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Convidada: SOFIA GONÇALVES

por Pedro Correia, em 16.02.18

 

Sai um crime ambiental para a mesa 6!

 

Aquele ditado, “mais vale prevenir que remediar”, é mais um “olha para o que te digo e não para o que faço”. Embora exista a intenção de minimizar problemas, a política ambiental em Portugal não existe. Existem obrigatoriedades e preceitos europeus e internacionais impostos, mas também existem umas quantas sub-leis, entrelinhas, e outras entidades em que essas mesmas directrizes não se aplicam. Somos um povo de excepções.
A economia verde foi criada por capitalistas. Foi só uma forma de embelezar um capitalismo, com um mote mais carismático para o povo que agora já não é tão ignorante e começa a preocupar-se com o fim da vida como a conhecemos. As lâmpadas que poluem menos, o combustível que tem menos impacto, o filtro de água para evitar comprar garrafas de plástico e toda uma panóplia de objectos e acções do dia a dia que nos foram sendo incutidas com o intuito de contribuir para um planeta mais limpo e salvar o mundo no final do dia. Comprar um filtro de mês em mês não deixa de ser uma forma de consumismo? Gastamos menos plástico, mas não deixamos de produzir resíduos se pensarmos em todo o processo que está na criação daqueles filtros desde o plástico, como o próprio filtro interior, como o revestimento de plástico e cartão para estar nas prateleiras do supermercado, como o transporte que foi necessário até chegar à nossa mão. E depois, quando queremos separar e dar um final correcto a esses materiais? Já tentaram ir a um local de recolha de resíduos vender “lixo”? Recebem dinheiro por cartão, e plástico mole, e aço, e ferro, e sucata, etc. Mas também têm de pagar para ficarem com entulho de obras, por exemplo, para ficarem com plástico duro, e outras formas. Ou seja: no final, temos de pagar para ficarem com o nosso lixo (isto como se já não pagássemos nas facturas da água). Na minha humilde opinião, o nosso problema não está em arranjar soluções para destruir o nosso lixo, mas arranjar formas de deixar de criar tanto material.
Mas onde cabia aí o capitalismo?
Posso falar-vos noutra forma de capitalismo ambiental, que já todos conhecíamos, mas foram precisos anos de incêndios e a perda de vidas de vários portugueses para abrirmos os olhos: o nosso ordenamento territorial.

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Ainda era eu uma estudante universitária de biologia, em 2013, quando a agora líder de um dos maiores partidos portugueses, Assunção Cristas, criou uma lei sobre a plantação do eucalipto. Diziam os defensores desta lei que a ideia não era estragar a floresta portuguesa, mas sim acabar com a burocracia da florestação. Pois é, só faltou mencionar que é permitido plantar livremente um eucalipto praticamente em qualquer lado, mas é necessário notificar as autoridades caso queiram plantar um carvalho, que seria o mais normal, tendo em conta toda a história e evolução biogeográfica do nosso país.

É possível que tais directivas sejam impostas, quando já ouvi profissionais da área mencionarem que em áreas desflorestadas, para evitar a erosão, o melhor era plantar eucaliptos e acácias, mesmo depois de contrapostos por colegas meus a sugerir que a melhor opção seria plantar arbustos autóctones, como ericas, ou azinheiras.
O eucalipto é uma planta exótica. Como várias outras espécies exóticas, que se adaptaram ao nosso ambiente, proliferaram e podem tornar-se espécies oportunistas, galgando terreno facilmente. O eucalipto foi um bom oportunista porque parasitou o melhor vector que podia encontrar: humanos. Dá-nos jeito, cresce rápido e fornece madeira. E quando uma coisa faz o mesmo efeito em menos tempo isso geralmente é sempre mais dinheiro para a carteira de uns. Neste caso, falamos do interessado final: os madeireiros. As percentagens de eucaliptos e pinheiro bravo em Portugal são muito próximas. Estas duas espécies são das mais usadas pelas principais madeireiras. Numa discussão com um técnico desse tipo de indústria, afirmei que o problema dos incêndios em Portugal não reside só nos eucaliptos, mas também nas monoculturas, na inexistência de barreiras, nas extensões de um só tipo de matéria-prima. Ele contrapôs que não era esse o problema e questionou como é que eu resolvia a diferença de crescimento entre espécies diferentes e a falta de espaço para cortar uma árvore sem cortar a do lado. Eu admiti que é um problema, mas quilómetros e quilómetros de terrenos queimados e pragas difíceis de controlar, como acontece agora no eucalipto, não são melhores escolhas.
A liberalização do eucalipto foi uma grande ajuda para a industria madeireira, como os OGM foram uma ajuda para empresas como Monsanto. Assim vamos deixando na mão de alguns o que é de todos, deixando-os estragar o pouco de bom que ainda sobra deste mundo. O Tejo é só mais um reflexo disso: um bem público passa a ser usufruto de entidades privadas, que passam intactas pois as entidades que deviam gerir e punir estão compradas. Acham mesmo que o Estado não faz ideia da qualidade das águas? Acham mesmo que os estudos são feitos como deve ser? Basta eu dizer que tenho X por cento deste elemento químico na água, que aparece uma empresa que pertence a alguém muito importante primo de outro alguém importante no Governo que mostra que com as directivas delas esse X por cento do elemento não faz mal. E já nem disserto acerca do impacte ambiental que tem uma só barragem numa comunidade.

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Gosto de pensar, na minha mente sonhadora “hippie”, que os biólogos um dia ainda vão ser os super-heróis deste mundo: tantos agora sem trabalho e daqui a uns anos não vão chegar para os problemas ambientais. Gosto de pensar que ainda vamos conseguir colocar a mão na consciência e, como chegou a moda das vidas zen e hygge, chegará a onda da consciência ambiental forte. Gosto de pensar que vamos desacelerar a nossa forma de viver, que vamos usar o bom conhecimento que temos para realizar o verdadeiro BEM. Que a energia renovável vai ser melhor e que o que é de todos passará a ser respeitado e conservado.
O meu medo é que um dia, ao acordarmos, todos os nossos rios sejam o Tejo e todas as nossas florestas sejam Pedrógão.

 

Sofia Gonçalves

(blogue THE DAILY MIACIS)

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42 comentários

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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 10:16

À Sofia faria bem ter umas propriedades rústicas das quais tivesse que cuidar, como eu tenho, para saber o que custa.

Plantar azinheiras para suster a erosão é uma asneira, uma vez que as azinheiras crescem muitíssimo lentamente. Antes que a azinheira ganhe um bocado de raiz, que demora meia dúzia de anos, já o solo foi todo levado embora.

A vantagem de o eucalipto crescer depressa é uma vantagem bem real, no nosso país onde os matos crescem de dia e de noite, de verão e de inverno. Se a Sofia planta carvalhos (e eu sei do que falo, porque eu próprio já plantei muitos), tem que gastar dinheiro durante uma dúzia de anos (pelo menos) a limpar a terra regularmente, caso contrário cresce um matagal sob os carvalhos. Os eucaliptos, pelo contrário, têm a vantagem de ocupar rapidamente a terra e combaterem os matos, impedindo que o matagal cresça muito.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 12:49

Se não tem mão no herdado, venda e não se queixe.
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De Justiniano a 16.02.2018 às 10:55

Eucaliptofobia 3.0 e quejandos, com ilustrações e tudo!! Mas valha à autora que gosta de pensar e sonhar, que bonito!! Sim senhora!!
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 12:51

O sonho comanda a vida.
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De Justiniano a 16.02.2018 às 13:56

O meu medo é que um dia, ao acordarmos, se realizem os sonhos destes sonhadores!!
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 14:21

Justiniano o que não falta são fundos comunitários para espécies florestais autóctones. O que pagam, os madeireiros, pelos eucaliptos, é uma miséria, sobretudo se tiver que contratar mão de obra para limpar/adubar o eucaliptal . O que muita boa gente quer são rendas. Dinheiro sem esforço. Para se ter rentabilidade na produção florestal tem que ter um destes dois critérios :

-Extensão ou trabalhar o proprietário naquilo que é seu.

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De Justiniano a 16.02.2018 às 15:20

Eu sei, caro Vlad! Mas ainda pagam melhor doque ao pinheiro!! Ainda em Novembro, andei a pedinchar para me levarem os pinheiros queimados mas só queriam levar os eucaliptos!! Agora ando a ver se arranjo dinheiro para surribar a terra, em Abril, e, lá para janeiro, plantar carvalhos lusitanos e castanheiros, antes que me prendam!!
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 17:07

Não sei o tempo que dispõe, ou a sua disponibilidade física, nem a extensão da propriedade, nem a sua localização, nem se o seu objectivo é meramente lúdico ou comercial. Mas e Oliveiras? Vinha? Amendoal?.....Tudo culturas que se dão bem em terras pobres
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De Luís Lavoura a 17.02.2018 às 14:57

Oliveiras, vinha e amendoal são tudo coisas que exigem trabalho e atenção e visitas mais ou menos constantes.
Hoje em dia boa parte dos proprietários habita nas cidades e não podem dar esse trato. E mesmo as pessoas que habitam nas aldeias já não têm tempo nem forças para cuidar dessas coisas.
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De Sarin a 18.02.2018 às 02:44

As associações de produtores florestais promovem as Zonas de Intervenção Florestal. Planos de gestão florestal e intervenções por conta da entidade gestora, eventualmente negociação de preço, canal de escoamento, certificação... Tente verificar junto da AFN (Autoridade Florestal Nacional) quais as ZIF na sua zona, os seus terrenos podem estar integrados em alguma sem que o Justiniano tenha aderido - mas pode aderir a qualquer momento. Também pode tentar descobrir quais as associações na sua zona e contactá-las.
Boa sorte.
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 16:48

trabalhar o proprietário naquilo que é seu é apenas uma forma de disfarçar a despesa que a terra dá. O proprietário, em vez de gastar dinheiro a pagar a outrém para tratar da terra, gasta o seu próprio tempo. No fim a terra talvez lhe dê (mais) lucro, mas isso é porque ele não contabiliza o tempo que gastou a trabalhar nela.
De facto há hoje muitos reformados que usam o seu tempo para tratar da terra (e fazem eles muito bem). Mas, e se uma pessoa não estiver na reforma?

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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 19:09

É reforma não interessa. Uma desculpa. O importante é conservar a força da verga.
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De Marina Molares a 16.02.2018 às 11:35

Gostei muito. Esta gente quer sol na eira e chuva no nabal , quer crescimento económico e quer lutar contra o aquecimento global.... Remediar o mal que estamos a fazer é simples e barato : basta voltar a consumir ao ritmo dos nossos avós , sem desperdícios e sem luxos. A economia verde não passa de uma grande tanga para dar dinheiro aos exploradores de mitos.




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De Sarin a 16.02.2018 às 13:30

"Remediar o mal que estamos a fazer é simples e barato: basta voltar a consumir ao ritmo dos nossos avós, sem desperdíciose sem luxos."

Para isso, basta voltarmos a ser tantos quantos éramos no tempo dos seus avós, que até poderá ser o dos meus também mas cujos relatos e vagas memórias não me convidam a ter saudades.
Porque teremos de voltar ao telefone na tasca da aldeia-sim aldeia-não, ao carro-de-bois e ao peixe seco e à carne salgada, à candeia de azeite e ao gramofone de manivela. À escarlatina e ao tétano e à difteria e aos dentistas de alicate e à eclâmpsia e à cesariana de navalha e água fervida.

Porque luxos também são as indústrias que produzem e embalam vacinas e anestesias e medicamentos, incluindo as bulas e as caixas; luxos também são as refinarias de petróleo e a indústria que produz condutas e perfuradoras e navios, a indústria que produz equipamentos hospitalares ou satélites de comunicações.
São luxos, só podem ser luxos, se a parte da população que a tudo isto tem acesso é muito menor do que aquela que sobrevive sem electricidade telefone ou medicamentos.


O desperdício é só uma outra parte da questão.
A quantidade de gente a consumir, os animais que se criam para nosso alimento, os vegetais que se criam para alimentar os humanos e os animais criados para o mesmo fim, os produtos usados para garantir a produção de vegetais... mesmo os chamados produtos naturais têm processos produtivos altamente poluentes; e o pior: não são suficientemente eficazes para garantir alimento à população. Quer dizer, à que tem acesso a alimentos diversificados, a outra população anda mal nutrida mas lá vai vivendo.


Voltar atrás é impossível.
A menos que defenda o extermínio de uns biliões de humanos que por cá andam.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 14:29

Meu caro Aum Shinrikyo, que tal reparar em vez de comprar? Que tal comprar géneros alimentícios que se consumam num dia e não para as semanas vindouras que hão -de acabar no lixo. Para quê TV no quarto, cozinha, sala...Porquê. .....
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De Sarin a 16.02.2018 às 15:16

Ah, não, Empalador, essa colagem não!!!!


Mas concordo com a reparação, em absoluto! Acontece que a política de reciclagem só entende o reprocessamento. Falta a tal Política Ambiental vertida depois noutras estratégias que retirem efemeridade aos bens produzidos. Faltam peças, faltam técnicos, falta moderação no consumo. Bolas, tem malta a ganhar a vida a escrever em blogs que o produto x é bestial, blogs que são lidos avidamente ao minuto; quer ensinar, num dia e sem rede, esta malta do imediatismo a esperar?!

Porquê?
Política Ambiental, onde? Educação para a Cidadania, onde?


Sobre os alimentos, Vlad, não se esqueça que os perecíveis têm uma pegada ambiental enorme só em transporte e conservação.
Pessoalmente, olho à zona de produção, de perecíveis e de tudo. E também faço os meus boicotes, mas isso é política pessoal - não está a ver a UE a autorizar taxação ambiental ao quilómetro, está? Se nem as especificidades edafo-climáticas a UE consegue perceber... ou se percebe finge que não.
E depois, um estômago vazio pode mandar mais do que a consciência.


Eu sei que é óptimo tudo o que nós, cidadãos, possamos fazer enquanto tal. Mas, caro Drácula, é manifestamente insuficiente. Para a população e para o planeta.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 17:12

Uma boa estratégia são os produtores locais e os produtos da estação....concordo.

Quanto ao reparar recomendo o Youtube...tem por lá vídeos que são bastante educativos quanto às reparações mais comuns...

Deixo-lhe aqui um link para a impressora não bloquear por contagem de cópias:

http://www.ssclg.com/epsone.shtm

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De Sarin a 16.02.2018 às 19:12

Hummm, não sei se lhe agradeça a amabilidade ou o mande bugiar por provocação...

Li-lhe uma frase parecida, mas a dualidade pão ou liberdade replica frases quase sem esforço. Suponho que não esteja a reclamar direitos de autor, não me obrigue a sacar exemplos das arcas encoiradas das zip...
Mas ainda bem que falou nisso, convém esclarecer que apresentei um resumo de um pensamento seu e com a devida indicação de proveniência. Resumo porque ainda não tinha este vídeo para desbloquear a impressora e sacar tudo! Ok, no visor do telemóvel V ou Vlad pareceu o mesmo, mas eu bem que estranhei o "seu" discurso... enfim, posso dizê-lo, percebi que a sua cartilha era outra.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 19:35

O V. é o meu lado oculto lunar.. tipo primo de excentricidades.
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De Sarin a 16.02.2018 às 23:41

Registado :D
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De Sarin a 16.02.2018 às 19:15

Ah, sim, e ou o endereço está incompleto ou o sai-te obedeceu e pisgou-se...
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De Anónimo a 17.02.2018 às 15:42

Gosto ...

WW
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De Sarin a 18.02.2018 às 02:29

Obrigada.
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De The Daily Miacis a 16.02.2018 às 11:39

Penso que em nenhum ponto disse que eu era contra a plantação do eucalipto, eu sou contra é massificação e monocultura.

Sim o eucalipto cresce rápido e até tem um certo cunho no êxodo rural do interior para o litoral, e sei perfeitamente que mexe na economia e ajuda. Portugal há poucos anos era dos terceiros maiores exportadores na Europa de madeira.

Mas também sei perfeitamente que não é exactamente a melhor opção no que toca incêndios e no que toca à floresta autóctone. E penso que devíamos pensar um pouco mais na floresta autóctone porque, eu falei do eucalipto mas a segunda grande monocultura de madeira em portugal é o pinheiro bravo. Mas não invade as florestas autotones com a mesma rapidez que o eucalipto. Daí a minha pequena aversão a esta massificação sem cuidado.



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De Justiniano a 16.02.2018 às 13:30

Pois, cara Sofia, explicou-se mal! ( Penso que em nenhum ponto disse que eu era contra a plantação do eucalipto, eu sou contra é massificação e monocultura.)
Não ajudou a menção deturpada à tal lei da Cristas de 2013!?? A tal lei retirou a necessidade das autorizações administrativas à plantação de eucaliptos em prédios de área não superior a 1,5hect, diga-se que não preenche o tal conceito de "massificação" e "monocultura". E onde leu a Sofia que seria necessário notificar as autoridades para plantação de carvalhos em prédios com a mesma dimensão limite!!?? Isto (só faltou mencionar que é permitido plantar livremente um eucalipto praticamente em qualquer lado, mas é necessário notificar as autoridades caso queiram plantar um carvalho) é patético ou, no mínimo, desinformado e desautoriza todos os argumentos que pretenda introduzir na discussão.
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 14:53

Eu também sou contra a monocultura. Porém, quando se está numa situação de minifúndio, cada proprietário individual tenta tirar o lucro possível da sua parcela e isso leva a que todos os proprietários sem exceção optem pela espécie que lhes promete maior retorno financeiro. E assim se gera, na prática, uma monocultura.
Se a Sofia tivesse meia dúzia de hectares para gerir na serra do Caramulo, não iria plantar sobreiros (que aliás são dificílimos de fazer crescer quando plantados). Se tivesse seis mil hectares sim, poderia plantar sobreiros aqui e ali.

o pinheiro bravo não invade as florestas autotones com a mesma rapidez que o eucalipto

Nem o pinheiro bravo nem o eucalipto são espécies invasoras. São espécies que o Homem planta, em maior ou menor extensão, consoante o seu desejo. Não são espécies que tenham um comportamento autonomamente invasor.

Se a Sofia se preocupa com espécies invasoras, sugiro-lhe estas: silvas; canas; acácias; salgueiros. Essas espécies sim, crescem onde ninguém as manda e cobrem terrenos inteiros num instante.
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De Justiniano a 16.02.2018 às 15:24

Principalmente as Acácias, autentica praga!
E sim, o mito do eucalipto invasor mas de que se não conhece nenhum invadido.
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 16:53

Fala-se muito das acácias (e com razão) por serem uma espécie não-autótone. Mas também há espécies bem portuguesas, como as silvas, que são terríveis invasoras. E as canas, embora não sendo de origem portuguesa (são vietnamitas) e embora toda a gente já esteja muito habituada a elas, também são terríveis a cobrir terrenos. Finalmente, se uma pessoa tem um terreno encharcadiço, os salgueiros cobrem-no ainda mais depressa do que os eucaliptos. Mesmo eucaliptos já com raízes formadas são menos rápidos a crescer do que salgueiros. Os salgueiros matam tanto eucaliptos como choupos (em terrenos baixos e muito húmidos).
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De Anónimo a 16.02.2018 às 11:46

É um paradigmático que alguem que ainda há cinco anos estava na universidade, ande a pregar que "o capitalismo ambiental" está a "estragar o pouco de bom que ainda sobra deste mundo."

Sendo que, depreende-se, o pouco de bom que ainda havia neste mundo era o Tejo e e a floresta de Pedrogão, e tudo o eucalipto estragou em menos de 5 anos.

Um pouco menos de dramatismo e perspectiva histórica só lhe fazia bem. Mas isso é como mostrar dados sobre a brutal melhoria na qualidade de vida global nos últimos 100 anos aos que não se cansam de perorar sobre os malefícios do capitalismo selvagem.
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De Tiro ao Alvo a 16.02.2018 às 19:39

E o amigo esqueceu-se do pinhal de Leiria, que ardeu quase todo.
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De xico a 16.02.2018 às 12:14

Até que os biólogos sejam super heróis é preciso que sejam esclarecidos de alguns erros aqui mencionados. As florestações e reflorestações, de eucaliptos ou de outra coisa, carecem de licenciamento florestal. A plantação de eucalipto não é mais livre que o carvalho. Não há liberdade total. Os eucaliptos não são um problema de madeireiros, pois a sua principal função em Portugal é a pasta de celulose para o fabrico de papel e não produção de madeira. A florestação de eucaliptos, desde 1 de janeiro, está proibida com excepção.... o problema agora está nas excepções! Quanto a acabar com as espécies exóticas na nossa floresta, não podia estar mais de acordo, mas é preciso que as pessoas das cidades entendam que vão ter que pagar aos proprietários rurais o serviço ambiental que estes prestam. Isto é, ou pagam pelo ar que consomem, ou ninguém vai estar interessado em plantar carvalhos.
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De Justiniano a 16.02.2018 às 14:16

"vão ter que pagar aos proprietários rurais o serviço ambiental que estes prestam. Isto é, ou pagam pelo ar que consomem, ou ninguém vai estar interessado em plantar carvalhos." É precisamente esse, caro Xico, o ponto fundamental, à semelhança de outros programas agrícolas.
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De Sarin a 16.02.2018 às 12:17

Subscrevo quase na íntegra.

A questão económica é fundamental na equação. Porque o Ambiente é bem comum, mas se todos assumimos as perdas ambientais das catástrofes, no que às Florestas (e campos agrícolas) toca, só os proprietários arcam com os custos de conservação e manutenção.


Restringindo à Floresta uma matéria que é extensível à Agricultura e aos Recursos Hídricos, a Economia Ambiental está 200 anos atrasada na Terra e 20 anos em Portugal. Urge discutir esta matéria - é fundamental para a revitalização do, porque madeira é apenas UM bem produzido mas é O bem transaccionado, com a biomassa a começar a ser vaorizada na fileira da celulose e como combustível noutras fileiras.

A responsabilidade pela manutenção da biodiversidade e da estrutura do solo, pela produção de oxigénio e pela preservação da paisagem e do microclima passa pelas Florestas. Os tais "bens comuns". O indivíduo não tem que pagar o oxigénio que respira - mas talvez deva pagar a sua renovação quando adquire um objecto, um processo que o afecta (já nos tiram dinheiro para isso em alguns). Não ao Estado, mas ao produtor que garante essa renovação, essa manutenção - incluindo o próprio Estado. Mas o Mercado de Carbono ainda se resume a Estados ricos comprarem quotas a Estados pobres para que as suas indústrias continuem a poluir acima dos limites acordados.

Assim como a paisagem. Passeamos livremente por campos e florestas - umas tratadas, outras abandonadas a si mesmas ou ao que as queira devorar. Não pedimos licença tal como não pagamos o privilégio. Mas choramos o fogo, crucificamos quem não trata, não ordena, não protege, num jogo do empurra entre o Estado e os produtores.


E ainda se queixa a sociedade ingrata pelos (parcos) subsídios atribuídos ao sector - que não necessariamente ao produtor. Sem esses, e graças à ausência de Política Ambiental, teríamos provavelmente os mesmos fogos, mas teríamos muito provavelmente mais área ardida e certamente menos gente a conseguir extrair rendimento da floresta.

Não precisamos de subsídios para ter Floresta. Não precisamos de investimento crescente no combate aos incêndios, investimento que nunca é suficiente e que não é claro por onde circula.
Precisamos "apenas" de valorizar a Floresta enquadrando-a numa Política Ambiental desmaterializada.


Obrigada por ter abordado o assunto, geralmente aflorado pelo detestado Ordenamento. Muito bom texto.
Oxalá esta floresta perdida nos obrigue a trabalhar em profundidade e não apenas para cumprir calendário. E oxalá não se cumpra a profecia de os biólogos virem a ser insuficientes para os problemas.
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De Tiro ao Alvo a 17.02.2018 às 09:20

Sarin, concordo consigo.
Se me fosse perguntado, proporia este seu comentário para comentário da semana.
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De Sarin a 17.02.2018 às 11:52

Obrigada pela amabilidade :)

Não procuro reconhecimento, apenas contribuir para a discussão daquilo que nos une enquanto cidadãos, e acho que nesta matéria andamos todos a sentir parecido mas a chutar pedras sem alvo porque falta um Plano Integrado e Nacional que possamos corrigir.
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De Tiro ao Alvo a 17.02.2018 às 13:50

Sim, falta um plano nacional, credível, que aponte a direcção a seguir. Mas a ignorância é muito grande, e a maior parte dos "opinadores" estão bem instalados, falando de barriga cheia, convencidos que sobre florestas e fogos florestais sabem tudo, desde as causas até às soluções.
Saiba que tenho uma pequena propriedade florestal (menos de dois hectares), que mantenho por uma questão de tradição familiar, de que não tiro rendimento, antes pelo contrário.
Acontece que ao lado dessa minha propriedade, integrada numa zona de reserva ecológica, a Câmara Municipal deixou construir uma habitação a menos de 20 metros da minha extrema. E vai daí eu sentir-me na obrigação de, regularmente, mandar limpar a parte confinante, bem como a faixa ao lado do caminho, agora não apenas florestal. Não há muito tempo despendi 1.800 euros dos meus proventos, que não são muitos, para fazer aquele serviço, valor que NUNCA mais recuperarei, até porque, junto ao quintal do vizinho, plantei carvalhos que, dizem-me, demoraram mais de 30 anos até atingirem um tamanho que evite ou atrase o crescimento de silvas e matos.
Isto para lhe dizer que estou a pagar um preço elevado por uma coisa de que aproveitarei pouco ou nada, ou seja, que estou “apenas” a velar pela conservação da natureza, um bem de que aproveitam todos os meus conterrâneos, mas cujos custos só eu suporto. E ninguém me agradece, como sabe.
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De Tiro ao Alvo a 17.02.2018 às 13:56

Demorarão, em vez de demoraram. Aqui vai a correcção:
Sim, falta um plano nacional, credível, que aponte a direcção a seguir. Mas a ignorância é muito grande, e a maior parte dos "opinadores" estão bem instalados, falando de barriga cheia, convencidos que sobre florestas e fogos florestais sabem tudo, desde as causas até às soluções.
Saiba que tenho uma pequena propriedade florestal (menos de dois hectares), que mantenho por uma questão de tradição familiar, de que não tiro rendimento, antes pelo contrário.
Acontece que ao lado dessa minha propriedade, integrada numa zona de reserva ecológica, a Câmara Municipal deixou construir uma habitação a menos de 20 metros da minha extrema. E vai daí eu sentir-me na obrigação de, regularmente, mandar limpar a parte confinante, bem como a faixa ao lado do caminho, agora não apenas florestal. Não há muito tempo despendi 1.800 euros dos meus proventos, que não são muitos, para fazer aquele serviço, valor que NUNCA mais recuperarei, até porque, junto ao quintal do vizinho, plantei carvalhos que, dizem-me, demorarão mais de 30 anos até atingirem um tamanho que evite ou atrase o crescimento de silvas e matos.
Sim, falta um plano nacional, credível, que aponte a direcção a seguir. Mas a ignorância é muito grande, e a maior parte dos "opinadores" estão bem instalados, falando de barriga cheia, convencidos que sobre florestas e fogos florestais sabem tudo, desde as causas até às soluções.
Saiba que tenho uma pequena propriedade florestal (menos de dois hectares), que mantenho por uma questão de tradição familiar, de que não tiro rendimento, antes pelo contrário.
Acontece que ao lado dessa minha propriedade, integrada numa zona de reserva ecológica, a Câmara Municipal deixou construir uma habitação a menos de 20 metros da minha extrema. E vai daí eu sentir-me na obrigação de, regularmente, mandar limpar a parte confinante, bem como a faixa ao lado do caminho, agora não apenas florestal. Não há muito tempo despendi 1.800 euros dos meus proventos, que não são muitos, para fazer aquele serviço, valor que NUNCA mais recuperarei, até porque, junto ao quintal do vizinho, plantei carvalhos que, dizem-me, demorarão mais de 30 anos até atingirem um tamanho que evite ou atrase o crescimento de silvas e matos.
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De Luís Lavoura a 17.02.2018 às 15:08

Exatamente. Excelente comentário.
É isso mesmo. As Câmaras Municipais decretam que certas zonas são urbanizáveis, depois vem um cromo e constrói a sua moradia lá, e prontos, os vizinhos é que se lixam, que a partir daí têm que limpar as suas propriedades com muito cuidadinho, não podem ter lá nada que arda, o que na prática quer dizer que não podem ter lá mesmo nada, porque as árvores todas, sem exceção, ardem.
Se isto fosse um país a sério, nenhum indivíduo seria autorizado a urbanizar fosse o que fosse sem ser proprietário de todos os terrenos 50 metros à volta do edificado. Só assim cada indivíduo se poderia responsabilizar pessoalmente pela segurança daquilo que edificou.
E sim, os carvalhos demoram dezenas de anos até combaterem de forma minimamente eficaz o crescimento das silvas. Eu plantei carvalhos (americanos) numa propriedade minha há doze anos e ainda agora tenho que anualmente lá mandar uma pessoa com um trator para limpar aquilo, porque os carvalhos ainda não dão sombra suficiente para evitar o crescimento do mato.
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De Tiro ao Alvo a 17.02.2018 às 21:18

"!Se isto fosse um país a sério, nenhum indivíduo seria autorizado a urbanizar fosse o que fosse sem ser proprietário de todos os terrenos 50 metros à volta do edificado. Só assim cada indivíduo se poderia responsabilizar pessoalmente pela segurança daquilo que edificou".
Sim, é esse o espírito da actual legislação em vigor no nosso país, mas alguns técnicos camarários, inclusive os ligados à preservação do ambiente, fazem uma leitura diferente e permitem o licenciamento de construções sem o necessário espaço envolvente para uma boa defesa do edificado contra o fogo. E depois as nossas autoridades não querem saber desses "pormenores" e, em havendo queixas, toca a levantar autos e aplicar coimas (que são de valor elevado) e quem se sentir lesado que vá para o tribunal defender-se, suportando as correspondentes despesas.
Reparou, com certeza, que, por uma vez, concordei inteiramente consigo.
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De Sarin a 18.02.2018 às 03:22

Sei como funciona, sim, Tiro ao Alvo: mal, muito mal.


Mas também sei porque funciona mal: há uma coisa que se chama Plano Director Municipal (PDM), que alguns municípios demoraram anos a aprovar, e que de vez em quando-dá-jeito ignoram ou olvidam. E ignoram ou olvidam porque há duas ferramentas muito democráticas que nós, cidadãos, não usamos: éditos públicos e publicados para serem lidos pelos munícipes - mas não são; assembleias de freguesia ou municipais - que têm a presença do executivo e de alguns deputados, dos cidadãos geralmente só quando a matéria chega à própria porta.
Dar uma vista de olhos aos regulamentos e éditos das freguesias e dos municípios, participar nas assembleias por puro exercício de consciência, enviar e-mail com denúncia de situações (não sobre os cidadãos mas sobre a organização e gestão do espaço público...), sugestões aos vereadores e deputados, ... - tudo formas de participar sem sermos membros de nada, só da comunidade.


Eu sei, parece que é matéria distinta. Mas não é. Nas florestas como no resto. O laxismo, o incumprimento, o "jeitinho"... acontecem porque nos demitimos das nossas obrigações: "os políticos é que ganham, os polítcos que façam", "não tenho pachorra", "não percebo nada do assunto, não vou lá fazer nada", "não é comigo, não interessa" e mais umas trezentas justificações que mais não são do que, literalmente, desculpas de mau pagador. Maus pagadores dos nossos deveres enquanto cidadãos.

Enfim, é a minha visão. É uma.
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De Tiro ao Alvo a 18.02.2018 às 14:40

Sim, Sarin, volto a dar-lhe razão. Para mim não diga mais nada: o que disse chega para eu enfiar o barrete, na parte que me toca.
De facto tenho frequentemente alinhado no grupo dos que ""não tenho pachorra", "não percebo nada do assunto", "não vou lá fazer nada", "não é comigo", "não me interessa".
Verdade que me demorou bastante a desanimar, mas o "tempo" resolve muitas coisas...
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De Anónimo a 19.02.2018 às 08:57

O respeito pelo outro é, muita vez, aparente. E, logo, a propriedade que é de todos deveio de ninguém; portanto, para quê respeitá-la? Não tem um rosto a assumi-la e a pedir contas e é impossível, na ausência de consciência cívica, amar e respeitar bens comuns. Tais valores transitaram para o ter e haver pessoal. Fora desse pequeno círculo que cada um deseja alargar a qualquer preço, não há responsabilidade. Parece-me ser este o espírito que predomina. Mas a Terra é a casa comum que destruímos pouco a pouco. Visto deste ângulo, o homem surge como o habitante mais insensato do planeta.
Não sei, a cada nova catástrofe ambiental, desacredito e pergunto-me até quando os nossos rios e florestas aguentam os desmandos e mantêm a capacidade de se renovar. Até quando podem as outras espécies suportar os nossos lixos, até quando o conjunto não colapsa e nos atinge em definitivo.

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