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Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 18.09.17

 

A primazia do individual sobre o colectivo

  

A esquerda encontra no Estado resposta para todos os problemas, aumentando sucessivamente a carga fiscal em nome do chamado Estado social, deixando os cidadãos sem metade do salário supostamente para garantir serviços de saúde e educação tendencialmente gratuitos, mas os portugueses continuam a gastar boa parte da outra metade do salário, precisamente em despesas com saúde e educação. Pelo meio vão atendendo aos interesses corporativos instalados, garantindo a chamada paz social, que não serve a todos, mas satisfaz os que têm capacidade de encher as ruas, berrando de megafone em punho.

Alguns radicais culpam o capitalismo e reclamam ainda mais Estado, para colmatar as insuficiências do sistema. Outros mais cínicos afirmam ser possível reformar, mas se cortam um imposto para efeitos propagandísticos ou satisfação da clientela, logo em seguida sobem outro, enquanto aumentam alguns cêntimos pensões e salários, procurando conquistar votos, mas no final o resultado líquido é sempre o mesmo, dívida e carga fiscal não param de crescer. Como se não bastasse, o Estado ainda serve para albergar familiares, amigos e correligionários políticos, auferindo salários acima da média e boa parte deles com emprego para a vida garantido. Enquanto o contribuinte tiver alguma disponibilidade no bolso, imaginação não faltará aos parasitas.

 

Seria suposto o Estado garantir segurança aos cidadãos, mas sobre isso estamos à partida conversados, viu-se agora no Verão o resultado dos incêndios, deixando a nu as ineficiências do Estado.

Em matéria de segurança criminal e justiça ainda é pior. Vários complexos típicos da esquerda tendem a desculpabilizar ou mesmo justificar comportamentos criminosos individuais. Acresce a tudo isto um sistema judicial moroso que ninguém ousa reformar, tornando Portugal um case-study. A memória do Estado Novo ainda não se apagou e há quem pretenda confundir autoridade das forças policiais com repressão. Falam em combater a corrupção, mas comparem o tempo que os EUA precisaram para julgar e condenar Madoff com o tempo que Portugal precisa para sentar um banqueiro ou político no banco dos réus. Apenas infracções de trânsito e evasões fiscais são tratadas de forma célere, muitas vezes demasiado céleres, sem garantir os direitos de defesa, tudo o resto é moroso.

 

Todos concordam na necessidade de descentralizar, aproximar os centros de decisão política dos cidadãos, mas ninguém ousa reformar de forma séria o mapa autárquico. A redução do número de freguesias foi imposta pela troika, ou não teria avançado, o número de municípios permanece intocável e se forem mexer será para aumentar. A não ser talvez, que num futuro não muito distante, Portugal seja obrigado a solicitar novo resgate. Porque há nos partidos militantes a precisarem de emprego como presidentes de câmara, vereadores ou assessores e mais alguns ainda para trabalhar nos diferentes serviços municipais.

Tenho para mim que num país da dimensão de Portugal bastariam cem municípios e talvez umas mil freguesias. Mas alguém acredita que será possível reformar profunda e eficazmente o Estado sem enfrentar uma contestação brutal? Basta encerrar um Tribunal, serviço de hospital, estação de correios ou balcão da CGD para se instalar a berraria.

 

esquerdadireita[1].jpg

 

À direita, em bom rigor poucos se assumem como direita, a maior parte dos políticos nessa área dizem-se sociais-democratas ou democratas-cristãos, para atrair votos da esquerda moderada, o que até não está mal de todo, uma vez que instalados no poder fazem exactamente o mesmo que os socialistas, mas sem contarem com a benevolência de boa parte das redacções nos media ou das corporações. No fundo são versões light do socialismo.

Liberal na economia, conservador nos costumes, ultimamente em Portugal alguma direita traça este auto-retrato. Alguém que pretenda para si Liberdade mas não a conceda aos outros será seguramente um hipócrita, sabendo à partida que da esquerda não se pode esperar muito nesta matéria. É triste constatar que da direita também não.

O nazismo é proibido ou tendencialmente silenciado ao contrário do comunismo. Num contexto de atentados terroristas de inspiração islâmica, não falta à direita quem pretenda colocar barreiras à imigração. Quanto a mim todas as ideologias e religiões devem ser permitidas e toleradas. Pouco me importa que defendam Hitler, Estaline ou Mao. Que adorem Alá, Jesus Cristo ou até o Diabo se preferirem. São os comportamentos criminosos, individuais ou de grupo que devem ser perseguidos e reprimidos, nunca a convicção ou pensamento. A Liberdade tem essa superioridade moral: quem verdadeiramente a ama e pratica, defende-a até dos que pretendem suprimi-la.

 

Também não me revejo nos que à direita se dizem liberais na economia, mas defendem subsídios para a tourada em nome da tradição. Não gosto dos anti-tourada, aliás, não gosto dos anti seja o que for, a tourada existe e deve existir enquanto existirem espectadores. Qual a moral de criticar um subsídio para o cinema, teatro ou qualquer actividade que a esquerda habitualmente considera de interesse público, mesmo que não interesse ao público, forçando que todos a paguem e depois fazer exactamente o mesmo? Não se pode defender o mercado e apregoar suas virtudes apenas às segundas, quartas e sextas.

Se a Liberdade é virtuosa, porque terei que continuar aceitando que o Estado defina as substâncias que posso ou não consumir? Os efeitos do álcool são assim tão diferentes da cannabis ou mesmo cocaína? Conduzir sob efeitos que limitam o comportamento será diferente, porque não somos da via, apenas a partilhamos com outros, fora disso cada um tem o direito de fazer o que quer. Até porque já o faz. Hipocritamente os governos combatem e proíbem a droga, mas alguém que pretende consumir determinada substância não a consegue adquirir?

 

O comportamento sexual de cada um é com cada um. Não quero saber da conversa da esquerda reivindicando direitos para grupos específicos, gostaria sim de ver os que se dizem liberais defendendo a Liberdade plena de todos os indivíduos. Porque a questão de fundo é a primazia do individual sobre o colectivo. A esquerda funciona numa lógica grupal, colectiva, por isso amarra pessoas a rótulos, os conservadores fazem o mesmo, apenas consideram existir grupos bons e grupos maus, oferecendo à esquerda os votos da causa. Esquecem ambos que os direitos não são colectivos, mas individuais.

O insuportável politicamente correcto deve ser combatido porque configura a perda da Liberdade, da individualidade, pretende impor à sociedade uma normalização que por vezes até a faz parecer um rebanho. Nada de novo, o velho socialismo sempre colocou o colectivo acima do indivíduo, obtendo o desastroso resultado que todos conhecemos.

A esquerda não pode ser combatida apontando os seus erros e incompetências, mas defendendo a Liberdade em todas as suas vertentes. Ao contrário do que alguma direita defende, não se podem abrir excepções: a Liberdade precisa ser total e não condicional.

 

 

António de Almeida

(blogue AVENTAR)

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11 comentários

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De Anónimo a 18.09.2017 às 10:50

Completamente de acordo!
A liberdade individual é, incondicionalmente, a base de toda a dignidade humana.
Precisamente por isso, ninguém nem nada a pode usar de forma a limitar a liberdade individual de alguém.
O regime concentracionário de recursos, bens e competências a que temos estado sujeitos condiciona decisivamente a liberdade da grande maioria dos indivíduos, tornando-a simplesmente uma formalidade.
Todos têm a liberdade formal de visitar a Austrália, mas poucos reúnem as condições para a exercer.
Uma pena!
João de Brito
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De João Silva a 18.09.2017 às 12:17

"O regime concentracionário de recursos, bens e competências a que temos estado sujeitos condiciona decisivamente a liberdade da grande maioria dos indivíduos, tornando-a simplesmente uma formalidade.
Todos têm a liberdade formal de visitar a Austrália, mas poucos reúnem as condições para a exercer."
É aí que eu acho que está o problema.
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De João Silva a 18.09.2017 às 11:04

"chamada paz social, que não serve a todos, mas satisfaz os que têm capacidade de encher as ruas, berrando de megafone em punho."
É aí que está o erro de encarar todos os cidadãos como iguais em capacidades quando, na realidade, uns têm muito mais capacidade (no sentido de poder) do que outros pelo que os mais fracos necessitam de protecção. Por isso é duvidosos dar a primazia ao cidadão. Há uns que têm capacidade de zelar os seus interesses na rua, berrando. Mas há outros que os podem defender de maneira muito mais eficaz, prejudicando outros, no remanso dos seus gabinetes sem darem nas vistas e sem que os notem. Ora temos de ter isto em conta ou ... então facilitamos a vida a quem tem capacidade para estar por cima sem que se note.
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De Luís Lavoura a 18.09.2017 às 11:56

num país da dimensão de Portugal bastariam cem municípios

É preciso, antes de atirar com um número, pensar nas funções que os municípios são supostos desempenhar.

Atualmente os municípios são shamados a desempenhar funções tecnicamente muito complexas, como sejam tratar e depositar em aterro os lixos, captar e distribuir água, construir estradas municipais, fixar a extensão das Redes Ecológica e Agrícola Nacionais, etc, tudo funções que exigem a contratação de bastantes técnicos bastante especializados.

Tendo isto em conta, é preciso municípios com uma extensão não trivial e uma capacidade financeira, idem.

Eu diria que, neste quadro, deveríamos ter municípios mais ou menos com a extensão dos departamentos franceses. O que quereria dizer mais provavelmente 50 municípios do que 100. O que quereria dizer que os atuais municípios se deveriam juntar às meias-dúzias.
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De Luís Lavoura a 18.09.2017 às 11:58

Os efeitos do álcool são assim tão diferentes da cannabis ou mesmo cocaína?

São substancialmente diferentes, sim. Por exemplo, como toda a gente sabe, o álcool tende a induzir comportamentos violentos, coisa que a canabis e a cocaína não induzem. A cocaína atua frequentemente como um estimulante, coisa que o álcool não faz. E assim por diante.
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De Maria Dulce Fernandes a 18.09.2017 às 12:15

Excelente. Muito bom.
Subscrevo praticamente tudo o que disse.
Assim pudesse e soubesse expressar por palavras o que tantas vezes me vai na alma.
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De Vlad, o Emborcador a 18.09.2017 às 12:32

Maddof foi o Manuel Godinho lá do sítio. Outros deveriam estar presos, nomeadamente ex Secretários do Tesouro/Defesa que sabiam, por trabalharem em Wall Street, da contabilidade criativa e dos perigos dos derivados - Goldmsn Sachs, Citybank, UBS, Lehman, etc- e nada fizeram . Tal como em Portugal os políticos americanos conhecem bem a porta giratória Estado /Empresas.

Quanto ao Estado que temos ele é fundamental, em Portugal, para alimentar os privados- desde o Estado Novo que assim é - berrando estes contra o monstro público apenas para disfarçar as suas más maneiras alimentícias
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De Luís Lavoura a 18.09.2017 às 15:57

os que à direita se dizem liberais na economia, mas defendem subsídios para a tourada

Nunca os vi a defender subsídios para a tourada. Mas o que já vi são tipos que se dizem liberais na economia e por causa disso são fortemente contra subsídios ao teatro e ao cinema, mas que não abrem a boca para serem contra subsídios à ópera ou à música clássica.
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De Pedro Correia a 19.09.2017 às 11:13

Bem-vindo ao DELITO, caro António. Com um texto que, como se verifica, atraiu justificamente as atenções dos nossos leitores.
O que não admira.
Abraço.
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De António de Almeida a 20.09.2017 às 17:26

Um abraço caro Pedro Correia e obrigado pelo convite. É sempre um prazer.
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De Pedro Soares a 19.09.2017 às 11:34

Sim, sim, a liberdade total.
Assino uma petição para acabar com o código penal. Já.

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