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Delito de Opinião

Crimeia, a coutada do novo czar

Pedro Correia, 07.03.14

 

Por enquanto as televisões, que filmam com crescentes precauções para evitarem ser alvos de represálias, ainda conseguem mostrar-nos fragmentos do que se passa na Crimeia ocupada manu militari por tropa russa sem insígnias: quem ousar por estes dias manifestar-se a favor da ligação à Ucrânia nas ruas de Simferopol é logo arrastado por bandos de jagunços incapazes de conviver com opiniões "dissidentes". Impossível ver ali sequer desfraldada uma bandeira ucraniana, confirmando-se não existirem condições mínimas de liberdade para realizar uma campanha referendária. Como pode haver um referendo minimamente credível sem campanha? E como pode realizar-se já no dia 16 -- ou seja, daqui a cinco dias úteis -- uma consulta popular com 30 mil militares e paramilitares russos a impor às urnas a vontade das armas?

Estes jagunços são todos homens e têm especial predilecção por agredir mulheres perante a passividade da tropa ocupante russa, que serve de guarda pretoriana às manifestações locais pró-Moscovo. Algo que dá que pensar, em vésperas de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Não por acaso, a enviada especial da CNN à Crimeia viu-se hoje impedida de sair do hotel em reportagem.

Pior sorte teve o enviado das Nações Unidas: Robert Serry foi ameaçado por milícias armadas e forçado a rumar ao aeroporto. Isto enquanto o chefe do Governo da região autónoma, ferozmente pró-russo, chama "traidores" aos defensores da soberania ucraniana na península -- deixando assim bem evidente que não existem garantias de imparcialidade das autoridades locais para promoverem o referendo. Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de entrar na Crimeia, pelo segundo dia consecutivo, por elementos das forças especiais russas ali plantados como vigilantes de uma coutada -- a coutada particular do novo czar Vladimir Putin, que pretende anexar a Crimeia à maneira dos vetustos senhores feudais, exímios praticantes do direito de pernada.

 

Eis uma versão revista e actualizada da Lebensraum hitleriana: onde houver comunidades russas, Moscovo estenderá o seu domínio de fuzis em riste -- à revelia do direito internacional, que garante a integridade territorial e o exercício da soberania dos Estados cuja independência é reconhecida pela ONU. Mandando às malvas os direitos das minorias étnicas, tal como sucede na Rússia com as minorias sexuais.

Ao contrário do que pretendem alguns admiradores do presente exercício de musculatura do Kremlin, a Crimeia é um mosaico de línguas e etnias. Onde vivem russos (58%), ucranianos (24%) e tártaros (12%), entre habitantes de outras origens. E muito mais tártaros ali existiriam se nas décadas de 30 e 40 Estaline não tivesse sujeitado grande parte desta população a deportações em massa para a Sibéria e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Menor para ceder mais "espaço vital" ao neocolonialismo russo.

 

Nada me surpreende em tudo isto excepto o aplauso basbaque de alguns autoproclamados "progressistas" à política de canhoneira do Kremlin. Tão velha como a mais antiga lei que remonta aos confins da História: a do mais forte.

A comovida homenagem que certo "progresso" faz ao retrocesso civilizacional nunca deixará de me espantar.

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