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Costa, Ventura, Vieira e Benfica

por Pedro Correia, em 14.09.20

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Vieira e Ventura: o criador e a criatura

 

Não sei se é a primeira vez que um chefe do Governo no activo integra a "Comissão de Honra" de um candidato à presidência de um clube de futebol. Mas é a primeira vez que surge na "Comissão de Honra" de um candidato arguido em processo-crime por grave suspeita de fraude fiscal (que resulta da Operação Saco Azul) e está indiciado noutros processos, nomeadamente por suspeita de corrupção, no âmbito da Operação Lex, que enviará para o banco dos réus pelo menos dois juízes, incluindo o ex-desembargador Rui Rangel.

 

Monumental escorregadela de António Costa, que noutras circunstâncias foi precavido ao ponto de ter recomendado aos seus ministros que «nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo» e fez até aprovar um código de conduta que impõe aos membros do Executivo que devam «abster-se de qualquer acção ou omissão, exercida directamente ou através de interposta pessoa, que possa objectivamente ser interpretada como visando beneficiar indevidamente uma terceira pessoa, singular ou colectiva»?

É óbvio que sim. O primeiro-ministro estava consciente dos potenciais danos deste apoio, mas confiou que só causaria brevíssima celeuma, logo sepultada na espuma dos dias. Ter-se-á tratado, em larga medida, de um risco assumido: Costa quer fazer marcação cerrada a André Ventura em matéria de benfiquismo militante, consciente de que o maior clube desportivo português pode ser um baluarte eleitoral em terreno político.

Não por acaso, Ventura é um dos raros opositores ao Governo que tardam a pronunciar-se sobre o apoio do primeiro-ministro ao presidente do SLB, a quem o actual líder do Chega deve tantos favores. Ao ponto de poder dizer-se que Ventura, iniciado nas lides mediáticas como escrevinhador do jornal do Benfica e comentador da Benfica TV, é uma criação de Vieira.

 

Acontece que Costa menosprezou a capacidade de indignação dos portugueses. Ao aceitar tornar-se "testemunha abonatória" de Vieira (tradução prática da inclusão do seu nome na tal "Comissão de Honra"), o chefe do Governo desautoriza as tímidas medidas legislativas anticorrupção anunciadas há dias pela ministra da Justiça e caminha sobre uma camada de gelo muito fino: Vieira integrou a lista dos maiores devedores do BES, causou perdas de 225 milhões de euros ao Novo Banco (de acordo com a auditoria feita pela Deloitte a esta entidade financeira) e poderá estar envolvido com a desacreditada construtora brasileira Odebrecht, implicada no escândalo Lava Jato.

Não faço ideia o que Vieira lhe terá dito como expressão do agradecimento pelo apoio do chefe do Executivo nesta campanha eleitoral em que enfrenta pelo menos três adversários à presidência do Benfica. Mas esta inconcebível trapalhada fornece um poderoso argumento à candidata presidencial Ana Gomes, que faz do combate à promiscuidade entre política e futebol uma das prioridades do seu discurso. Se Costa supunha que a polémica passaria depressa, enganou-se em toda a linha.


90 comentários

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De João Sousa a 14.09.2020 às 12:40

Questiono-me se, no caso de Vieira e/ou Benfica vierem a ser condenados em um ou vários destes processos, Costa, Medina e companhia dirão para as televisões, como disseram em relação a Sócrates, que não sabiam de nada, nunca suspeitaram de nada, nunca perceberam nada, nunca viram nada.

Em relação à apresentação tímida pela Ministra da Justiça das (igualmente tímidas) medidas, recordo o facto de ter sido seguramente a timidez da Ministra que a fez limitar a seis os meios de comunicação social escolhidos para lhe fazerem perguntas.
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De Pedro Correia a 16.09.2020 às 22:10

Medina e o autarca comunista do Seixal também agiram mal, obviamente.
Mas em matéria de relações perigosas entre clubes e autarquias há precedentes diversos, nas mais diversas cidades e regiões.

Recordo que há poucos meses o presidente da Câmara do Porto e o presidente da Câmara de Gaia não só apoiaram Pinto da Costa num processo eleitoral em que o presidente do FC Porto enfrentava três adversários mas aceitaram até integrar um órgão social do clube, algo inaudito na segunda cidade do País.

Na altura, pronunciei-me aqui:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pinto-da-costa-e-o-seu-ungido-11596591

Concluindo: poucos, na política, têm autoridade moral para discorrer sobre este tema. Porque os telhados de vidro são generalizados.
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De Vitor Martins a 17.09.2020 às 04:39

Caro Pedro Correia, muito bem, concordo com tudo! Não posso deixar de ficar surpreendido também com o facto do presidente do NB ter mostrado no parlamento uma folha com um mapa do abatimento da dívida do Benfica, em que foi possível perceber que o mesmo referia-se a 7 exercícios e atendendo ao facto dele ter dito que o Benfica era um excelente cliente que amortizou a quase totalidade de uma dívida que ascendeu aos 202.000.000,00 de Euros e ainda sabendo nós que esses 202 milhões eram apenas uma fatia do total da dívida, pergunta-se, mas o Porto foi (e bem) colocado em Fair Play financeiro por quanto? Ser+a que os balanços do Benfica espelhavam correctamente essa divida colossal? Não somos nós todos uns verdadeiros papalvos que indirectamente patrocinamos este mundo de vedetas, carros de luxo, mansões, operações das esposas às mamocas, férias em Ibiza a 10.000 euros por dia, etc, etc....
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De Pedro Correia a 17.09.2020 às 08:31

Pois, Vítor, a questão de fundo é precisamente essa.

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