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Delito de Opinião

Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

Pedro Correia, 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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