Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Convidado: TIAGO CABRAL

por Pedro Correia, em 10.05.17

 

Ficar para último

 

Ao longe a luz do sol, quieta continuas a observar essa luz que te acorda. Já estás velha, rugosa, encarquilhada, as costas sofrem com dores que nunca irão acabar. Tomas comprimidos sem saber para que servem, pegas na primeira caixa que vês, só queres que acabe aquela dor nas costas, no corpo todo. Sentas-te à beira da tua casa, sozinha. Não esperas por ninguém, todos os que poderiam chegar já morreram, o teu homem, irmãos, cunhados, genros e até um filho. Sobras tu. Velha.

 

Depressa morro, depressa isto acaba. As recordações são confusas, de ontem nada, almocei? Não importa. Lembras-te há 60 anos, casa cheia, trabalho muito para lá do sol a sol, moira carregada, analfabeta, nunca consegui tirar as cartas, tivesse eu as cartas e ia sozinha cortar o cabelo, a casa cheia, filhos, da barriga e os emprestados a quem nunca deixaste chamar mãe. A aldeia cheia de gente morta, mas com uma igreja bem-posta, limpa, cheia de adornos dourados, com boa escadaria para os mendigos da bendita caridade. Há missa e não vais, nunca foste, havia sacas para carregar às costas, essas que agora te fazem sofrer, agarras à noite o terço e murmuras a ladainha, avé Maria cheia de graça, a televisão já não funciona, já não é só ligar no botão, não sabes como funciona, não interessa, ligo o rádio e fico a ouvir sem perceber nada, mas é a minha companhia.

 

b02d78defd2da01ab5608d12f1b51635[1].jpg

 

Ficas sentada à tua porta, na pedra torta onde já se sentou o teu marido que morreu a arder, com os pés enfiados na lareira sem sentir nada, e ainda se levantou, tenho frio, muito frio. Quem te resta mora longe, a avó velha cheira mal, eu não quero ir à avó velha. Eu sei que cheiro mal, o banho é ao domingo, sei lá que dia é hoje, se já passou domingo. Já não cozinho, essas putas que agora aqui vêm e sem pudor falam de mim comigo presente, coitadinha dela, ande venha a comer, olhe aqui o que lhe trouxemos, ande prove este peixinho, ao jantar é massa com carne, aos vossos pais matei eu muita fome. Tanta boca que alimentei nesta desgraçada pobreza, nesta aldeia cheia de fome, gente explorada que nunca se levantou, sempre rente ao chão, espezinhada, já sabes ou tiras o chapéu e dobras a espinha, nem que seja ao mais novinho de quem manda quando passar por ti, ou aqui não trabalhas e morres de fome.

 

Está a acabar, sabes tão bem e bem melhor que todos os outros, depressa morro, depressa isto acaba. A aldeia deserta, o vazio inteiro de dias e dias que são apenas um ininterrupto esperar, aguardar por nada, por ninguém. Eu queria ir ao chão, as minhas pitas que as mataram, já não tenho a minha tapada, as saudades de trabalhar a terra, os carreiros da água, fecha em cima com o sacho, desvia a água para o outro carreiro, apanhar a azeitona, já nem azeite tenho, as furdas com os porcos sempre a aguardar a vianda que levava no caldeiro, esperar por Dezembro para a matança, casa cheia, hoje vazia, tenho que a limpar, os quartos vazios, mas limpos, vou mudar os sofás de lugar, já não posso, não consigo. Vou para a porta esperar, sentada por detrás das fitas, escondida dos olhares de ninguém olha para a aldeia deserta, nada mais há para olhar que o silêncio, o largo empedrado já sem o cheiro a terra molhada, os sons do campo que tanto cativam os de fora não lhe dizem nada, sempre os ouviu. Mais um dia que vai passar, lento, como a solidão de ser sozinha é.

 

Levantar, vestir e esperar. Passa alguém, bons dias, bons dias, quem é esta que me fala? Já não conheço ninguém. Depressa morro.

 

 

Tiago Cabral

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

Autoria e outros dados (tags, etc)


14 comentários

Imagem de perfil

De Helena Sacadura Cabral a 10.05.2017 às 12:43

Belo texto e curiosa forma de escrever alternando, misturando o "eu" e os "eles". Gostei muito. E até gostei da tristeza da vida, da solidão, da espera da morte. Logo eu, que sou uma otimista e percebe tudo isto!
Imagem de perfil

De Tiago Cabral a 10.05.2017 às 22:22

Cara Helena, muito obrigado pelo seu comentário :)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 10.05.2017 às 13:10

Excelente texto, Tiago. É um prazer ver-te por cá.
Abraço.
Imagem de perfil

De Tiago Cabral a 10.05.2017 às 18:19

Obrigado pelo convite, Pedro. Um abraço
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 10.05.2017 às 13:36

Tiago, falta falar da velhice, na cidade. Penso que, nesta, a velhice dói mais, não nas pernas, ou nas costas, mas noutro lado, mais dentro.

Por acaso vejo hoje, e sempre a vi, a velhice da aldeia mais dura, mas de uma dureza cristalina, em simbiose com os ritmos naturais que passam lá fora. Esse obrigado a andar, à chuva e ao sol, cavar a terra, para comer o alimento dela...uma rijeza de espirito e corpo que se molda no sorriso que nos deitam. E nos envergonham, a nós, meninos da cidade, mimados e sem saber o que diacho fazer com o tempo

Aliás os velhos da cidade tem frequentemente esse problema. Não sabem o que vieram cá fazer, nem como o tempo passou, gasto numa qualquer atividade, a que se convencionou chamar trabalho (e o nosso trabalhinho é o mais bonito de todos), em nome de uma velhice idealizada que nunca chegou, e em Nome do Filho, que saiu bastardo. Esse filho que diz, arreliado:

"Tenho de telefonar ao velho!"


Essa velha de que fala, talvez tivesse trabalhado na cidade e depois não achando o que a cidade supostamente tinha para oferecer, foi para o campo, procurar nos cantos da casa onde o tempo já passou.
Imagem de perfil

De Tiago Cabral a 10.05.2017 às 22:19

Há uma ideia demasiado romântica sobre viver no campo. É duro. Na cidade temos mais apoio, embora também exista muita solidão.
Sem imagem de perfil

De Regina Martins a 10.05.2017 às 13:52

Muito bom Tiago
A vida nas aldeias ou cidades...hoje...é mesmo assim...assiste-se à solidão de soslaio rezando para que não estejamos a assistir ao nosso futuro.
Imagem de perfil

De Tiago Cabral a 10.05.2017 às 22:20

Obrigado Regina.
Imagem de perfil

De José da Xã a 10.05.2017 às 15:31

Espectacular crónica de tantas vidas que por aí andam.
Eu que continuo a ser um rural, não obstante ter nascido na grande cidade, conheço exemplos de gente assim.
Não foram só abandonadas pelos filhos... foram abandonadas pela vida e acima de tudo pelo tino.
Grande abraço e parabéns pelo texto.
A gente lê-se por aí!
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 10.05.2017 às 16:22

José, quando a vida nos abandona, tanto melhor é o remédio que nos leve o tino.
Imagem de perfil

De José da Xã a 10.05.2017 às 19:52


Há tanta gente por aí que já morreu, mas que ninguém sabe ainda, nem o próprio!
E esta morte, dói muito. Quiçá mais que a outra.
Especialmente para quem convive com ela, todos os dias.
Imagem de perfil

De Tiago Cabral a 10.05.2017 às 22:21

Um grande abraço tb para ti e até ao próximo jantar :)
Imagem de perfil

De José da Xã a 11.05.2017 às 12:56

Lá estaremos....

Grande abraço.
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 10.05.2017 às 16:29

...Tiago

"Um Homem só começa a alcançar o conhecimento quando reconhece que já não é indispensável."

Oxalá a sua velha tenha tido tempo para aprender que o mais importante na vida é saber-se morrer. Saber-se morrer é bem viver.


...e belo texto, o seu.

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D