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Convidada: MAGDA PAIS

por Pedro Correia, em 19.01.18

 

Sem manual de instruções

 

Nunca se falou tanto em educação de crianças. A cada virar de página há alguém que se auto-intitula como o guru da educação, o único que pode ensinar os pais e o único em que todos os seus casos são de sucesso. Há centenas de milhares de livros, de blogs, de revistas sobre o mesmo tema e até um programa de televisão sobre o mesmo tema, esmiuçando o comportamento dos pais, dos filhos, da influência do cão, do canário ou do periquito no futuro dos gaiatos. Estuda-se, analisa-se, conclui-se e, por fim, dão-se fórmulas quase matemáticas para que a educação funcione.

Diz-se o que se pode dizer ou fazer em contraposição com o que não se deve fazer ou proibir. Colocam-se as crianças em redomas de vidro, não as deixando errar para não sofrerem. Não podem chumbar na escola ou ser contrariadas porque isso afecta a autoestima. Não podem estudar muito para não se cansarem.

Nunca os pais tiveram tanta informação como hoje em dia. E serve para... quase nada. Os miúdos continuam a não trazer manual de instruções. Estamos perante um ser humano que terá de ser educado mas não programado. Que terá de aprender a lidar com as frustrações e de perceber que o mundo gira à volta do sol e não da sua pessoa. Que tem de errar para aprender. Que tem de perceber que não pode ter tudo o que quer. Que tem de ganhar autonomia e de não ser apaparicado. Tem de aprender a ouvir um redondo NÃO e aceitá-lo. Tem de, em casa, ter pais e não amigos.

 

Sou a mãe mais imperfeita que possam imaginar. Não quero ser perfeita, quero só fazer o que acho melhor para os meus filhos. Mesmo que isso seja ir contra aquilo que os ditos gurus acham importante.

Os meus filhos ajudam em casa desde sempre. Obviamente com tarefas adaptadas à idade. Desde que começaram a ir à escola que se vestem sozinhos. Desde que foram para o ciclo que vão sozinhos para a escola. Têm, desde que entraram no ciclo, uma mesada que gerem como entendem, sabendo que é desse dinheiro que têm de pagar as refeições que fazem fora de casa ou as idas ao cinema. Se querem telemóveis XPTO, mudar de computador ou comprar uma máquina fotográfica, têm de juntar dinheiro para o fazer.

 

Escolho muito bem onde me devo impor. Não exijo que façam tudo como eu quero. Não me preocupo com a roupa que vestem ou com a cor do cabelo mas, em troca, quero boas notas e bom comportamento. Podem andar de sandálias no inverno ou calças com buracos mas não podem responder torto nem usar telemóvel na escola. Têm de respeitar os outros e a língua portuguesa.

Não os julgo mas, em troca, têm de ser honestos. Quando têm problemas, propomos soluções mas não os resolvemos por eles. Gostamos e queremos conhecer os amigos deles mas não intervimos nessas relações.

Dizemos não quando é preciso e sim sempre que possível. Deixamos que saiam sozinhos ou com os amigos, desde que nos avisem onde vão, quando vão e quando regressam. E têm horas de chegar a casa (mais uma vez adaptadas à idade).

 

Ambos sabem que somos permissivos e exigentes ao mesmo tempo. Aprenderam que cada acção tem uma consequência e que só depende deles se essa consequência é boa ou má. Se não cumprem as regras, a consequência é um castigo que depende do grau e gravidade do incumprimento.

E conversamos. Desde sempre. Explicamos o quê e porquê e, sempre que possível, decidimos em conjunto o que fazer.

Ser pai ou mãe não é fácil. Mas também não é um bicho-de-sete-cabeças. É uma experiência constante, uma aprendizagem diária e um desafio. Mas é tal e qual como diria o Noddy: Um desafio! Gosto disso!

 

 

Magda L. Pais

(blogue STONE ART)

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24 comentários

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De Anónimo a 19.01.2018 às 10:56

E o pai?! Onde está o pai?!
As coisas complicam-se, quando há pai e há mãe.
E não me refiro aos casos em que os filhos são usados como arma de arremesso ou de defesa...
João de Brito
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 11:25

Olá João Brito. No texto falei que sou mãe porque fui eu que o escrevi. Mas, se reparar, falo sempre no pai e mãe, nos pais. Cá em casa pai e mãe falam à mesma voz. As decisões, sejam lá elas qual forem, passam por ambos.
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De Vlad, o Emborcador a 19.01.2018 às 11:46

E o padrasto educador vs pai fazedor de crianças? Quem é "pai"? Aquele que educa, durante anos, ou aquele que faz um "menino"em "4 minutos" de puro prazer? Como estamos de Código Penal /Civil? De proteção ao padrasto /madrasta?

Padrasto soa a Madrasto? Culpa das histórias da Disney em defesa da família tradicional?



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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:24

pai é quem cria, quem educa. O resto é paisagem.
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De Vlad, o Emborcador a 20.01.2018 às 08:42

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De Anónimo a 19.01.2018 às 12:21

"As decisões, sejam lá elas qual forem, passam por ambos." E quem tem o voto de desempate? No caso de dois decisores é bom tê-lo.
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:27

é verdade. Devia haver um voto de desempate. Mas como somos um casal tradicional, somos só dois a decidir o rumo a dar à educação dos filhos.
fora de brincadeiras, na realidade as decisões sobre tudo, cá em casa, passa pela negociação. Eu cedo algumas vezes, outras é o meu marido que cede. Nenhum de nós tem a arrogância de achar que é a última batata do pacote e que pode decidir em nome de ambos
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De Pedro Correia a 19.01.2018 às 11:04

Bom dia, Magda. Obrigado pela visita. E pelo texto, sobre um tema inesgotável.
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 11:25

Obrigado eu pelo convite. Foi uma honra
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De A rapariga do autocarro a 19.01.2018 às 13:01

E olha que parecem-me muito boas práticas Orientar e deixar explorar!
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:27

é que nem consigo imaginar fazer as coisas doutra forma
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De Psicogata a 19.01.2018 às 15:10

Não sei se era a intenção, mas acabaste por deixar aqui uma excelente base para educarem-se crianças autónomas, responsáveis e saudáveis.
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:29

ups.. não, não era a intenção. Basicamente são regras simples que me parecem fazer sentido. Ou pelo menos mais sentido que outras que ouço por aí e que me deixam de cabelos em pé
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De P. P. a 19.01.2018 às 18:52

Excelente "parágrafo":

"Nunca os pais tiveram tanta informação como hoje em dia. E serve para... quase nada. Os miúdos continuam a não trazer manual de instruções. Estamos perante um ser humano que terá de ser educado mas não programado. Que terá de aprender a lidar com as frustrações e de perceber que o mundo gira à volta do sol e não da sua pessoa. Que tem de errar para aprender. Que tem de perceber que não pode ter tudo o que quer. Que tem de ganhar autonomia e de não ser apaparicado. Tem de aprender a ouvir um redondo NÃO e aceitá-lo. Tem de, em casa, ter pais e não amigos."

Diz tanto, mas tanto!
Parabéns.
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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:30

Obrigado P.P.
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De Maria Araújo a 19.01.2018 às 19:34

Parabéns, Magda.
Dizer não, fazer ver a realidade da vida, ceder, proporcionar as ferramentas para que cresçam por si, é educar.


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De Magda L Pais a 19.01.2018 às 22:31

Obrigado Maria

Não consigo, realmente, ver outra forma de fazer as coisas. Afinal não vou andar cá sempre a proteger os meus filhos
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De Maria Araújo a 19.01.2018 às 23:14

Sem dúvida, Magda.
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De José da Xã a 20.01.2018 às 09:59

Um tema sempre actual. E controverso.
Parabéns Pedro pela noa escolha.
Parabéns Magda pelo assunto que fii destaque.
Bom fds.
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De Magda L Pais a 21.01.2018 às 20:24

Obrigado José. É um tema que me diz muito.
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De Pequeno caso sério a 20.01.2018 às 10:18

Parabéns Magda!Tudo dito.
Se metade dos pais conseguisse fazer o que descreves, as escolas seriam sítios bem melhores para TODOS.
Creio que as prioridades de hoje estão todas invertidas e é aí que reside o cerne da questão. A geração dos pequenos tiranos há-de crescer e infelizmente pagaremos TODOS essa fatura.

Não são precisos programas de televisão para educar um filho...mas desconfio que se a SIC te descobre, a Nanny vai à vida.
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De Magda L Pais a 21.01.2018 às 20:27

Eu já só pedia que metade dos pais percebessem que tem de educar os filhos e não deixar essa tarefa para a escola. Esta geração que ainda é pequena está a ficar tirana, egocêntrica e pouco preparada para a idade adulta o que acaba por ser um contra-senso nos dias que correm
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De a 21.01.2018 às 00:03

Parabéns pelo texto. Gostei do que li, Magda.
Quanto a mim, mãe de três filhos, a educação compete aos pais, a educação - transmissão de valores - regras - princípios - vem/dá-se em casa, já à escola - o papel da escola - é ensinar.
Para mim a educação dos filhos é com base no amor, no respeito e na liberdade.
Deixo-lhe um excerto de um livro do pediatra espanhol Carlos González;

"...É impossível estragar um bebé dando-lhe muita atenção.

Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar o seu choro.

Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la. Não existe nenhuma doença mental causada por excesso de colo, de carinho,de afagos...não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais, ou porque lhe cantaram canções de ninar demais, ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crónico, parece ser a maior preocupação de nossa sociedade."

in "Bésame Mucho"
Dr.Carlos González


p.s. - não vi e desconheço por completo o programa de televisão que tanta polémica tem gerado nos últimos dias. normalmente programas de televisão, passo.


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De Magda L Pais a 21.01.2018 às 20:29

Adorei o trecho. Concordo plenamente. Ainda hoje mimo os meus filhos (apesar deles já fugirem disso como normais adolescentes ehehhehe).

Também não vi o dito programa. Só vi mesmo as críticas e as queixas. Não tenho paciência para tanta parvoeira junta

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