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Com esta pandemia do Covid-19, vulgo Coronavirus, tem havido muita confusão, especialmente no que respeita à ideia que existe exagero na forma como se está a lidar com a situação e ao pânico ou pseudopânico que se tem gerado com a situação. Um dos problemas é porque a mensagem ou não está a ser correctamente transmitida ou está mal adaptada para o público em geral.

Há um risco considerável para a população em geral com o Covid-19? Sim, e é por isso que se tomam determinadas medidas. Há um risco considerável para cada indivíduo? Não. Há um risco acrescido relativamente à gripe sazonal (ou gripes sazonais, não existe uma gripe sazonal), mas é relativamente pequeno e normalmente específico para pessoas com problemas de saúde pré-existentes. A grande maioria parte das pessoas ou não terão sintomas, ou terão sintomas iguais às de outras gripes, ou terão sintomas mais chatos mas sem necessidade de qualquer tratamento adicional, apenas um período mais prolongado de recuperação do que o normal.

Porquê então estas medidas? Existem duas razões, interligadas, semelhantes, mas um pouco diferentes.

 

A primeira está relacionada com o Covid-19 em si. Tem uma tendência superior à das gripes sazonais de causar problemas no sistema respiratório, especialmente os pulmões. Como infecções pulmonares normalmente causam uma sequência de outros problemas (rins, fígado, etc), isto é um problema acrescido em relação às gripes sazonais, mesmo quando se desconta a maior taxa de mortalidade (chego lá depois). Isso significa que uma pessoa doente com Covid-19 terá maior probabilidade de ficar em estado muito grave e de ter sequelas para o resto da vida.

A segunda razão, relacionada com a anterior, é o facto de existirem muitas outras doenças que causam problemas ao sistema respiratório. Muitas dessas doenças são crónicas e necessitam de tratamento especializado, como ventiladores, os quais existem em número limitado e estão quase exclusivamente em hospitais. Para mais, este tipo de equipamente é habitualmente difícil de manter esterilizado, o que significa que é das mais comuns fontes de infecção nos hospitais. Alguém que já esteja debilitado por uma doença anterior e que seja exposto ao Covid-19 por via do ventilador poderá acabar por morrer. O mesmo na situação oposta: alguém que tenha contraído o Covid-19 e necessite de um ventilador porderá contrair outras doenças. Por fim, há ainda o problema de o Covid-19 causar um súbito aumento no uso destes ventiladores e para pessoas em situações de urgência, o que pode provocar problemas a outros que precisem deles “apenas” de forma ocasional e esporádica.

Estas duas razões significam que uma das maiores precupações das autoridades está em evitar uma sobrecarga dos serviços de saúde. E isto seria apenas se contarmos as pessoas que realmente precisam desses serviços, sem contar as muitas que convergem para os hospitais por se sentirem doentes, com medo que tenham o Covid-19.

Dois outros elementos a considerar: 1) o Covid-19 é mais contagioso que os vírus da gripe mais comuns. 2) a taxa de mortalidade do Covid-19 é superior.

No primeiro caso, olhe-se para os números das gripes sazonais e agora aumente-se o número de pessoas que poderão contrair a doença. No caso das gripes comuns, 3 a 5 milhões de pessoas sofrem de problemas graves. Se o Covid-19 ficar descontrolado, muito mais pessoas poderão ter tais problemas de saúde. E como se comparam as duas? Em regra, a taxa de de transmissão das gripes anda por volta do 1.3, ou seja, cada pessoa transmite a gripe a 1.3 pessoas em média. A do Covid-19 ainda está por determinar de forma mais clara, mas parece estar na casa de 2 a 3. Se o valor for o dobro do que é usado para as gripes, teríamos, só com base na taxa de transmissão, 6 a 10 milhões de pessoas com sintomas graves. Mas sabemos també que a taxa de hospitalização para pacientes com Covid-19 pode ser até 10 vezes superior. 60 a 100 milhões de pessoas num único ano a terem de ser hospitalizadas por causa de uma doença é definitivamente problemático. Note-se no entanto que os valores acima são médias globais. Algumas zonas terão taxas mais baixas e outras taxas mais altas (tanto de transmissão como de hospitalização). Isso significa que se algumas áreas poderão passar quase incólumes, outras poderão ver os serviços de saúde a colapsar.

Chegamos agora ao ponto da mortalidade. O valor médio real só pode ser determinado no final. Olhar para as pessoas que foram diagniosticadas e atirar a esse número o das mortes não ajuda. Há um período de 2 semanas (em média) entre ser exposto e apresentar sintomas e, igualmente, poderá haver um período de uma a 2 semanas entre apresentar sintomas e morrer da doença. Os valores até agora apontam para um valor global entre os 1 e 3%. As gripes sazonais têm taxas de mortalidade de cerca de 0.1%. E estes valores não são constantes em toda a população. Pessoas com problemas pré-existentes estão mais expostas ao vírus. Pessoas mais velhas também. Crianças costumam contrair a gripe com facilidade mas, por alguma razão, parecem curiosamente (e felizmente) ter pouca vulnerabilidade ao Covid-19.

Juntemos então os factos do Covid-19 em relação às gripes sazonais: é mais contagiosa, causa mais problemas de saúde, causa sobrecarga de sistemas de saúde e é mais mortal. Nalgumas estimativas, se o Covid-19 fosse deixado espalhar-se sem medidas adicionais, cerca de 30 a 70% da população mundial poderia contrair a doença. Com 1% de mortalidade, isso poderia levar a um mínimo de 21 milhões de mortes.

Então o que se quer fazer com esta situação? Impedir que se espalhe? Na realidade... não. É quase inevitável que a doença se espalhe para essa proporção da população. É muito provável que, daqui por 5 a 10 anos, faça parte da lista de gripes que pdoeremos contrair sazonalmente e poderemos todos vir a contraí-la mais que uma vez. Aquiloq ue se está a tentar fazer é o “achatamento da curva” (flattening of the curve em inglês). Que significa isso? Simplesmente uma mudança na forma da curva de casos ao longo do tempo. Numa curva sem intervenção, o declive inicial será muito acntuado e atingirá um pico muito elevado num período de tempo curto. Depois disso o número de casos cairá também de forma acentuada. Aquilo que se quer é que o declve seja muito menos acentuado e mais extenso no tempo, nunca atingindo um pico tão elevado. Isso tera influência também no número de mortes, dado que se os sistemas de saúde não tiverem de lidar com tantos casos, poderão ser mais eficazes a tratar aqueles que lhes chegam às mãos. Adicionalmente, isso dará tempo para se desenvolver uma vacina.

Com as restrições que se estão a colocar, a ideia é reduzir a taxa de transmissão para valores mais controláveis. Ao se reduzir a possibilidade de contacto, reduz-se também a probabilidade de transmissão, o que reduzirá o número de casos graves, mortes, problemas no sistema de saúde, etc. As medidas não são uma demonstração de pânico, mas antes as recomendações de epidemiologistas (que não são médicos regulares, antes tratam frequentemente de estatísticas – palavra feia para muita gente, eu sei) que pretentem evitar o pânico. Estas medidas são portanto medidas fortes, mas não demonstram pânico, antes são o que um governo competente deve fazer para proteger a sua população.

Aquilo que os governos não estão a fazer de forma competente é explicar a razão de ser destas medidas. Ficam-se por palavras graves, dando a ideia que se está perante um cenário de colapso iminente. Se é verdade que há riscos, estas medidas só podem ser implementadas de forma eficiente em países que têm maneira de mitigar as consequências sociais e económicas. E é nisso que os países têm que se concentrar (espantosamente, Trump parece ter sido dos primeiros a de facto ter actuado neste sentido, mesmo que não perceba o alcance da crise).

E do ponto de vista individual? Bom, não há muito a fazer. Tomar cuidado, amnter algum distanciamento social, lavar mãos, evitar tocar na cara (este conselho parece-me essencialmente inútil porque é quase impossível de implementar) e evitar espaços comuns. Máscaras têm eficácia muito reduzida para prevenção no dia a dia e devem ser reservadas para profissionais de saúde e pessoas de facto doentes (que precisem de sair para ir ao médico ou comprar comida, por exemplo). De resto convém compreender que as probabilidades de contrair a doença, mais cedo ou mais tarde, são consideráveis e que em caso de sintomas cada um deve colocar-se em isolamento. Em caso de problemas graves (especialmente problemas de respiração), deve-se contactar o médico e pedir uma recomendação. De resto, de facto convém manter a calma.

Em resumo: o Covid-19 é uma doença com consequências graves para anossa sociedade mas há forma de lidar com ela. A nível individual, o melhor é fazer o ques e deveria fazer sempre: ter cuidado com higiene e zelar pela saúde também dos outros.

 


16 comentários

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De João Campos a 11.03.2020 às 21:47

E ir à praia. Apanhar sol e maresia faz sempre bem :)

Brincadeiras à parte, excelente artigo, João.
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De João André a 11.03.2020 às 23:16

Eu até tenho umas praias aqui perto de onde estou, mas o Lago Ontário nesta altura deve estar assim para o frio

Obrigado João
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De Vento a 11.03.2020 às 22:16

Porra, padrinho, explicado assim até dá vontade de brincar com o bicho.
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De João André a 11.03.2020 às 23:16

Ó Vento, brinque com outros bichos. Se depois o pega a outros pode dar mau resultado...
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De Vorph Valknut a 11.03.2020 às 23:28

João não se preocupe. A única entidade com que o Vento tem relação é com o divino eterno.
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De João André a 12.03.2020 às 17:58

Eterno? Então deve ser velho. Se apanha o Covid-19 vai ter problemas...
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De Vento a 11.03.2020 às 23:38

João, o Vorph anda com saudades minhas e da minha relação. Não diga nada para ele.
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De João André a 12.03.2020 às 17:50

Anda aqui uma relação platónica. Mantenham-na virtual, pelo menos por agora
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De Vento a 12.03.2020 às 21:45

Respondendo aos seus dois comentários:
Bem velhinho, o Eterno, e fuma cachimbo. O covid não se aguenta com tanto fumegar, engasga-se.

É, é mesmo platónica. A alegoria da caverna, tema proposto por Platão, descreve muito bem a situação. O Vorph viu em mim a luz mas ainda não se decidiu a sair da caverna.
Abraço, padrinho. Espero, como presente de Páscoa, que se aproxima, uma boa posta sua, bem amendoada e à maneira. Se tiver tema de raparigas, desde que boazinhas, melhor.
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De Vorph Valknut a 11.03.2020 às 23:25

Bom resumo. Contudo quanto aos ventiladores eles têm filtros anti - virais e anti-bacterianos. Em teoria o perigo que estes representam para os internados é semelhante aos doentes com pnemonias bacterianas multi - resistentes (ex:Klebsiella sp , Psedomonas aeruginosa)
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De João André a 12.03.2020 às 18:00

Os filtros são frequentemente a maior fonte de problemas. Se não são regenerados ou mudados com frequência, acabam por se tornar pontos de contaminação. E não é difícil isso acontecer. Agora imagine no caso de estarem a ser constantemente necessários e a serem mantidos por pessoal sobrecarregado e cansado...
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De Vorph Valknut a 11.03.2020 às 23:26

Pneumonias, pleurisias...
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De Luís Lavoura a 12.03.2020 às 15:36

uma das maiores precupações das autoridades está em evitar uma sobrecarga dos serviços de saúde

Correto. Mas eu questiono, vale a pena, para salvaguardar os serviços de saúde, e para salvaguardar as vidas das pessoas mais idosas, sacrificar-se tudo o resto na sociedade?

Isto é uma questão política. Não é uma questão técnica.

O bom funcionamento dos serviços de saúde não é a coisa mais crucial da sociedade. A sociedade tem que funcionar, na sua totalidade. Não pode ficar toda a sociedade parada, só para que os serviços de saúde possam funcionar sem problemas.

Nem pode ficar toda a sociedade parada, só para proteger a vida dos seus elementos mais idosos e, genericamente, menos produtivos.
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De João André a 12.03.2020 às 17:56

Penso que não compreendeu o problema. As pessoas mais idosas estão em risco, mas não são as únicas. As crianças podem contrair a doença, mas têm sintomas mais levezinhos - em geral! Também podem sofrer mais que isso e já houve crianças a morrer.
O sistema de saúde não fica sobrecarregado por causa dos idosos (embora em Portugal constituam uma percentagem considerável da população) mas por causa das pessoas que poderão usar os serviços, mesmo quando não necessitem e, especialmente, quando de facto necessitem.

Há ainda a questão de os serviços de saúde serem parte dos que a sociedade oferece, não uma coisa à parte que é apenas complementar. Há também que adicionar que ninguém está a advogar o fim dos restantes serviços. Apenas limitações nas interacções sociais.

E claro, termino com o óbvio: por si poder-se-iam matar ou deixar sofrer umas quantas pessoas mais velhas para que o resto funcionasse bem? São velhotes, não produtivos, o mundo já não precisa deles, certo? Vá ler o Pebble in the Sky de Isaac Asimov para conforto...
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De Luís Lavoura a 12.03.2020 às 18:16

João André, a mim também me parece que você não percebeu o meu comentário.
É que, com esta ânsia de preservar o bom funcionamento dos serviços de saúde, arriscamo-nos a ter em breve uma sociedade em que nada funciona, exceto os serviços de saúde! Temos uma sociedade em que os serviços de educação estão parados, os serviços de transportes estão parados, etc etc etc, só para que os serviços de saúde estejam a aguentar-se!
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De João André a 12.03.2020 às 19:39

Ainda nao percebeu que estas medidas são para evitar que haja um colapso desses serviços? Estes são encerramentos temporários para evitar uma quebra muito mais grave mais tarde.

Se tiver uma epidemia a sério, que se espalhe de forma rápida pela população, as pessoas não irão trabalhar, irão para os hospitais, estes não terão pessoal (porque será gente a mais e os seus profissionais também ficam doentes), as pessoas sofrerão em casa e não terão sequer comida porque os sistemas de abastecimento quebram, etc.

É extremo? Nem por isso: os epidemiologistas e outros especialistas já verificaram todos estes cenários.

A ver se entende: isto não é para evitar a sobrecarga nos hospitais em si. É por tudo o resto que isso implicaria.

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