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Crónica no DN

por Patrícia Reis, em 22.07.15

A avó de Schäuble sabia muito sobre os gregos

por ANA SOUSA DIAS

 

"A minha avó costumava dizer: a benevolência vem antes da devassidão." Isto disse Wolfgang Schäuble e, vinda de quem vinha, a frase tinha tudo para me irritar. A bondade como primeiro passo para a bandalheira, ora aí está o que as minhas avós não me transmitiram e eu nunca ensinarei aos meus netos. Não é que as minhas avós fossem de complacências, nada disso. Ambas foram grandes disciplinadoras, ambas justas, uma católica, a outra mais interessada na leitura do que no Além. Mas confundir benevolência com devassidão, ui, nunca.

Vamos aos clássicos, já que falamos de frases do tempo das avós. Estar morto é o contrário de estar vivo, disse um dia Lili Caneças. Ser bom é o contrário de ser mau, digo eu à boleia do raciocínio. Os rebuçados de mentol que as minhas avós me deram ou o fechar os olhos às tropelias infantis não me levaram ao mundo do crime. Estou mesmo convencida de que a avó Filipa percebia de ginjeira que a casa se esvaziava mal se aproximavam as seis da tarde e o terço da Rádio Renascença, que ela tanto queria partilhar connosco. Não nos ralhava por preferirmos ir para a rua brincar. Fingia que não percebia. Era benevolente.

Schäuble conta que lá em casa eram três irmãos e, quando lutavam, o pai dizia-lhes que o mais forte devia recuar. Isto para dizer que aplicou esse princípio nas negociações com a Grécia. Vejam bem o que está implícito e explícito nesta conversa. Primeiro, "o mais forte", leia-se, a Alemanha, leia-se, ele próprio. Segundo, "recuou", quer dizer, foi ele quem recuou naquela longa noite e não o grego que voltou para casa com um saco de exigências em tudo opostas ao mandato que levava.

Destas coisas de lutas infantis tenho o dobro da experiência do ministro alemão. Lá em casa éramos seis irmãos e o mais forte não era sempre o mesmo. Entre derrotas, vitórias e nem uma coisa nem outra, aprendi muito e serviu-me para a vida. Recuava-se e avançava-se conforme as circunstâncias, a presença das diferentes autoridades, o sistema interno de alianças, a capacidade de persuasão e até as malfadadas botas para o pé chato, armas poderosas nos pés dos mais pequenos. Não saberemos nunca qual de nós foi o mais forte, nem isso interessa para nada.

No livro As Benevolentes (2006), Jonathan Littell faz e desfaz os circuitos sinuosos do poder militar na Alemanha de Hitler, numa extensa narração seca e de cortar a respiração. É uma autópsia do mal destituída de emoções. O autor foi buscar o título aos gregos, os antigos: deusas impiedosas e vingativas a quem chamavam Benevolentes por puro medo de dizer o verdadeiro nome. Ah, talvez seja isso. A avó de Schäuble era perita em mitos gregos.


3 comentários

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De Ali Kath a 22.07.2015 às 23:54

linguagem tauromáquica:

'o touro recua para marrar'
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De lucklucky a 23.07.2015 às 04:05

A construção da narrativa xenófoba anti-alemã como mais uma vez se prova por ir buscar o passado que não tem nada que ver com o presente.

E artigo está escrito na táctica manipuladora do " caso da vida" - usa-se só um exemplo para extrapolar. Há inúmeros casos onde a benevolência deu azo à devassidão.

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De J.S.M.suave e nas tintas a 24.07.2015 às 04:48

Conclusão: o problema dos gregos foi o excessivo consumo de rebuçados. Devemos ser benevolentes com quem come rebuçados, sobretudo, emprestados - digamos assim. Porque isso não os transforma em bandidos. Pobres de todo o mundo, não sejam tontos: peçam emprestado e não paguem que sereis sempre perdoados. Assim nos ensinam os gregos modernos. Os maus são os emprestadores. É uma nova era; e é isto que devemos ensinar aos nossos filhos: a prodigalidade é o futuro dos indivíduos e das nações porque os recursos são infinitos. Se não tiveres e encontrares em casa alheia toma-o para ti. O mérito não é um valor, é um estupor. É toda uma nova filosofia politica e social que emerge, capaz de solucionar a governança do mundo. E é uma nova ética que se revela um autentico achado. Nem de propósito esta postura me faria lembrar Nietzche com tanta acuidade: perdoar os fracos; os negligentes; os trapaceiros; os incompetentes; os preguiçosos e os viciados com o dinheiro dos outros, fará de nós todos uns medíocres execráveis: todos iguais, todos na miséria!
Se querem pagar devem organizar a casa da maneira que entenderem mais conveniente, desde que resulte, ninguém se intromete. Se não são capazes o problema é deles. Se forem perdoados sem lhes serem exigidas responsabilidades habituam-se aos perdões e nada fazem. Como diz Hannah Arendt : se o perdão não servir para recomeçar noutras bases, então, não serve de nada. Não se perdoa para ficar tudo como estava e esperar voltar a ser perdoado. Quem pede perdão quer transformar-se para melhor e quem o concede precisa de acreditar para se manter parceiro. Perdoar é desconstruir o erro e o equivoco para assim recomeçar e reconstruir. São estas as raízes terrenas do perdão.
P.S. Sinonimo de exercer o direito de cobrar uma divida = vingança.

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