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Cristas e o Brasil

por jpt, em 26.10.18

109120-004-2105B1D4.jpg(o postal tem adenda)

"J'ai vu des démocraties intervenir contre à peu près tout, sauf contre les fascismes" é daquelas frases de Malraux que vingaram na Readers Digest de hoje, a wikipedia (e aviso já que não aceitarei comentários invectivando Malraux por não ter criticado Chavez e Maduro).

 

Cristas anuncia qual seria o seu voto no Brasil. Uma inutilidade, poderia ter-se escudado na não ingerência. Mas opinou, igualando as candidaturas, como se se filiando na crescente simpatia pelo bolsonarismo entre locutores da direita portuguesa. Fez mal. É certo que a sua opinião é irrelevante naquelas eleições (que aparentam estar já decididas - ilustra-o o já velho Chico Buarque terminando em lágrimas o seu discurso num recente comício da candidatura de Haddad). Mas falhou a oportunidade para explicitar o conteúdo exigível ao arco do poder.

 

Será muito difícil a uma líder democrata-cristã sentir, e expressar, simpatia por uma candidatura conjunta de um socialista (de ala esquerda?) e de uma comunista (uma comunista latino-americana, decerto mais castrista do que berlingueriana, isto usando imagens para gente mais idosa do que Cristas). Mas três aspectos poderia considerar:

 

1. o primeiro é interno ao Brasil. O PT dominou o XXI daquele país, ganhando várias eleições presidenciais. Por criticável que seja a sua governação, por evidente que seja a sua degenerescência, por problemático que seja o seu programa actual, nesse período não usou o poder para terminar o regime democrático (para o minar?, porventura; para o terminar?, não.) e não tem uma maioria no fragmentado sistema parlamentar que lhe permita hipotéticas (reais?) veleidades de lhe subverter as características essenciais. Já Bolsonaro vem anunciando, até mesmo agora, uma semana antes, um conjunto de propósitos à total revelia da democracia (prisões, expulsões, "nomeem que mais ...").

 

2. o segundo é global, a questão ecológica. Nos avessos a Bolsonaro isto nunca surge, poluída que está a "mente colectiva" pelas agendas neocomunistas, as do altergender vs cisgender, do racialismo e - neste caso em particular - do mulherismo. Se a ecologia não foi verdadeira prioridade do PT, Bolsonaro anuncia-se como campeão do seu desrespeito, em modalidades irreparáveis (direitos individuais e colectivos podem-se repor, a demência omnívora face à natureza é irreparável). Ora esta temática é hoje colossal. Apesar de grande silêncio no debate português, o que bem mostra o atraso cultural do país (ainda que os Erasmus já sejam geração de poder). É o equivalente ao debate nuclear (guerra atómica, energia nuclear) nos anos 70s e 80s, o ocaso da Guerra Fria. Ou até mais relevante, pois menos polarizado quanto a centros de decisão.

 

3. o terceiro é político, principalmente europeu. O pós-guerra deu-nos este sistema democrático ao qual os comunistas (nas suas diferentes versões) pertencem. Pode ser um oxímoro, podemos considerar que eles estão de corpo mas não de alma dentro da democracia. Mas em sendo-o é um oxímoro funcional, estruturante do sistema político com melhores resultados económicos e sociais - não será um "fim da história" mas é um belo momento da história. Em Portugal os anteriores a Cristas lembrarão Melo Antunes a cercear o extremismo anti-comunista considerando-os integrantes da democracia portuguesa e os mais lúcidos saudarão também a democraticidade do general Eanes, nesse mesmo sentido. Mas será de lembrar que nessa mesma era a DC italiana (uma das matrizes do CDS) teve a grandeza estratégica de fazer um "compromisso histórico" com o PC. E foi este regime europeu englobante que trouxe para as interacções democráticas os grandes PCs europeus (Berlinguer, Marchais, Carrillo - o tal de "eurocomunismo"), e foi integrando os maoístas, enverhoxistas e 68ístas nos PS locais e nos ecologistas. Ora deste sistema amplo, deste "arco do poder" representativo consagrado no pós-guerra não constam, por definição, os fascismos. Exigem-se "cordões sanitários" em seu torno, para preservar os regimes democráticos. Há excepções, e fala-se de Finni, integrado nessa primeira bolha populista moderna, mas esse mau sinal estava subordinado ao peculiar (mas não fascista) Berlusconi e correlacionou-se à desagregação do sistema partidário italiano. E falarão do partido da Liberdade holandês ou do Interesse Flamengo, mas esses são muito mais movimentos soberanistas (e independentista no caso belga) do que fascizantes. E mesmo assim são integrados nestes peculiares regimes de coligações governamentais que são verdadeiros estudos de caso de concatenação política. De facto, os fascismos mais ou menos explícitos são ostracizados, como o foi Haider pela comunidade da Europa e pela sua Comunidade Europeia. Tal como esta coisa bolsonara de agora o parece dever ser ... Fernando Henrique Cardoso, sábio e conhecedor como nenhum de nós, di-la outra coisa que não fascismo, fruto desta nova era, um "transfascismo" se se quiser. Porventura será, mas tem todas as características que extravasam o primado do estado de direito e a democracia liberal. 

 

Nesta declaração de neutralidade, desnecessária ainda por cima, Cristas mostra que nada disto apanha ou considera. Mostra-se sensível aos discursos de direita assanhada que já por ali pululam - muito pela analogia que se faz entre o podre PT e o degenerado PS socrático do qual este costismo recusou apartar-se (Augusto Santos Silva na tétrica declaração de que não faz "julgamentos éticos" quando é de avaliações políticas que o seu partido, e o país, necessita; um governo actual onde as pastas estratégicas estão nas mãos de gente que foi dos governos socratistas ou de seus admiradores ferrenhos). Mas essa analogia, que é grosseira, e mesmo que não o fosse, não é o fundamental. Cristas foi incapaz de dizer "não" a essa extrema-direita (ainda para mais agora que tanto se frisa que "um não é um não") e deixou-se, em ademane de "coquette", dizer-se namorável, se com melhores modos alheios.

 

O que lhe faltou, e assim sendo o que lhe falta, é a densidade de estadista. De perceber o que está em causa e ver lá à frente. Afirmar-se, e aos seus, como um motor de consenso democrático em torno de um modelo de regime. Aquilo que o socialista (de facto socialista, e isto vai sem acinte) Rui Tavares recordou há dias "No imediato, é preciso que a esquerda, centro e direita democráticas se unam contra os fascistas - chamem-lhes o que chamarem.".  É difícil isso, por muitas razões. Uma das quais é porque todos nós, avessos ao patrimonialismo socialista ou ao credo estatizante ou às agendas políticas pós-modernas/coloniais temos sido neste XXI constantemente "fascistizados" (homofobizados, racistalizados, lusotropicalizados, etc.). No mesmo processo de abaixamento intelectual que se vê agora na direita soberanista, apelidando os europeístas, as instituições democráticas e democratizadoras (por mais criticáveis que sejam) de "Bruxelas" como "estalinistas". Este tipo de radicalismo invectivador deixa máculas, dificulta articulações. E, como é óbvio, gasta as palavras - se quase todos nós fomos ou somos "fascistas" por uma qualquer razão como reforçar posições comuns contra outros "fascistas"? Mais, como delimitar esses ("trans)fascistas" de hoje?

 

Nada disto interessará a Cristas. Talvez mais preocupada com um ou outro deputado que poderá subtrair a um centro desnorteado, como o que vai agora. Incapaz de perceber que é agora o momento de afirmar o seu partido como trave. Até aproveitando os ventos deste tempo, sabendo-os depurar da pestilência que também transportam. 

 

E tudo isto, para além de Cristas, mostra também o final das "internacionais". Há algumas décadas as articulações partidárias internacionais tinham vozes mais ou menos comuns sobre os temas cruciais. Hoje estarão mais centradas na agenda parlamentar comum. Que nos dizem elas (quem são os seus presidentes? que relevância têm?) sobre tudo isto? Como articulam os seus partidos-membros e respectivos líderes? Que resta das ideologias? 

 

Adenda: no último fim-de-semana foi divulgado este filme com declarações de Bolsonaro. A uma semana das eleições, nas quais será vencedor promete colocar os apoiantes de Haddad ("petralhada") na "ponta da praia". Julguei que tal significasse expulsão (tipo "devolver às naus") mas nada disso: amiga, portuguesa mulher de direita, avisa-me que "ponta da praia" significa a base militar da Marinha na Restinga de Marambaia, em Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, um presídio de tortura e abate durante o regime militar brasileiro.

Negar a diferença, pelo menos de grau, entre este energúmeno e os malfeitores do PT e associados torna-se um bocado difícil. Que pensará a hierarquia católica portuguesa da líder do partido democrata-cristão que se demonstra relativamente neutral a este tipo de declarações?

 

 

 

 


8 comentários

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De Brasileiro a 26.10.2018 às 14:23

Como os comentaristas deste blog ignoram tudo sobre o Brasil! Tudo!

O PT fez tudo para subverter a democracia brasileira, e só não o fez definitivamente à moda venezuelana por resistência do Congresso e especialmente da Justiça. Até hoje deslegitimam o Parlamento chamando de "golpe" a destituição constitucional de sua Presidente, deslegitimam a Justiça e o Ministério Público, deslegitimam tudo e todos que podem barrar-lhes o caminho da venezualização.

Que venha Bolsonaro, obrigado minha Pátria querida!
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De Anónimo a 27.10.2018 às 17:03

É incrível como há tantos brasileiros que vão para blogs portugueses envergonhar o seu povo! Um nível de burrice impressionante. Mas olha, se o Bolsonaro ganhar e as coisas derem para o torto, não venhas para Portugal e fica-te por aí. Sê coerente.
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De Anónimo a 27.10.2018 às 19:14

É incrivelmente como há tantos portugueses ofendendo brasileiros chamando os de burros! Atenção meu caro, Portugal tem uma comunidade enorme de brasileiros. Já pensou se esssas ofensas forem recíprocas? Portugal há pessoas cultas e inteligentes e há também burros. Igualmente no Brasil. Mais respeito sff! Para seres respeitado.
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De jpt a 28.10.2018 às 07:14

Este processo eleitoral brasileiro bem mostra o grau de xenofobia larvar da esquerda portuguesa - acicatada pelos jornalistas da moda que logo o agitaram nos seus "jornais de referência", e secundado por académicos de disciplinas tradicionalmente ligadas ao combate a esse tipo de sentimentos (falo em especial da antropologia). Ante o silêncio seja dos sindicatos de jornalistas (pressurosos em criticar lideres associativos cada vez que criticam os jornais e seus agentes) e das ordens profissionais. Este tipo de alusões a filtros à imigração de brasileiros, e concomitante pressão sobre os já instalados, é completamente inadmissível - e inversa à habitual prosápia esquerdista sobre a obrigatoriedade de desarmar a fortaleza Europa, abrindo aos "refugados asiáticos e africanos", independentemente dos seus valores culturais e políticos e negando a legitimidade de qualquer política assimilacionista. Este caso brasileiro mostra bem o quão mera retórica é a discursata dos jornalistas, académicos e das massas internáticas que os "seguem"
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De Anónimo a 28.10.2018 às 18:42

Que "valores culturais e políticos" possuem os "refugiados asiáticos e africanos"? É que eu já vi que "valores culturais e políticos" possuem muitos imigrantes brasileiros (certamente não todos): a defesa de uma ditadura, o racismo, a misoginia, a homofobia... Na primeira volta diversos eleitores brasileiros revelaram ser autênticos profissionais da desordem na FDUL. Se isto tivesse acontecido em eleições portuguesas a polícia teria sido chamada e os desordeiros seriam detidos.
Não tenho nada contra culturas diferentes até porque entre a cultura portuguesa e a brasileira há muitas semelhanças e os imigrantes, sejam de onde forem, têm muito a dar ao país para onde vão viver. Tenho sim contra quem não sabe viver em democracia.
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De jpt a 29.10.2018 às 06:15

Anónimo, os "refugiados asiáticos e africanos" (de facto imigrantes, apenas a retórica os faz dizer refugiados - e por isso usei aspas) tëm valores culturais e políticos, dependendo dos seus contextos de origem e das opções individuais. A questão que coloco, e que parece que você não quer ler, é que os danieis oliveiras e as fernandas câncios (e as antropologas) não questionam a adequação desses valores aos aparentemente valores dominantes em Portugal, e criticam quem coloca essa necessidade e vituperam quem defende políticas de integração que valorize a indução da assimilação a esses valores. E agora, de súbito, defendem para os brasileiros o que sempre recusam para magrebinos, indianos, bangladeshis (ou lá como se escreve), senegaleses, guineenses, nepaleses ou seja lá o que for.

Quanto ao resto, se os brasileiros armam confusão numa instituição portuguesa chame-se a polícia, detenham-nos, expulsem hipotético ilegal (indocumentado, chamam-lhe os hipócritas agora avessos a imigrantes que não partilhem os "nosso" valores) e multem ou prendam os prevaricadores legalizados.

Consegui fazer-me entender ou você vai continuar a dizer-me que é preciso mandar embora o votante do bolsonaro mas ignorar qualquer opção político-cultural dos paquistaneses, egipcios, ucranianos?
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De Anónimo a 29.10.2018 às 21:33

De que "cultura" dos "asiáticos", "africanos" e europeus de Leste é que o jpt está a falar? Terem um determinado sotaque? Não serem fluentes em português? Terem hábitos alimentares diferentes?
Por mim tudo isso é bem vindo (embora às vezes seja chato não compreender o que outras pessoas dizem). Agora não saberem viver em democracia é que é grave.
E eu sou contra a expulsão de "ilegais" pois ser "ilegal" é um crime sem vítimas. Já ser fascista não é um crime sem vítimas mas sim um crime contra uma sociedade justa e civilizada.
E Portugal que se prepare pois pode vir a ter muitos refugiados provenientes do Brasil. E eu apoiarei a vinda desses refugiados pois estarão a fugir de um regime autoritário. Não apoio é a vinda ou permanência de fascistas.
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De João Pedro Pimenta a 30.10.2018 às 17:31

Ser fascista é crime? E logo punível com a deportação? Não sabia que havia -ismos que eram proibidos em Portugal. Diga-me lá a norma que proíbe ser-se fascista, que eu não devo estar devidamente actualizado.

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