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Convidado: LUÍS MIGUEL ROSA

por Pedro Correia, em 07.03.18

 

Silêncio, solidão

 

Na leitura sinto a carícia do silêncio. O livro torna-me toupeira: escavo, entoco-me na solidão da concentração. Milénios após a sua invenção, e por mais que o suporte mude, a leitura continua a ser um dos maiores produtores de silêncio no mundo. Nem sequer a transformação do livro em aparelho electrónico lhe acrescentou um decibel: o ebook é mudo e discreto como um mordomo; haver alguém ao meu lado a usá-lo é como não haver. O livro, mudem-lhe o formato, não abdica deste temperamento basilar: ele é sempre algo que ajuda a combater o ruído.

 

Se o livro nunca contribuiu para o triunfo do ruído, já a tecnologia prossegue sádica em sabotar o silêncio. Começou aos poucos: comboios atravessando paisagens onde antes havia só o chilreio de aves e o gorgolejar de ribeiros; mas não fez mal porque os comboios começaram a levar todos para a cidade ao seu encontro. O ruído veio ter connosco, mas no fundo éramos nós que andávamos à coca dele. Entretanto foram chegando carros, autocarros, eléctricos, o metropolitano. Pelo menos parecia haver paz em casa; depois ouviu-se a grafonola, a telefonia, o televisor, o subwoofer do vizinho. Em tempos, para se ouvir música, ia-se a salas de concerto; agora, para meu desconcerto, a música é ouvida a tempo inteiro. Na rua estrondeiam altifalantes, que tocam quer eu queira ouvi-los quer não; e os condutores, motivados por uma fátua afirmação de estatuto, competem para adquirir colunas cada vez mais potentes que alcançam todas as ruas: som para ser visto. Nos transportes públicos zangarreiam telemóveis, iPads, iPhones e leitores de MP3, muitos sem fones porque esses melómanos julgam que tenho o dever de lhes conhecer os gostos ou falências musicais. (Eis um enigma: porque é que o pissitar do estorninho no galho não me incomoda tanto como o kuduro ou o Beethoven no piso de cima?) Aos outros, que não a mim, pois procuro cantos e esconsos nas traseiras do progresso, o centro do ruído seduz. Em vão procuro os calmos subúrbios do ruído; ele já chegou a todo o lado: há, no meio de Lisboa, uma Biblioteca Nacional exactamente por baixo da rota que os aviões, uma avenida acima, usam para descolar e aterrar. É um lugar privilegiado para se testemunhar o efeito Doppler.

 

A leitura compraz-se de solidão e silêncio, dois estados em extinção. Outrora, podia-se estar entre estranhos, numa carruagem de comboio, e sorver a solidão sadia. Tornou-se lugar-comum dizer que a literatura serve para nos sentirmos menos sozinhos. Talvez essa propriedade comunal realmente exista, mas quando leio estou na presença de pessoas mortas que amavam o silêncio ainda mais do que eu. Não, a leitura nem me arrasta para a multidão nem me torna tolerante dela; pelo contrário, deixa-me quezilento, sensível como as orelhas de um gato: rabujo a cada barulhinho. O livro foi uma maneira que o silêncio inventou para domesticar os humanos e pô-los a trabalhar para ele. O livro é o esqueleto do silêncio, é ao longo dele que cresce e se adensa e ganha existência plena de sentido.

 

O silêncio, a custo, sem subsídios, vai subsistindo hoje em dia. Os que não o apreciam associam-no a ideias desagradáveis: a igreja, o velório, o cemitério, em suma a morte. O que é mais solitário do que a cama de hospital após a hora de visitas? Nós deitados nela com medo de gemicar porque, afinal de contas, é um hospital e não se deve falar alto. E depois aquele caixão feito à nossa medida, monolugar. Numa mesa de café cabem sempre dois. Portanto as pessoas ajuntam-se e cavaqueiam, pensando que por isso provam que estão vivas. O silêncio não é algo que dê para associar ao hedonismo, é o oposto do divertimento, e por isso os Departamentos de Marketing das grandes multinacionais não sabem o que fazer com ele senão exterminá-lo. Quer dizer, conseguirias tu vender carros e álcool com silêncio?

 

O silêncio, qualquer animal o sabe, significa que não queremos ser vistos. O silêncio é anónimo, mas agora odeia-se o anonimato; busca-se em vez disso a performance, o estrelato, os aplausos. Por isso o silêncio e a solidão adquirem conotação negativa, anti-social, secretista, elitista. Lugares pedantes como a casa de ópera e o museu exigem-no. A tirania, diz-se, gosta de calar as pessoas. Pelo contrário, as ditaduras desdenham o silêncio: nelas há marchas, megafones, discursos, palavras de ordem, operáticos rituais de auto-engrandecimento público, testes de mísseis estrondosos que ribombam pelos media fora. Nem sequer as câmaras de tortura se calam. Numa ditadura nunca se está dentro do silêncio, embora, valha a verdade, vivamos na ditadura do ruído.

 

A sociedade agora dá bastante valor à expressão artística; isso é óptimo, não me sinto ameaçado como outros artistas se sentem por todos agora quererem pintar, escrever, filmar, cantar. Só pode ser um bom sinal que hoje em dia sejamos, desde cedo, encorajados a expressar a nossa criatividade. Mas como a sociedade também sobrevaloriza a fama e a popularidade, e porque a solidão não parece conducente à fama, essa expressão far-se-á comunitariamente, será ruidosa porque ruído e popularidade forjaram uma aliança. Se queres ser famoso, cantas no Youtube, não escreves poesia num bloco quadriculado.

 

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Procurar livros, lê-los, não expressa nada porque não o estás a expressar a ninguém. Ler, sei-o muito bem, nunca foi uma das expressões artísticas predilectas dos outros; enchem-se teatros, coliseus, cinemas, discotecas, óperas, mas não bibliotecas. Há visitas de grupo a museus e monumentos, mas quem é que quer ter alguém a reboque numa livraria? Esse é o mal dos livros, tornam-me rude: diante das estantes, perco noção dos outros, deixo de me preocupar que alguém esteja à minha espera. Eis um paradoxo: ler requer concentração, mas não há nada mais casual do que navegar pela livraria; o museu segue um plano, o filme tem uma duração, fotografar um retábulo tem de ser rápido porque há outro turista à espera de uma aberta, mas os leitores adoram perder tempo a tirar e arrumar livros; essas multidões parecem coesas, mas cada um está ocupado demais para reparar no outro, ao passo que o leitor sozinho na livraria nunca se sente solitário.

 

O silêncio tem má reputação, porém é um grande amigo meu, não porque eu seja um ludita, mas porque sou um leitor. Hoje em dia, o silêncio é uma decisão importante; requer megalomania heróica porque diz que somos bons o suficiente para falarmos connosco próprios, que nos bastamos a nós mesmos, que não buscamos aceitação ou validação. Se calhar buscamos, mas mais devagar, com menos espalhafato. O lugar-comum talvez seja verdadeiro, o livro talvez nos faça sentir menos sozinhos; mas, para mim, o que o livro faz é dizer-me que eu não tenho de ter medo de estar sozinho comigo próprio, por mais que isso desagrade aos Departamentos de Marketing que me querem convencer que só sou normal se estiver a vomitar vodka já pago numa noitada ‘divertida’ em que estarei bêbado demais para fazer dela uma recordação importante. Ainda me lembro de frases de livros que li há 20 anos.

 

A reclusão diz também que temos pensamentos que não precisamos de partilhar, que realizamos tarefas obscuras de que não temos de nos gabar. Não sei se o silêncio, uma das facetas do recato, pode sobreviver. Artistas recatados, introvertidos, não gostam de dar entrevistas, de falar de si, de criar espectáculo. Mas o recato tornou-se desacato ilegal, e o silêncio anátema, condenado à amnésia. Os aprendizes de solidão, por falta de aptidão, escassearão no futuro. Concentração requer abnegação, ler solicita silêncio, mas o rádio ronca, o motor tosse, o carro chocalha, as colunas ladram, o telemóvel de peões dinamita os ouvidos, invade-os com conversas vácuas, varre para a sombra a concentração. O silêncio tem clemência; o ruído não respeita. O silêncio convive com o mistério, mas queremos tudo revelado, partilhado e discutido no programa de opinião.

 

De certa forma admiro o ruído: na sua sede de normalização, multiplicou-se por novos aparelhos, colonizou estilos de vida. Não há abismos nem píncaros onde me possa esconder; o ruído nivelou tudo como uma vasta planície, ao longo da qual o som se propaga ledo e livre. Sim, provavelmente é hoje a entidade mais livre do mundo: criam-lhe tecnologias, dão-lhe direitos, gastam fortunas nele; é intocável, invencível; fracassam em legislar contra ele porque é difícil fiscalizar a transgressão de leis que o limitam. Tem todas as qualidades que oxalá os livros em Portugal tivessem: é leve, é barato, é portátil, é bem distribuído.

 

Pouco ou nada posso contra os artesões do ruído. Resigno-me, aturo; não mudarei o mundo, luto por que ele me não mude. Apesar de tudo, acredito que um livro ainda consegue escavar novos veios de silêncio, descobrir jazigos de solidão contemplativa e enriquecer-nos, se formos receptivos. Continua a ser o melhor remédio contra o ruído. Hoje em dia vivo grato pela inesperada, efémera aparição do silêncio. É difícil programá-lo como se põe um alarme para tocar, pelo que o valorizo muito, como sangue nas veias.

 

Esta jeremiada fará cada vez menos sentido para os outros. Na sociedade de consumo simplificadora, moedora de nuances, vai-se perdendo noção de que há vários tipos de silêncio. Os essenciais estão misturados nos que o culto da euforia colectiva quer extirpar com toda a vitalidade de um tirano. Alguns silêncios são bastante alegres, mais do que multidões. Mas o espalhafato venerando não quer saber; há que escoar todo o ruído das prateleiras. Resta-nos preparar um funeral para a solidão. Dela ainda teremos saudades.

 

Luís Miguel Rosa

(blogue HOMEM-DE-LIVRO)

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9 comentários

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De JSP a 07.03.2018 às 13:01

Subscrevo.
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De Vlad a 07.03.2018 às 13:52

A solidão da leitura leva-nos ao silêncio das conversas interiores. A pensamentos falados. Aos personagens que tornam casa o vazio de dentro....

A leitura é conhecer a vida sem verdadeiramente a conhecer. Vemo-la pelos olhos doutro. Ou é o outro que vê, fingindo-nos?

Os maiores artífices da palavra escrita, da palavra dita, nunca tiverem maestria para as coisas da vida. Esse oficio que é viver. Misantropos, alcoólicos, marginais....que a vida deitou fora, ou dela saltaram em andamento, quem sabe? Esses que escreveram fazendo da lágrima e do sangue, tinteiro e horizonte.

A Vida é só isto? Não pode ser!!!

Versam sobre a vida, sobre o amor, os mesmos que nunca lhe conheceram o beijo. Poetas desamados. Escritores desalmados. Homens desarmados.....que fazem da sarjeta, da sobra da vida , um travesseiro.

A leitura, como a droga, é um escapismo à realidade pestifera.

Caminham em rima quem prefere a curva à linha. Antes a morte, que esse meio caminho!

Mas o silêncio é sempre o sino de uma morte ao longe....um desejo de beijo



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De Teresa Ribeiro a 07.03.2018 às 16:25

Excelente!
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De Vlad a 07.03.2018 às 16:55

Interessante essa sua frase:

"luto por que ele me não mude"

Futuro lema para uma revolução pacifica:

Lutemos não para que o mundo mude, mas para que ele não nos pior!
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De Maria Dulce Fernandes a 07.03.2018 às 21:58

Não consigo explicar as alegrias que enconto na ausência de ruido. Ou de barulho. O silêncio é um bálsamo e diz mais que todas as vozes em uníssono. Diz mais do que toda a panóplia de sons do universo ligada na harmonia de um só compasso.
Diz-me a mim, que o anseio no final de cada dia.
Escelente texto.
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De Maria Dulce Fernandes a 07.03.2018 às 23:37

Ressalvo a palavra: excelente
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De Pedro Correia a 07.03.2018 às 23:56

E ressalva muito bem.
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De Pedro Correia a 07.03.2018 às 23:04

Um dos melhores textos publicados desde sempre no DELITO. Bem-vindo, Luís Miguel.
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De Beatriz Santos a 08.03.2018 às 03:43

Parabéns ao autor e a quem escolheu o texto. Texto belíssimo por ser belo e também pelas verdades que contém; ainda que eu, teclando, vá partindo - devagar - o silêncio da leitura.

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