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Delito de Opinião

Crónica que sempre desejei escrever sobre George Clooney sem nunca ter o pretexto

Luís Naves, 28.09.14

Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

Eu e o George somos também primos afastados. Na pior das hipóteses tivemos um antepassado comum que viveu talvez há uns dois mil anos, mas é provável que os nossos laços familiares sejam mais recentes, com apenas alguns séculos. A noiva, a minha prima Amal, de deslumbrante beleza, também partilha comigo uma ascendência de Médio Oriente mas, no caso do meu ramo da família, emigrámos mais cedo para a Europa e por aqui ficámos.

Nas cimeiras europeias, no centro de Imprensa, costumava ser cumprimentado por jornalistas que não conhecia de lado nenhum, e em várias línguas. Era um clássico inexplicável. Até que encontrei o meu sósia, um jornalista italiano muito mais popular do que eu. Ficámos a olhar um para o outro, a tentar descobrir as diferenças e, a partir daí, sempre que nos víamos, inclinávamos a cabeça, num cumprimento simpático que parecia alguém a ver-se ao espelho. Quando fui ao Paquistão, as pessoas achavam que era iraniano. Comprei uma roupa local, chamada shalwar kameez, muito confortável e que me ficava a matar. Dizia que era europeu e as pessoas olhavam para mim, desconfiadas, identificando logo o ar de iraniano, apesar da elegante kameez

 

Não acreditam nesta parte? Também tenho dúvidas. Quando estou no estrangeiro, sou frequentemente abordado e fazem-me imensas perguntas: onde é a estação de comboios, onde é o museu, onde fica a rua não-sei-quê. Em Portugal, isso nunca acontece, ninguém me pergunta coisas a que sei responder. Na Hungria, as mulheres bonitas até olham para mim com interesse (isto é rigorosamente verdadeiro). Em Portugal, nunca olham, a ponto de achar que há qualquer coisa de errado com estas novas gerações. Certa vez, em Copenhaga, um cavalheiro cumprimentou-me ‘Salam Alaikum’ na rua e fiquei sem saber o que responder e só consegui dizer ‘salam’ em troca, o que julgo me denunciou de imediato, talvez por causa da pronúncia. Sei que estava escuro, mas o aeroporto do Cairo parecia bem iluminado por um sol esplendoroso quando perguntei a um funcionário onde era o terminal da Lufthansa e ele me devolveu a questão: ‘Você é Sírio?’

Ainda hoje não sei o que é que a Lufthansa tem a ver com a Síria, mas percebi a alusão do funcionário ao ver o George Clooney no filme Syriana, a fazer de mim, um bocadinho mais gordinho e desmazelado, cabelo e barba compridos, com aquele seu ar bonzinho e descontraído, num não te rales muito próprio dos rapazes e raparigas da minha criação, tirando aquele momento final do filme em que percebíamos toda a humanidade da personagem, quando esta compreendia que tinha falhado tão completamente.

É a diferença maior entre a fantasia dos filmes e o que imaginamos da realidade, pois aqui do outro lado, o falhanço não é bem assim, tão cinematográfico. É o viver que importa, maneira de conceber a mesma coisa, mas de forma diferente. Como dizia um amigo meu, isto anda tudo ligado, e como diria o meu sósia italiano, sendo tempo de encontrar um remate para esta confissão obscura: ‘tanti auguri, George’.

 

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