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Crónicas da fronteira (1): O motim

por Luís Naves, em 04.09.15

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Em Roszke, no sul da Hungria

Estou na fronteira do espaço de livre circulação a que se convencionou chamar de Schengen. Na realidade, esta é a fronteira internacional de 26 países europeus. A partir daqui não há controlos de passaportes. Nos limites da aldeia de Roszke, vê-se a nova vedação de arame farpado que impede os refugiados de entrar na Hungria a corta-mato e os conduz para sítios policiados. Num ponto do arame, da altura de um metro, vejo restos de roupa de alguém que entrou por ali. A vedação está meio levantada e não parece demasiado impressionante. Do meu lado da barreira, há campos agrícolas e a aldeia propriamente dita. As casas e as estufas estão mesmo ali ao lado, a água do regato ficou fora da nossa Europa.

A um quilómetro de distância existe um ponto de passagem sem arame farpado, a linha férrea de uma só via, por onde caminham grupos de pessoas. São apenas dois quilómetros de caminho a partir da Sérvia e, deste lado, estão os polícias húngaros, que apontam aos refugiados um campo de descanso; tem casas de banho portáteis, uma tenda com comida e água, fita a demarcar o local. Os refugiados ali deitados chegaram duas horas antes e esperam transporte. Vejo um grupo de afegãos separado, os sírios juntam-se noutra parte; famílias de um lado, homens jovens por perto. Custou quatro mil euros para se chegar aqui, vindo do outro lado, percorridos milhares de quilómetros.

Um dos jovens, de 24 anos, de olhos azuis, diz-me que se chama Ahmed, que estudou economia e fugiu da guerra em Aleppo, a mais antiga cidade do mundo ainda habitada ou pelo menos assim era conhecida, pois agora é a mais recente ruína do mundo. “Estive lá na guerra dois anos, fugimos, a minha família ficou na Turquia”, explica-me.

Os grupos chegam a pé de cinco em cinco minutos, com a pontualidade de um horário de comboios. Num só dia desembarcam em Roszke mais de mil pessoas e em toda a fronteira entre Hungria e Sérvia entram mais de 3 mil por dia. Hoje, o recorde pode ser batido. Todos os que entram dizem que são refugiados e querem asilo, embora recusem ser registados pelas autoridades húngaras. Esta multidão quer passar a fronteira na direcção da Alemanha e não aceita qualquer espera.

Do campo improvisado junto da linha férrea, os refugiados são levados para um centro de registo, mas Ahmed e os outros hoje devem esperar mais tempo, pois no campo principal rebentou uma espécie de motim. Chego num momento de alta tensão; as pessoas querem sair dali e ouvem-se gritos e vaias; os sírios fizeram um ultimato e ameaçam sair à força. Os jornalistas não se podem aproximar. Dezenas de polícias de choque chegaram em autocarros e estão a colocar-se em torno das cancelas. A polícia vai retirando mulheres e crianças, que conduz para outros autocarros. As coisas vão acalmando, mas tudo pode degenerar: se não for hoje, será amanhã ou depois. A situação parece insustentável: os refugiados não querem registar-se na Hungria, pois sabem que o seu pedido de asilo terá de ser processado pelas autoridades húngaras e isso leva meses. Por outro lado, sem papéis de registo, os refugiados não passaram legalmente a fronteira internacional. Muitos aumentam a confusão ao destruírem os seus papéis do visto de entrada. Há notícias de gente a caminhar pelas auto-estradas (não consegui confirmar), de manifestações em Budapeste, de caos nas linhas de comboio, mas a Hungria também não pode aplicar as regras do espaço Schengen sem usar a força, o que levará inevitavelmente a mais condenação externa. Enquanto o governo tenta controlar a inundação de gente, a oposição de extrema-direita exige o fecho das fronteiras e a oposição de esquerda defende a passagem livre destas pessoas.

Entretanto, os números vão somando, um pequeno grupo de cada vez: são já mais de cem mil e não querem ficar aqui. Passaram a fronteira, mas estão em lado nenhum.

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3 comentários

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De cristof a 04.09.2015 às 16:15

Obrigado por dar, uma imagem sem demagogia do que realmente está a acontecer. Aqui os "jornalistas" pintam as coisas ao seu gosto e criam condições para chauvinismos sem sentido.
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De tric.Lebanon a 04.09.2015 às 16:46

senão fecham as fronteiras esta invasão não para...são turcos, syrios, iraquianos, argelinos, jordanos, já deve faltar pouco para que sejam tambem marroquinos ( apanham o avião para a Turquia e depois seguem a rota grega )...condição para entrar na Europa...ter a barba feita...dizer que é sirio ( não necessita de papeis para comprovar )...se tiver crianças a entrada será mais facil....não fechem as fronteiras, não...
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De William Wallace a 04.09.2015 às 19:24

Os amantes da globalização e federalistas que resolvam que eu não vou verter uma gota de suor por eles (amantes da globalização e federalistas).

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