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Culpar o bombeiro pelos fogos

por Luís Naves, em 31.08.15

Num fim-de-semana entraram na Hungria quase 9 mil refugiados, mas os noticiários continuam a referir com escândalo que este país acabou de construir “um muro” para impedir estes migrantes de entrar. Que parte da história estará a ser mal contada? Em todas as imagens que vemos da construção, o “muro” é na realidade uma vedação de arame, aparentemente não tão sofisticada com a que vemos, por exemplo, em Ceuta ou em Calais, a proteger (e bem) o eurotúnel. Claro que países que não estão na linha da frente da calamidade migratória têm mais facilidade em dar a táctica e apontar defeitos nos procedimentos.

Conheço bem esta fronteira e parece-me fazer sentido a construção de uma barreira que na realidade canaliza os refugiados para locais onde a polícia pode ser reforçada e o fluxo de entradas minimamente controlado. Está aliás a ser construído um campo no ponto onde a fronteira húngaro-sérvia tem a sua passagem mais importante (podem reler este texto de Julho). Um facto parece evidente: sem a vedação, o poder está nas mãos dos traficantes, já que as pessoas passam a fronteira a corta-mato, dependendo de redes clandestinas de passadores.

O ministro francês referido na notícia fez comentários críticos em relação aos ‘países de leste‘ e colocou tudo no mesmo saco: estas sociedades sob o choque de mudanças rápidas constituem uma espécie de sub-Europa (‘eles’ não são como 'nós'), o que é uma excelente forma de lançar um debate sobre migração em larga escala envolvendo populações que chegam do Médio Oriente. E no entanto os do leste é que são os maus da fita! O governo grego durou seis meses, acho que deviam mudar todos os governos que não lhes interessem, porque isto da democracia é uma chatice inaturável e bastava-nos o directório Merkoland. E há também aqueles para quem a culpa disto tudo é da Europa, argumento extraordinário, quando são europeus que recebem 9 mil refugiados num fim-de-semana, só nesta rota, embora haja mais uns milhares em Itália e Grécia, sem contabilizar as rotas que se dividem (muitos refugiados estarão a entrar via Roménia ou Eslovénia).

Os críticos dos muros nunca explicam como é que se devia fazer: passam todos ou só alguns? Só os sírios e iraquianos ou também os do Bangladesh e do Kosovo? E ninguém menciona o pormenor crucial de ser impossível manter refugiados em campos onde estes não desejam permanecer, pois as multidões põem-se em movimento logo que conseguem os papéis provisórios (que, vergonha, segundo li numa reportagem, estão escritos em húngaro), para não mencionar a forma como os traficantes fizeram a cabeça de muitos deles, que chegam exaustos, já sem dinheiro e desconfiados de qualquer ajuda. No fundo, estamos a culpar os bombeiros pelos incêndios, mas o paradoxo do muro devia fazer pensar os comentadores: o mito afirma que o betão impede a entrada, mas eles entram na mesma em quantidades extraordinárias.

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13 comentários

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De Rider a 01.09.2015 às 03:01

O PREC , o fluxo de retornados das Províncias Ultramarinas (que não vivi) e a actual crise (2008-2015) serão consideradas verdadeiras brincadeiras de crianças quando comparadas com o que se está a desenrolar.

E as ondas de choque em breve chegarão a Portugal, os alemães até já dizem quantos refugiados cada região (o Estado Nação já morreu) da Europa será forçada a receber, já para não falar dos emigrantes (Portugueses) que terão de voltar porque perderão o sustento nos países para onde emigraram.

E depois existem uns idiotas úteis que fazem umas manifs idiotas a dizer Welcome Refugees " nem sequer parando para pensar que foram os seus líderes os causadores de todo o sofrimento e MORTES que estão a acontecer.

Já agora é perguntar ao Naves quantos refugiados vão receber os USA ?

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De Luís Naves a 01.09.2015 às 10:12

Para si, a partir de agora, é senhor Luís Naves...
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De Manuel a 01.09.2015 às 19:40

Por acaso vivi o tempo do grande fluxo de retornados das Províncias Ultramarinas e, até posso acrescentar que me deparei com muitas dificuldades para arranjar emprego porque, nessa altura, estava a frequentar a Universidade e, como para estudar precisava de trabalhar, bem respondia a propostas de emprego mas havia muitos que davam preferência aos retornados e isso, na altura, posso confessar que me fazia sentir um pouco revoltado. Nesses tempos, quem fosse apartidário e não retornado, passava um mau bocado, por acaso perdi muito, em não ser hipócrita ou aproveitador porque, havia outros jovens na minha família, a quem bastou inscreverem-se em partidos políticos para terem, imediatamente, a vida muito facilitada. Mas como eu sempre lutei pelo mérito e não pelos "apadrinhamentos", tenho a certeza que perdi em termos financeiros , no entanto, hoje, passados muitos anos, não devo nada a ninguém, especialmente favores... manias que não enriquecem ninguém mas que deixam a consciência muito tranquila. Mais tarde, até primas, à custa do Partido, tiveram "facilidades" para arranjar casa. Se calhar até fui parvo mas, não tenho "telhas de vidro", nem reforma, coisa que muitos com a minha idade já a tinham garantida mas, sempre gostei de me sentir livre, para dizer o que penso e não o que é "conveniente" e sempre votei, mas nunca com a obrigação de ter que ser neste, ou naquele... dependerá sempre de muitos fatores porque os tempos estão sempre a mudar, a própria vida está em permanente mudança, portanto isto de votar como se fosse no clube futebolístico até à morte ;) não faz qualquer sentido para mim... parece mais uma ditadura, só que partidária ;)

Quanto a refugiados para os Estados Unidos também os há, os últimos que tomei conhecimento, não são de guerras ou conflitos, e estes, também farão parte do futuro de todos nós... os refugiados das mudanças climáticas. Há sítios que já estão a sofrer as consequências, no caso das Ilhas Marshall que estão a afundar, a subida dos mares é uma das consequências das alterações climáticas e, alguns desses refugiados, foram recebidos no Estado do Arkansas nos E.U.A. mais exatamente em Springdale.
Andam todos entretidos com os mexericos partidários e, poucos, saberão que no passado Agosto uma enorme geleira maciça quebrou e um enorme iceberg com cerca de 12,5 Km, tão grande que pode ser visto do espaço, caiu no mar ao largo da Gronelândia ocidental. Está previsto, o Glaciar Jakobshan continuar a quebrar e deixar cair no mar, a cada ano, 40 bilhões de toneladas de gelo e o pior é a "velocidade galopante" com que os glaciares na Gronelândia estão a recuar, o que significa uma subida do nível global dos mares e, claro, que o maior problema não estará, apenas, na contínua subida dos mares até aos seis metros, há outro tipo de consequências... muito piores.
Quanto ao Futuro, tenho muitas certezas e ainda mais dúvidas mas, quem prometer um futuro melhor, das duas uma, simples ignorância ou pura mentira e, para sobreviver, seja a nível pessoal ou de grupo, vai ser indispensável... capacidade de adaptação a todo o tipo de mudanças, diversificar conhecimentos e habilitações, prevenir em vez de remediar, muita criatividade e imaginação para resolver problemas e, principalmente, nunca acreditar que, nesta vida, haja alguma coisa adquirida e garantida para sempre.

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