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Convidado: ANTÓNIO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 16.04.18

 

Herdar amigos

 

Existem heranças de toda a espécie. Há quem herde muito dinheiro. Há quem herde peças valiosas. Há quem herde cargos políticos ou administrativos. Felizmente, posso dizer que o meu Pai não me deixou nada disso. Eu só herdei a melhor coisa do mundo: amigos.

Com alguns deles, a amizade já estava reservada. Por exemplo, um amigo com quem o meu Pai tinha um almoço marcado para todas quartas-feiras, “quer estejamos, quer não”, passou a ser meu companheiro de almoços a que só podemos faltar “por força maior”. Com outros, foi amizade à primeira vista. Começou com um olá nervoso, um abraço a medo, e quando demos por ela... éramos amigos e não havia nada a fazer.

Certas amizades já existiam em segundo grau e foram promovidas. Por exemplo, herdei uma amiga que me passou a convidar para jantar em casa dela, ao domingo, de três em três semanas, garantindo assim matematicamente a subida de escalão. Mas outras vão fazendo o seu caminho, qual navegação à vista, por entre surreais coincidências. É o caso de uma amiga que, no dia de se processar a herança, estava a ler o mesmo livro que eu (mal sabe ela que esse livro me chegou às mãos através do meu Pai. É quase como se ele soubesse que íamos criar laços em volta dele).

Há amizades herdadas de um luxo fora do comum. Uma das amigas mais importantes que herdei foi herdada com amor, além de amizade. Essa é monumental e difícil de explicar. Mas outras são simples e igualmente boas. Por exemplo, herdei um amigo que atende sempre o telefone, responde sempre às mensagens e está sempre disponível para jantar um dia destes – e outro que não faz nada disso. Ambos já eram assim com o meu Pai, pelo que foi uma maravilhosa transferência directa de bens.

Não é nada complicado herdar amigos. Qualquer local serve: um restaurante, uma esplanada, uma biblioteca, uma casa acolhedora... Cada amizade pode ser herdada a seu tempo, sem preocupações e de maneiras diferentes. Não há obrigatoriedade de declarar os amigos herdados às Finanças. A pessoa pode mesmo tornar-se rica em amigos, todos eles herdados, sem ter de preencher nenhum formulário.

Herdar amigos é sempre uma surpresa. É impossível prever com antecedência quais os amigos que vamos herdar. Nenhuma amizade deve pressupor obrigações (muito menos para com os descendentes), pelo que até é comum nenhum amigo ser herdado. É preciso ser muito sortudo, como eu, para herdar vários.

É uma sorte do tamanho do mundo, porque herdar amigos é mesmo bom. Não se pense que os amigos herdados não estão à altura daqueles que são nossos por aquisição própria. É verdade que só se tornaram nossos por amizade à pessoa que nos deixou, mas são ainda melhores por causa disso, pois têm, nas suas memórias, partes dela que mais ninguém tem. Os amigos que herdei não substituem o meu Pai. Mas acrescentam. E de que maneira.

Sempre soube que é muito bom fazer amigos. Agora sei que também é óptimo herdá-los. Há até amigos que se herdam via blogue. Haverá coisa mais bonita?

 

 

 António Rolo Duarte

(blogue DORMINHOCO)

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4 comentários

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De Sarin a 16.04.2018 às 12:20

Tecido em laçadas leves, um texto de forte malha e suavidade acrescida - e não apenas porque suave a herança retratada.

Uma bonita homenagem ao Homem que deixou amigos e aos amigos que não deixam nem o Homem nem o filho.

Lamento a sua perda. Incomensuravelmente sua, também foi um pouco minha, leitora ouvinte apreciadora da serena forma de comunicar que tinha Pedro Rolo Duarte.

Além de amigos, António, penso que herdou também leitores. Pelo menos uma.
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De FatimaMP a 16.04.2018 às 14:28

Que homenagem bonita e comovente. Em todas as palavras, está presente mais do que um amor eterno, o que não sendo pouco, não é tão raro, mas, sobretudo, uma das mais bonitas e inspiradas formas de o expressar. Não fiquei totalmente surpreendida, já imaginava um pouco "este António", pela admiração e orgulho com que o Pai, por vezes, falava dele nalguns escritos que li. Não tenho a menor dúvida que foi uma herança mais do que merecida. Boa sorte, António! E nos iremos encontrando pelo "Dorminhoco"...
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De Pedro Correia a 16.04.2018 às 15:02

Belo texto, António. É um gosto ver-te por cá, ainda por cima numa série que chegou a contar com a participação do Pedro, teu pai.
Forte abraço.
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De Eduardo Louro a 17.04.2018 às 10:31

Do teu pai - e desculpa tratar-te assim mas, mesmo sem nunca te ter conhecido pessoalmente, quase que posso dizer que "te vi crescer" - não herdaste apenas amigos. Vê-se que herdaste muito mais. Até essa maneira de escrever. Que não se aprende, herda-se.
Um grande abraço. E lá nos vamos encontrando no Dorminhoco...

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