de 2019 vieram confirmar a existência de uma tendência, não só tendo em conta os resultados nacionais, mas a “onda verde” que assolou a Europa.

Na Alemanha, e embora não sendo uma novidade, o Die Grüne (Verdes) consolidou-se no sistema político, tendo duplicado o seu resultado face a 2014, tornando-se no segundo partido mais votado nestas eleições, com 20,5 por cento. Também em França, o Europe Écologie-Les Verts (EELV) surpreendeu, tendo sido o terceiro partido mais votado, com quase 13,5 por cento. Em 2014, tinham tido cerca de 9 por cento. Na Holanda, o GroenLinks teve um excelente resultado, quase 11 por cento, subindo cerca de quatro pontos percentuais em relação a 2014. Na Bélgica, os dois partidos verdes, o ECOLO e o Groen, somam mais de 15 por cento de votos, quando em 2014 não chegaram aos 11 por cento. Na Irlanda, o Green Party passou os 11 por cento. Em 2014, não chegaram aos 5 por cento. Na Finlândia, o VIHR (Liga Verde) teve uma subida abismal, passando de 9,30 por cento, em 2014, para 16 por cento. E mesmo na Áustria, onde não se registou uma grande variação, o Die Grüne manteve-se nuns robustos 14 por cento.

Embora em Portugal o protagonista dessa tendência tenha ficado muito distante dos resultados alcançados por congéneres ou similares europeus, assiste-se a uma confirmação do seu carácter mainstream e o reforço da vocação de partido de sistema, um dado particularmente relevante num país do Sul da Europa. E também por esta razão, a sua prestação teve uma amplificação sobredimensionada na imprensa internacional face ao peso efectivo do seu único eurodeputado.

A questão é que este e outros partidos trazem uma novidade ao corporizarem programas políticos centrados no relacionamento do Homem com o ambiente e natureza, em detrimento da concepção tradicional, onde a economia se assumia como o tema privilegiado de formatação para o programa de qualquer partido, fosse ele de esquerda ou de direita. Era a “submissão” da política à economia, tema, aliás, já com algum tempo e amplamente debatido. Mesmo a problemática da migração tem surgido quase sempre associada às questões económicas, tais como a usurpação de postos de trabalho ou a falta de mão-de-obra nos países desenvolvidos – mais recentemente, associada também aos temas da segurança, mas nunca numa óptica de enquadramento nas sociedades de origem, para a procura de modelos que permitam o desenvolvimento sustentável nessas zonas do globo e, assim, fixarem as suas populações.

Estes partidos que agora afirmam a sua força no espaço europeu representam novas tendências de pensamento, novos hábitos sociais, novas formas de cultura. Para muitas destas pessoas, sobretudo os mais jovens, há uma “desmaterialização” (pelo menos aparente) da sociedade, na qual o princípio da “submissão” da economia ao ambiente é naturalmente aceite. Ou seja, assiste-se a uma inversão da equação das escolhas individuais e de cidadania em função do ambiente e não da economia.

Estes partidos inspiram e pretendem alterar hábitos de consumo e tendências sociais, tendo, pela primeira vez, um considerável bloco político para poder produzir ou condicionar legislação europeia nesse sentido. Muitos dirão que esse processo potenciará ingerências no campo das liberdades individuais. Talvez tenham razão, mas esta “onda verde”, ou “quiet revolution”, como lhe chamou o The Guardian, vai muito além do activismo ambiental idealista e romântico que mobilizou vários grupos e associações nos anos 60 e 70, alguns deles de cariz mais radical e fundamentalista. Há uma sofisticação no modelo de pensamento destes partidos, nos seus programas, onde o social e a economia se enquadram numa arquitectura ambientalista.

Quando olhamos para movimentos como a Greenpeace, criada em 1971, mais conhecida pelas suas espectaculares acções, mas ainda durante a década de 60, onde muitos fenómenos ambientalistas e ecologistas surgiam com pendor de contracultura, percebemos essa evolução, que tem como base movimentos sociais (alguns com origens nos finais do século XIX), que viriam mais tarde a conquistar “uma posição de destaque no cenário da aventura humana”, como referiu o sociólogo Manuel Castells no volume II da sua imensa obra A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultural. Diz o mesmo Castells, numa posição já com alguns anos, mas perfeitamente válida, que “a política verde não parece ser um tipo de movimento por si só, mas sim uma estratégia específica, isto é, a entrada no universo da política em prol do ambientalismo”. Se em tempos, os movimentos ambientalistas eram “uma espécie de celebração”, como escreveu Petra Kelly, uma das primeiras políticas alemãs ambientalistas e fundadora dos Verdes, o primeiro partido ambientalista a ganhar relevância sistémica a nível nacional e internacional, hoje, e depois de um longo caminho, podemos afirmar que a política ambiental é mais do que uma prática “tribal” ou de consciencialização. É, sobretudo, uma manifestação de poder inserida no quadro legislativo da Política da Cidade.

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